Férias, mortes, divórcios. O que deixa os animais deprimidos

Comportamento. Há cães que não conseguem lidar com a ausência dos donos, sobretudo quando estão habituados a passar muito tempo com eles, e sofrem de ansiedade e depressão

Faial é um pastor alemão de um ano e meio que sofre de ansiedade de separação. Sempre que Ana se ausenta, o que acontece frequentemente porque é hospedeira de bordo, o cão uiva compulsivamente e deixa de comer. Só volta a alimentar-se quando a tutora regressa, o que por norma acontece dois ou três dias depois. Sempre que está em casa, Ana tenta compensar a sua ausência com mimos. Mas quando volta a sair para trabalhar a história repete-se.

A perda de apetite, a destruição de objetos, a apatia, o ladrar excessivo e, em situações extremas, a automutilação são sinais de que os cães podem sofrer de ansiedade de separação ou até mesmo de depressão. Isto pode acontecer devido às ausências dos donos para trabalhar ou em períodos de férias, a situações de divórcio ou mesmo à morte de uma pessoa que é próxima. Em alguns casos, chega a ser necessária a prescrição de ansiolíticos e antidepressivos.

"Há pessoas obsessivamente ocupadas com os animais e, por vezes, por razões profissionais ou outras, ausentam-se, sem preparar o animal. Este sofre com a ausência do dono, sobretudo se estiver habituado a estar sempre com ele", diz Ilda Rosa, professora de Comportamento e Bem-Estar Animal na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa. Para que isso não aconteça, o animal deve habituar-se a ausências temporárias. "Para preparar as férias, os donos podem começar a afastar-se mais tempo, deixar o cão alguns períodos no sítio onde vai ficar, levá-lo para conhecer a pessoa que vai cuidar dele", sugere.

Numa situação de depressão, o cão "deixa de comer, de se mexer, de se limpar. Entra em apatia extrema". As alterações nas rotinas, as mudanças de casa e a solidão podem desencadear estas alterações de comportamento. Segundo Ilda Rosa, os "divórcios também são um horror" para o bem-estar do animal. Tal como a morte dos donos. Há uns anos, recorda, um cão cuja dona tinha morrido e com o qual os filhos não estabeleceram uma relação próxima "deixou-se ir" e morreu passado pouco tempo.

Pedro Paiva, fundador da Pet B Havior, explica que "os cães não estão preparados para estar sozinhos, porque não têm capacidade de interpretar a ausência. Quando são privados do contacto com os donos, alguns entram em depressão". Por isso, o especialista em comportamento animal também defende que é necessário preparar os animais de estimação para estarem sozinhos: "Quando o tutor está em casa, o animal não tem de estar sempre em cima dele. É preciso disciplinar." O ideal, prossegue, é trabalhar "na prevenção e educação do cachorro".

Em situações de elevado stress, há cães que se automutilam. Contactada pelo DN, Inês Ribeiro, diretora clínica da Associação Zoófila Portuguesa, recorda um caso de um animal que nunca tinha socializado com outros cães e que, com a chegada de um outro elemento de quatro patas à família, foi deslocado para o quintal. "Com o passar do tempo, os sinais de agressividade e medo foram crescendo e o contacto com a família foi sendo progressivamente menor", conta a veterinária. O cão começou a mutilar-se e "acabou por ingerir uma parte considerável da cauda". Esta foi amputada e, como não houve alterações na convivência com o animal, este "começou a automutilar um dos membros".

Nos gatos, o stress também se manifesta de diferentes formas. Além das alterações de comportamento, Inês Ribeiro fala em "lipidose hepática": uma mudança de casa, o nascimento de um bebé na família, as férias dos responsáveis, uma mudança na ração ou na areia podem "levar a que percam o apetite, originando um processo de mobilização de gordura que se acumula no fígado, causando um autoperpetuar da falta de apetite". Em muitos casos é fatal, alerta.

Nas situações de ansiedade de separação e depressão, Ilda Rosa diz que pode ser necessária terapia comportamental e até mesmo a administração de ansiolíticos ou antidepressivos. Mas, muitas vezes, o tratamento também requer alteração de comportamentos por parte dos donos. Em primeiro lugar, ressalva, "é preciso determinar se não há uma causa médica" associada aos sintomas.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.