"Faz falta uma rede integrada na área da violência doméstica"

Íris Almeida é psicóloga forense e diz que é preciso trabalhar a economia mas para as pessoas

A sociedade portuguesa é "conformista e tem falta de criatividade". O diagnóstico é da psicóloga forense Íris Almeida, 41 anos, habituada a traçar perfis criminais e a fazer avaliações de risco para tribunais no crime de violência doméstica. É na cooperativa de ensino superior Egas Moniz, no Monte de Caparica (Almada) que o encontro acontece, com uma vasta área verde em redor a trazer serenidade ao espaço. No diagnóstico da psicóloga não há indignação no tom de voz, apenas constatação. Na sua recusa em conformar-se, Íris Almeida considera que a sociedade tem de evoluir "nas mentalidades e crenças, naquilo que julga ser o papel do homem e o papel da mulher". Para que as estatísticas de violência doméstica não nos continuem a envergonhar, sugere uma mudança. "Faz falta uma rede integrada na área da violência doméstica. Todas as instituições - tribunais, polícias, associações, etc. - deviam falar a mesma linguagem e ter a mesma leitura dos fatores de risco". Não é isso que acontece, garante. "Por exemplo, algumas instituições concluem que já não há risco para a vítima porque o casal está separado. Não, pelo contrário".

De que doença pode sofrer um país que ainda faz balanços de dezenas de mulheres mortas por ano em contexto conjugal? "A nossa doença são as crenças. Somos uma sociedade patriarcal conservadora. Já fizemos um longo caminho mas ainda temos de fazer mais."

Íris Almeida também é mãe e admite as dificuldades em instituir o conceito de igualdade à filha, que ainda tem apenas 7 anos. "Por muito que eu tente trabalhar a família e as crenças do papel do homem e da mulher, a escola e a socialização com outras crianças acabam por se sobrepor ao que incutimos em casa. A minha filha não quer o azul e o verde porque é de menino, quer o cor de rosa porque é de menina. Quando estava no jardim de infância, era o preconceito de ter um menino na sala de aula que gostava de brincar com bonecas".

Não é fácil. Por outro lado, os estímulos das novas relações dos jovens, através das redes sociais, nem sempre são os melhores. "Não há respeito e falta muito a comunicação. Estamos a tentar superar a crise económica mas não estamos a trabalhar para superar a crise de valores e investirmos mais na família e na comunidade".

O conformismo português é um entrave, na sua opinião. "Quando a troika esteve em Portugal, aceitámos tudo. Noutros países quase dava uma revolução. Aqui não." Para a psicóloga, a nossa dependência da União Europeia impossibilita-nos de ter um futuro fora deste espaço comum de 27 Estados membros (o Reino Unido está de saída). "Se não estivéssemos na União Europeia ainda estaríamos no século passado. Não aguentaríamos o tombo de uma saída. E ficaríamos sem financiamentos para a investigação em ciência e outros setores".

E a investigação é um dos pilares do desenvolvimento. Em ciências sociais, é o que permite conhecer melhor a sociedade em que estamos inseridos. Um dos novos fenómenos é a violência contra idosos, que está também associada a uma nova realidade económica e social. "No gabinete de Psicologia Forense do Egas Moniz estamos a desenvolver um instrumento de avaliação de risco para idosos para aplicar a nível nacional, no que é um projeto conjunto com o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa e a Escola de Criminologia do Porto." Íris Almeida explica por que é importante analisar os fatores de risco dos idosos. "Devido à crise económica dos últimos anos, muitos filhos voltaram para casa dos pais. Assistimos a um conflito intergeracional que acaba muitas vezes em situações graves. Ainda não estamos preparados para esta nova realidade. Muitas vezes os idosos não querem apresentar queixa contra os filhos."

É por isso que insiste: "É preciso trabalhar a economia mas para as pessoas." Voltando ao tópico da violência doméstica, Íris Almeida lembra que se tem descurado o comportamento dos homens que agridem. "A maior parte dos agressores vêm de uma família em que o homem era agressor e a mulher vítima, e estão a replicar comportamentos, a repetir o que aprenderam. Sabemos que uma coisa não leva necessariamente à outra, mas há muitos casos destes."

A Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) tem um programa de acompanhamento dos agressores conjugais mas, na opinião da psicóloga, não é suficiente. "A DGRSP não consegue acompanhar todas as situações. Tem um programa de acompanhamento em meio prisional. Esse programa também é aplicado a arguidos em processos de violência doméstica como medida de coação. O que acho é que poderia haver um maior leque de instituições a trabalhar com os agressores, nomeadamente algumas ligadas à psicologia forense."

Íris Almeida espera também que o governo aposte mais nas ações de sensibilização nas escolas para os fenómenos do bullying, da violência no namoro e do stalking. Porque está tudo ligado.

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