12 a 15 cadáveres por ano na universidade do Porto para investigação

Cerimónia lembra e sensibiliza para a existência destes programas, "muito importantes para a formação dos médicos"

A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) recebeu, na última década, uma média anual de 12 a 15 cadáveres para estudo e investigação, no âmbito do Programa de Doação Cadavérica da Unidade de Anatomia da FMUP.

"A doação do corpo, que tem de ser feita em vida e por vontade própria, é um ato de uma grande generosidade. São dádivas que não têm preço para as faculdades de medicina e que são absolutamente importantes e fundamentais, quer para a formação dos médicos quer para aperfeiçoamento dos já formados", disse à Lusa a coordenadora da Unidade de Anatomia da FMUP.

Dulce Madeira falava a propósito de uma cerimónia que a Faculdade de Medicina do Porto realiza quarta-feira no Cemitério de Agramonte para homenagear todos os cidadãos que, desde 1980, têm contribuído para manter vivo o Programa de Doação Cadavérica da Unidade de Anatomia do Departamento de Biomedicina da FMUP.

Esta cerimónia visa "não só relembrar o papel fundamental deste gesto solidário na formação de novos médicos e desenvolvimento de novas técnicas mas, também, honrar os dadores e suas famílias", referiu, salientando que a homenagem decorrerá no 'Serenarium', um espaço verde e "bastante tranquilo", cedido pela Câmara do Porto, para depositar as cinzas dos dadores.

Ao contrário do que acontece com os órgãos, a intenção de entregar o corpo à ciência deve ser manifestada em vida, nos termos da legislação publicada em 1999.

A FMUP disponibiliza online um formulário que as pessoas podem preencher e enviar, manifestando a sua vontade de doar.

"Hoje temos cerca de 120 intenções de doação, mas o número de cadáveres que nos chega não corresponde ao número de intenções manifestadas. É um número muito reduzido, de apenas cerca de 10% das vontades manifestadas", disse, considerando que tal se deve, porventura, a esquecimento ou desconhecimento dos familiares.

A cerimónia de quarta-feira é, assim, da "mais elementar justiça, para quem dá tanta coisa, que é o seu próprio corpo, e por outro lado é o momento de lembrar e sensibilizar para a existência destes programas, que são muito importantes para a formação dos médicos", sublinhou.

"A nossa faculdade funcionou sempre com base em material cadavérico. Mesmo nos tempos de grande aperto tinha de haver uma gestão muito cuidadosa dos recursos, para que não faltassem cadáveres aos alunos da pré-graduação, que são a nossa prioridade", disse.

Mas, segundo Dulce Madeira, "há cada vez mais necessidade de ter este tipo de disponibilidade também para os que já são médicos e especialistas, uma vez que necessitam de treinar técnicas novas, que não devem ser testadas em pessoas vivas".

"Cada vez as cirurgias são menos invasivas, muito pelo método laparoscópico, o que faz sentido, porque a capacidade de recuperação é maior, mas isso implica mais treino do que o método anterior. Antigamente era preciso saber anatomia, olhávamos e víamos. Neste momento é preciso saber como é que se lá chega, sem lesar estruturas que estão ao lado", sublinhou.

Dulce Madeira frisou que "é essencial que os jovens médicos aprendam em pessoas reais e não em modelos".

"Até porque somos todos parecidos, mas não somos todos iguais. Sem estas doações não conseguimos formar melhores profissionais com conhecimentos sólidos e de maior humanismo", sustentou.

Segundo a coordenadora da Unidade de Anatomia da FMUP, a grande maioria dos doadores são mulheres, com idades entre os 50 e os 70 anos.

A cerimónia de homenagem está agendada para quarta-feira, às 16:00, no Cemitério de Agramonte. A sessão contará com intervenções de Maria Amélia Ferreira, diretora da FMUP, Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, Hugo Pinto Abreu, capelão do serviço religioso do Centro Hospitalar São João, em representação doadores, e Diogo Cabral, em representação dos estudantes da faculdade.

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