Músico lusodescendente revoltado com exílio fiscal de Florent Pagny em Portugal

O músico francês, Florent Pagny

O cantor disse que não julga diretamente Pagny, mas lamenta que "as pessoas aproveitem as falhas da Europa para ir ganhar mais dinheiro"

A decisão do cantor francês Florent Pagny de se instalar em Portugal por motivos fiscais está a provocar várias reações em França e revoltou o músico lusodescendente Da Silva.

Na sua conta Facebook, o cantor lusodescendente escreveu, na terça-feira, um longo texto em que começava por denunciar que "ir viver para Portugal para não pagar mais impostos em França é lamentável", tendo a mensagem tido mais de 3.300 partilhas, obtido mais de 2.200 comentários e registado mais de nove mil reações.

Em declarações à Lusa, Da Silva disse que decidiu exprimir-se porque é algo que o "toca profundamente", uma vez que compreende que se deixe um país "por razões políticas, quando há um tirano no poder, por razões climáticas, pela fome, pela falta de trabalho", mas não compreende "como é que se deixa o seu país apenas para fugir aos impostos sobre os direitos de autor e 'royalties'".

"Eu também faço parte dos 5% de franceses que pagam mais impostos que todos os outros, mas se toda a gente se for embora, o que deixamos à França? Foi em França que fomos à escola, que crescemos. Foi a França que acolheu o meu pai e tantos outros quando Portugal era uma miséria. E é graças aos impostos de todos que podemos ajudar os que precisam"

Atualmente em digressão com o novo disco "L'Aventure", Da Silva disse "gostar tanto de Portugal como de França", tem 13 tios e o pai a viverem em Portugal, mas nunca lhe passou pela cabeça mudar de país para fugir aos impostos porque considera que o seu "papel enquanto artista" é "dar um pouco" do que lhe dão e porque "abandonar os mais carenciados só para comprar mais um carro é uma imbecilidade".

"É verdade que um artista paga muitos impostos, mas se somos tão tributados é porque nos sobra muito para viver. Se ganhamos, sei lá, 300.000 euros por ano, temos de dar 100.000 aos impostos, mas ainda sobram 200.000 para viver! Quando se ganha muito dinheiro, paga-se mais impostos", resumiu.

O músico ressalvou que não julga diretamente Florent Pagny, mas "todo o sistema através dele", lamentando que "as pessoas aproveitem as falhas da Europa para ir ganhar mais dinheiro" e defendendo que "devia haver uma política fiscal europeia".

O cantor, de 41 anos, que lançou seis álbuns em França, insistiu que não tem medo de dizer o que pensa, apontando como "uma vergonha" que em França se "deixe que os ricos partam e não se queira que os emigrantes entrem".

"É lamentável. Há quem me diga que não tenho nada que me meter, mas claro que me meto, é a vida do meu país, explicou o cantor, apontando que Pagny "não vende os seus discos em Portugal".

"As pessoas pensam que o que ele fez é um ato de rebelião, mas é um ato egoísta. Não acho correto. Todas as pessoas que ganham dinheiro no nosso país devem pagar no nosso país".

Esta semana, o cantor francês Florent Pagny revelou ao jornal Le Parisien que decidiu instalar-se em Portugal "por verdadeiras razões fiscais", elencando que "não há impostos sobre as 'royalties' durante dez anos", nem imposto sobre a sucessão, nem imposto sobre a fortuna.

Esta quinta-feira, a ministra das Forças Armadas francesa e antiga secretária de Estado do Orçamento Florence Parly afirmou, na estação de rádio Franceinfo, que considera "um pouco indigno" o exílio fiscal do cantor.

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