Eva e Eva deram uma dentada na maçã. E a igreja baniu-as

Durante este mês de agosto, o DN está a republicar artigos da série Amor Moderno. Este é de novembro de 2016.

Quando se é educada para se ser uma boa rapariga cristã, não nos limitamos a ir à igreja; namoramos com a igreja. A igreja é a nossa companheira com quem passamos fins de semana e noites, o namorado cujos amigos se tornam nossos amigos, a amiga com quem compartilhamos todos os nossos sonhos.

Eu era realmente uma boa rapariga cristã, assim não me limitei a namorar com a igreja, casei com ela.

Depois de me formar numa faculdade do Midwest, cujo lema é "Por Cristo e o Seu Reino", mudei-me para Nova Iorque. Foi a primeira vez que saí do casulo evangélico e a minha prioridade era encontrar uma igreja que eu pudesse amar, à qual pudesse dedicar a minha vida e fazer dela o meu centro espiritual e social.

A minha busca terminou em Brooklyn, onde encontrei uma igreja de gente nova criativa e jovens profissionais que, como eu, estavam à procura de uma fé menos carregada de fundamentalismo. Construímos uma camaradagem rápida, inclusive com o nosso pastor, que era simultaneamente um amigo, um parceiro e um líder espiritual. Nós juntávamo-nos nos bancos da igreja aos domingos, mas também nos bares e salas de estar uns dos outros durante a semana.

Aquela congregação tornou-se rapidamente o meu mais-que-tudo. Fiz os meus votos de adesão e comecei a liderar um estudo da Bíblia, a ensinar na escola dominical, a participar em reuniões de planeamento semanais e a oferecer-me para inúmeras outras tarefas. Comprometi-me com esta igreja com o vigor e a alegria de uma jovem noiva. Como a maioria das mulheres solteiras na minha situação, a minha prioridade seguinte foi encontrar um marido nesta igreja. Há um tema recorrente de triângulos amorosos no cristianismo. Como o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo; o evangelismo também ensina a santa trindade do matrimónio: homem, mulher, igreja. Assim, todas as semanas, eu perscrutava as filas de bancos à procura de alguém sem aliança no dedo.

Num domingo, reparei numa nova mulher de casaco de camurça, com o cabelo curto e escuro escondido debaixo de um chapéu de abas. A nossa conversa não foi digna de nota mas, mesmo assim, fiquei cativada. Fiz-lhe o convite mais evangélico: "Gostaria de vir ao meu estudo da Bíblia?"

Ela disse que sim. Depois apareceu para jantar. Depois começou a dormir no meu sofá. Encontrávamo-nos para tomar café e um whisky e acabámos por já não saber de quem era a vez de pagar a conta. Convenci-a de que andar de bicicleta em Nova Iorque não era muito perigoso, então ela comprou uma bicicleta num site de vendas em segunda mão.

Quando ela caiu - duas vezes! -, voltámos para o meu apartamento, onde limpei as pedrinhas incrustadas na sua pele e lhe liguei o tornozelo. Uma vez fomos inadvertidamente a uma exposição de arte gay e lésbica, e eu fui obrigada a pensar sobre nós. Mas não me permiti reconhecer o que era tão dolorosamente óbvio.

No entanto, durante os meses que se seguiram, quando Jess começou a guardar sapatos extras no meu armário e a trazer mantimentos para expandir a minha dieta de burritos congelados, não pude negar que me estava a apaixonar. E, com essa perceção, caí das nuvens e comecei a ver as chamas do inferno.

Finalmente saí do armário perante mim própria. Depois, voltei a entrar. Estava em jogo a minha alma e identidade, toda a minha visão do mundo e cosmologia espiritual, os meus relacionamentos com amigos, família, Deus. Aquela santa trindade de marido, mulher e igreja assombrava-me mesmo enquanto escorregava para fora do meu alcance.

Era uma crise de proporções imensas. Caí no fundo de um inferno de vergonha e pânico. O meu medo do inferno acabou com qualquer hipótese de imaginar um futuro com Jess. Arrependi-me daquilo a que os cristãos chamam "luta com a atração pelo mesmo sexo", mas ainda assim sentia um prazer incomparável em estar com ela. Li inúmeros livros sobre homossexualidade e, apesar disso, não me senti mais esclarecida. Em busca de alguma consolação, convenci-me de que Jess e eu éramos apenas amigas.

A situação funcionou até que uma noite, quando fomos ao ballet, eu beijei-a e ela disse que me amava. Pela primeira vez, senti-me completa, amada, reconhecida. Estar deitada ao lado dela curou o meu Eu passado e presente. Também confirmou os meus piores receios. Acordei aterrorizada. Tinha de correr com Jess e terminar as coisas com ela imediatamente.

Mas primeiro tínhamos de ir a um brunch. Era o tipo de brunch a que não podíamos faltar: uma festa de despedida para um bom amigo.

O tempo custava a passar entre as bebidas e os ovos benedict enquanto contemplávamos a mudança catastrófica das nossas vidas, tal como Adão e Eva depois de terem comido a maçã, carregadas de culpa. Finalmente, a função terminou e nós partimos para confrontar a nossa realidade.

Enquanto caminhávamos, Jess reparou num homem sem-abrigo que estava parado no meio do trânsito. Não sendo pessoa para ignorar alguém em dificuldades, ela chamou-o para o passeio e ele começou a partilhar a sua história dos golpes que a vida lhe tinha infligido. Jess ouviu pacientemente. Mantive-me à distância, e pouco à vontade, enquanto ela se oferecia para lhe comprar o almoço.

Quando saíram de uma tasca próxima, o homem tinha um saco de comida, um café quente e algo parecido com um sorriso no rosto.

"Quanto é?", perguntou o homem.

"Não é nada. É uma oferta."

"Quanto?", insistiu o homem.

"OK, tudo bem", Jess hesitou e disse:

"Um dólar."

Ele enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um porta-moedas, contou quatro medas de 25 cêntimos e colocou-as na mão de Jess. Depois afastou-se.

Jess olhou para as moedas. "Estas moedas são a coisa mais valiosa que alguém já me deu", disse ela. "Nem sei o que fazer com elas."

Durante a maior parte da minha vida tinha recebido uma série de definições sobre o amor e os relacionamentos que eram fáceis de verificar nas escrituras, da mesma maneira que uma terra plana foi em tempos confirmada olhando para o horizonte. Mas, ao ver Jess interagir com aquele homem, vi um novo horizonte, um horizonte que era mais complicado.

Em Jess, vi o amor que Jesus pregou, um amor incondicional e estendido a todos, especialmente aos esquecidos, aos estranhos. Jesus nunca mencionou a homossexualidade. A sua cosmologia não estava cheia de credos, crimes e desprezo; a sua essência era amar os marginalizados. Jess refletia isso em todo o seu ser. Ela encarnava os atributos que Jesus mais amava: compaixão, bondade, justiça. Como poderia ser errado amar alguém que amava tão bem?

Senti começar a colapsar a minha rígida estrutura religiosa de falsas dicotomias e severidade moral. Aquilo que em tempos parecia uma escolha sombria entre perder a minha alma ou perder a minha amiga mais querida tornou-se, na verdade, uma lição de que o amor verdadeiro era a única coisa que me poderia salvar.

Ainda tinha muita turbulência pela frente. Foram muitas as pessoas que se opuseram à nossa relação e insistiram que se nos amávamos uma à outra então não amávamos a Deus. O nosso pastor era uma delas. Tínhamos ido ter com ele em primeiro lugar para confessar o que então considerávamos ser a nossa relação pecaminosa. Mas ao longo do tempo, discutimos a evolução do nosso pensamento com ele, na esperança de que todos aqueles anos em que tínhamos servido fielmente a igreja fossem o nosso testemunho e que o nosso pastor - um amigo - concordasse em discordar no ponto em que a nossa teologia divergia.

Em vez disso, ele fez-nos um ultimato: ou terminávamos a relação ou deixávamos de pertencer à igreja. Logo depois, a igreja divorciou-se de nós.

Olhando para trás, através daquele confuso triângulo amoroso entre Jess, a nossa igreja e eu, continuava a perguntar a mim mesma o que exigia o amor de Cristo, e o refrão que eu ouvia era sempre o mesmo: "Ama o próximo como a ti mesmo." Jess não me deu apenas um verdadeiro amor romântico, mas também o verdadeiro amor cristão, mostrando-me que o preceito mais fundamental é a trindade de amar a Deus e ao seu próximo como a nós mesmos. Acabámos por encontrar uma nova igreja que defende esta crença e acolhe todas as pessoas. Agora tenho a felicidade de a servir como membro ativo.

Dois anos depois do nosso primeiro beijo, Jess e eu fomos a uma praia vazia de Rhode Island. Somente algumas estrelas e uma lua enevoada iluminavam a nossa corrida e os nossos saltos, enquanto deixávamos que a liberdade erradicasse a nossa vergonha. Quando os nossos olhos se habituaram à escuridão, vimos uma torre de salva-vidas e subimos as escadas. Com o oceano a nossos pés e o horizonte ao nível dos olhos, sentámo-nos lado a lado a desfrutar o ar da noite.

"Vamos escrever alguma coisa", sugeriu Jess, pegando no diário que partilhávamos.

"Não, vamos só desfrutar esta noite", insisti. O momento parecia perfeito tal como estava.

"Está bem, eu vou escrever alguma coisa e podemos ler mais tarde."

Jess rabiscou qualquer coisa e passou-me o caderno aberto, iluminando-o com a lanterna do seu telefone. A luz era uma intrusão chocante na nossa escuridão privada, por isso pedi-lhe que a desligasse.

Em vez disso, ela meteu-me o diário nas mãos. Quando olhei para baixo, vi um buraco cortado no centro de todas as páginas. Lá dentro estava um anel.

Senti a cabeça a girar. Esperei que ela me fizesse a pergunta fatídica, mas ela ficou em silêncio. O momento não precisava de palavras.

Peguei na caneta e escrevi "sim" na página.

Ela pôs o anel prateado no meu dedo e deu-me um anel correspondente para colocar no dela. Então perguntou se eu me lembrava do homem sem-abrigo que tínhamos encontrado naquela manhã depois do brunch.

Eu ri-me. "Claro! Porquê?"

"Eu descobri o que fazer com aquelas moedas. Mandei-as derreter e fazer os nossos anéis com elas. Cinquenta cêntimos cada um.

Kristen Scharold é escritora e vive em Brooklyn

Exclusivo DN/The New York Times

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