Estudantes belgas de visita a Lisboa acusam PSP de brutalidade policial

Alegadas agressões da polícia portuguesa ocorreram no dia 25 de abril, quando o grupo de estudantes regressava ao hotel na Praça dos Restauradores

Um grupo de estudantes de uma escola secundária belga acusa agentes da PSP de brutalidade policial, durante uma visita de estudo a Lisboa entre 22 e 27 de abril, tendo o vereador de Educação de Antuérpia solicitado uma investigação.

O gabinete do vice-presidente e vereador de Educação de Antuérpia, Claude Marinower, indicou à Lusa que as alegadas agressões, em dois incidentes distintos, ocorreram na última terça-feira, 25 de abril, o primeiro dos quais quando o grupo, formado por 20 estudantes entre os 16 e 18 anos, acompanhados por quatro professores, regressavam ao seu hotel, na Praça dos Restauradores.

Contactada pela agência Lusa, a PSP referiu que foi aberto, pela direção nacional, um processo de averiguações para apurar o que se passou.

O subcomissário Hugo Abreu, do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, adiantou que o processo de averiguações visa não só os agentes envolvidos, como também a situação em que ocorreram os factos.

De acordo com o gabinete do vereador de Antuérpia, o grupo foi abordado por "diversos agentes policiais", tendo seis estudantes sido "encostados contra a parede de uma forma bastante brutal e humilhante" e alvo de "pontapés nas pernas e no peito", tendo um aluno fraturado mesmo um braço.

"Os agentes estavam aos gritos, em português, que os estudantes não compreendiam. Eles tentaram explicar que eram turistas e que não entendiam português, mas tal pareceu estimular os agentes a terem um comportamento ainda mais agressivo. Mesmo as tentativas dos professores de acalmar os agentes revelaram-se infrutíferas", alegam.

Segundo as autoridades de Antuérpia, no final, os agentes levaram um estudante para a esquadra, tendo o jovem afirmado que não houve qualquer interrogatório nem justificações para a sua detenção.

"Devido à falta de provas - de quê não sabemos, pois desconhecemos o que é que eles procuravam - os agentes levaram-no de volta para o hotel. Tratava-se do aluno que teve um braço partido por um dos agentes da polícia", indicam, acrescentando que "os agentes nunca deram explicações para a sua atuação".

Ainda na terça-feira, mas à noite, "após terem ido tomar uma bebida, os estudantes foram de novo atacados", argumentam as autoridades escolares.

"Ao regressarem ao seu hotel de táxi, pois tinham de estar de regresso até à meia-noite, quatro carros da polícia aproximaram-se do táxi, e os alunos e o condutor foram brutalmente forçados a sair do veículo. Uma vez mais, revistaram os alunos de forma extremamente brutal, com pontapés no rosto, na cabeça, etc, tudo isto enquanto eram encostados contra a parede como se fossem criminosos", contam.

Este novo incidente "durou cerca de hora e meia", garantindo as autoridades escolares que "os alunos não protestaram e apenas pediram um documento legal que confirmasse o que tinha ocorrido, mas os agentes riram-se e acabaram os deixar", tendo o condutor de táxi conduzido então os estudantes para o hotel.

"Na quarta-feira (26 de abril) a escola tentou apresentar uma queixa mas nenhuma esquadra os ajudou. Apenas depois da intervenção da embaixada da Bélgica é que o conseguiram", acusam ainda.

Face aos alegados factos, o vice-presidente da câmara de Antuérpia com o pelouro da Educação solicitou ao ministério belga dos Negócios Estrangeiros e à embaixada de Portugal em Bruxelas que insistam numa "investigação aprofundada".

"Os alunos e professores, os paus e a escola estão traumatizadas pelos acontecimentos", concluem.

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