"Esta nomeação é um grito de alerta"

Diretora do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Ana Sofia Carvalho vai representar Portugal no Grupo Europeu de Ética em Ciência e Novas Tecnologias.

Selecionada por um grupo de peritos entre cerca de 2000 candidatos, faz parte do grupo de 15 pessoas que vai aconselhar o comissário europeu Carlos Moedas sobre questões éticas ligadas à ciência e à tecnologia.

Como se sente com esta nomeação para membro do Grupo Europeu de Ética em Ciência e Novas Tecnologias?

Com um enorme contentamento. É um grupo que integra muito poucas personalidades, portanto ver Portugal representado e estar em representação do país num grupo desta natureza é sem dúvida uma enorme honra, mas também uma enorme responsabilidade.

Foi selecionada entre cerca de 2000 candidatos. O que é que levou a esta distinção?

Esta distinção é uma prova de que a bioética e a reflexão ética que se faz em Portugal, quer ao nível de formação quer de investigação, é muito válida no contexto europeu. O facto de Portugal ser um entre 15 membros é um reconhecimento do trabalho que temos desenvolvido.

Quais as expectativas em relação ao que vai fazer?

A nossa primeira reunião será a 24 e 25 de abril. Aquilo que posso antecipar é mera expectativa. Penso que um trabalho central para o grupo é a questão da integridade científica. Por coincidência o grupo é nomeado no mesmo dia em que a Comissão Europeia lança um código de ética e integridade científica, que põe regras mais ou menos explícitas aos Estados membros relativamente às questões da integridade científica, relacionadas com a falsificação, com a fabricação de resultados científicos, no fundo, com a verdade em ciência. Espero que seja um tema não só central para o debate dentro da Comissão Europeia, mas que também funcione como um estímulo para Portugal conseguir desenvolver uma política nesta área específica, que tanto necessita neste momento, uma vez que ela não existe e que é importante ao nível da competitividade da ciência que fazemos.

Estamos mais atrasados em relação aos outros Estados membros no que diz respeito a esta questão?

Sim, sem dúvida. A nível da formalização de estruturas. Não quer dizer que as coisas não aconteçam e que não aconteçam da forma correta, mas não chega ser, é preciso parecer. É preciso existir um trabalho sério ao nível de políticas nacionais sobre esta área específica, que permita a Portugal ter uma garantia que esta é uma área prioritária.

O que é que este grupo faz?

É um grupo que aconselha o comissário Carlos Moedas sobre temas ligados à ética, à ciência e à tecnologia, que levantem questões éticas. Imagino que um será a edição do genoma, com as novas técnicas que permitem editar e modificar também o genoma humano de forma mais eficiente, e outras questões como investigações em células estaminais.

Para Portugal, o que é que esta nomeação representa?

É complicado para mim responder a essa questão. É uma pessoa de Portugal que está num grupo altamente restrito, provavelmente a estrutura mais importante ao nível de ética, pelo menos no contexto europeu. Acho que isso são motivos que nos têm de orgulhar, mas não posso ser eu a julgar. É a prova de que o que fazemos ao nível de investigação é reconhecido ao mais alto nível, também na área da ética. Normalmente fala-se da ciência, mas é importante perceber que, no país, além de se fazer ciência, também se pensa nas implicações éticas da ciência.

Temos portugueses em várias estruturas internacionais de relevo. Há cada vez mais reconhecimento da qualidade que existe no país?

É a equiparação do trabalho que fazemos também nesta área ao melhor que se faz na Europa. Isso deve ser valorizado. Todos os que trabalham nesta área sentem orgulho, não só por aquilo que conseguimos, mas também por honrarmos aquilo que foi um trabalho pioneiro de pessoas que tanto admiramos, como o professor Walter Osswald, Daniel Serrão, João Lobo Antunes. As sementes que deixaram e aquilo que começaram foi reconhecido ao mais alto nível.

Dos trabalhos que desenvolveu até ao momento, o que destaca?

Tenho trabalhos que não são essencialmente de formação e de investigação, mas que foram enormes desafios e com impacto social notável, pelo que saliento o trabalho no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, onde vou no segundo mandato e tenho tido oportunidade de ser relatora de alguns pareceres. Ao nível de investigação, saliento todo o trabalho que temos feito nas duas áreas com as quais trabalhamos, nomeadamente nos cuidados de saúde e nas questões éticas da investigação científica e da integridade científica. Esta nomeação é também um grito de alerta.

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