Escolas defendem envolvimento dos pais nas viagens de finalistas

Alguns pais pensam que as escolas estão envolvidas na organização, justifica presidente da Confap. O psiquiatra Daniel Sampaio fala num "défice de autoridade"

Mais do que as escolas, deviam ser os pais a estar envolvidos na organização das viagens de finalistas, de forma a minimizar os distúrbios, como aqueles que terão levado cerca de mil estudantes a ser expulsos de um hotel em Espanha, este fim de semana. A ideia é defendida pelos diretores de escolas e até a própria Confap (Confederação Nacional das Associações de Pais) considera que esta alternativa faz sentido à opção de envolver as escolas.

"Atendendo ao caráter lúdico da atividade e ao facto de esta ser organizada pela associação de estudantes, não vejo que faça sentido a escola envolver-se. Embora veja com bons olhos que os pais através das suas associações ou de forma individual vão a estas viagens ou se envolvessem mais na sua organização", aponta Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). No mesmo sentido, Manuel António Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), não vê como necessária o envolvimento das escolas, "talvez se a associação de pais se envolvesse, atendendo ao historial de problemas, seria mais fácil evitar estas situações".

Do lado dos pais, Jorge Ascenção - presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) - defende que "as associações não se devem envolver, é uma questão turística, cada um faz o contrato com os promotores e as associações de pais estão lá para estar nos projetos educativos das escolas". Já os pais isoladamente faz algum sentido que se possam envolver, o que não acontece com tanta frequência, sublinha Jorge Ascenção, porque "têm a ideia de que as escolas estão envolvidas e isso dá-lhes alguma segurança, por isso, é que apelamos a que participem na vida da escola, a estar mais atentos".

Tanto os diretores, como professores e os pais, alertam que apenas uma minoria cria problemas nas viagens e que no caso que envolveu cerca de mil estudantes expulsos de Torremolinos, em Espanha, pode ter havido um empolamento dos números e das consequências. No caso de sábado, o hotel reclama prejuízos de 50 mil euros e os alunos queixam-se de incumprimento do contrato (ver texto ao lado).

Ter havido distúrbios no hotel "não deixa de ser uma preocupação, mas não estamos a falar de milhares, são meia dúzia de jovens e que vão responder pelos seus atos", defende Jorge Ascenção. O presidente da Confap tem reforçado esta ideia de que "há formas cívicas de fazermos respeitar os nossos direitos", depois de alguns pais - entre as quais uma vice-presidente da Confap - terem desculpabilizado o comportamento dos jovens, considerando-o até "normal".

Uma atitude que o psiquiatra juvenil Daniel Sampaio considera ser um reflexo de "um défice de autoridade" por parte dos pais. "Os jovens devem ser responsabilizados pelos seus gestos e comportamentos. Depois os pais têm de exercer autoridade, não autoritarismo, mas autoridade baseada numa relação de regras com cumprimento de direitos e deveres, que deve começar na infância."

Os professores Paulo Guinote e Alexandre Henriques lembram que estes problemas não são uma coisa de hoje. "A anormalidade tornou-se normal, este tipo de comportamentos bastante irresponsáveis tornaram-se normais até para os próprios pais", lamenta Paulo Guinote. Enquanto Alexandre Henriques, professor do ensino secundário e coordenador de um gabinete de combate à indisciplina, lembra que os dados de violência entre os jovens apontam para um aumento: "Estamos, se calhar, a assistir a um crescendo de negligência."

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