Escândalo com cirurgião italiano dita saída de dois juízes do Nobel

Paolo Macchiarini, que fez na Suécia o primeiro transplante de uma traqueia sintética, é acusado de falsear resultados. Governo sueco demite toda a direção do instituto onde trabalhou, incluindo membros do painel do Nobel

Há pouco mais de cinco anos, Paolo Macchiarini foi notícia à escala mundial por ter realizado, no Instituto Karolinska, na Suécia, o primeiro transplante de uma traqueia sintética. Agora, o italiano volta a encher parangonas mas devido a um escândalo em torno dos seus métodos, currículo e resultados que já custou o lugar a dois membros do painel responsável pela escolha do Nobel da Medicina.

A polémica estalou na segunda-feira, quando foram divulgadas as demolidoras conclusões de uma auditoria externa à atuação do cirurgião italiano, já há algum tempo alvo de suspeitas. Nomeadamente de falsear os resultados das suas intervenções - incluindo em dois casos em que os doentes acabaram por morrer - e até de mentir sobre o seu currículo profissional.

O relatório de 200 páginas apresentado por Sten Heckscher, antigo presidente do Supremo Tribunal Administrativo, põe em causa não só o próprio italiano como a instituição que o acolheu como professor convidado, renovando-lhe o vínculo em 2013. Os investigadores concluíram que, mesmo antes de o contratar, o Karolinska Institute tinha informações suficientes para saber que o seu currículo era questionável. "Eles ignoraram declarações feitas em ligação com o recrutamento de Macchiarini e revelaram uma chocante falta de interesse em saber mais sobre o seu trabalho antes de prolongarem o seu contrato", criticou Heckscher.

Outros países da União Europeia terão fornecido ao Instituto referências indicando que o currículo do italiano continha informações incorretas, que as suas publicações científicas tinham dados de validade questionável e que o cirurgião era conhecido pela falta de bom senso e dificuldades em cooperar com os seus colegas.

Macchiarini já reagiu ao relatório, negando todas as acusações de que foi alvo. Mas as autoridades de Estocolmo parecem ter ficado convencidas com o resultado da investigação: numa decisão radical, decidiram demitir todo o conselho de administração do Karolinska.

Imagem do Nobel afetada

Entre os gestores afastados contam-se Harriet Wallberg e Anders Hamsten, ambos antigos presidentes do conselho de administração desta prestigiada instituição. E ambos membros do painel responsável pela escolha dos vencedores do Prémio Nobel da Medicina, estatuto do qual também já foram convidados a abdicar com urgência.

"A confiança em ambos foi tão seriamente afetada que se esgotou", admitiu Thomas Perlmann, secretário do comité do Nobel para a Fisiologia e a Medicina, citado pela agência noticiosa sueca TT. "Os danos são tão grandes e de uma tal natureza que lhes pediremos para resignarem da assembleia do Nobel.

Apesar da pronta resposta, o caso acaba por manchar a imagem da assembleia de 50 membros, que anunciará em outubro o vencedor do Nobel da Medicina e Fisiologia deste ano.

Denunciado na televisão

Paolo Machiarini começou a ser notado em 2008, quando integrou a equipa que fez o primeiro transplante de uma traqueia parcialmente feita recorrendo a células estaminais. Dois anos depois foi contratado pelo Karolinska Institute, tornando-se numa celebridade internacional quando, em 2011, liderou a equipa responsável pelo primeiro transplante de uma traqueia sintética.

Apesar das diferentes referências questionando as suas credenciais, o instituto só decidiu despedi-lo depois de no início deste ano a televisão sueca ter emitido três programas denunciando a atuação do cirurgião, incluindo imagens de operações que fez na Rússia, onde trabalhava ao mesmo tempo que cooperava com o hospital do instituto sueco. Os métodos utilizados nas referidas cirurgias foram descritos como "experimentais" por alguns colegas, entre outros adjetivos menos cordiais.

Em 2011, em entrevista à BBC, Macchiarini tinha descrito a nova tecnologia, nomeadamente as traqueias sintéticas, como o futuro da cirurgia.

"Graças à nanotecnologia, este novo ramo da medicina regenerativa, somos agora capazes de produzir uma traqueia feita à medida no prazo de dois dias a uma semana", apontou. "isto é uma traqueia sintética. E a beleza deste método é que a podemos receber imediatamente, sem demoras. Esta técnica não depende de um dador humano". O custo real começa agora a ser descoberto.

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