Quiseram ficar cá no Natal para conhecer as tradições portuguesas

Há estudantes que vão passar a consoada com famílias portuguesas, outros com amigos que também frequentam o programa Erasmus. Todos querem saber mais sobre Portugal

Mais do que poupar dinheiro nas viagens, Artur Tomczak, Ye Zaw Phyo e Elena Nae querem conhecer melhor as tradições portuguesas na quadra natalícia. Por isso, os três estudantes, que vieram para Portugal integrados no programa Erasmus, decidiram ficar cá. Maria Goetz, a realizar um estágio na ESN (Erasmus Students Network) Lisboa, também optou por não visitar a família: quer ver o que a capital tem para lhe oferecer no Natal.

Há quem tenha escolhido passar a consoada com uma família portuguesa e quem opte por juntar-se aos amigos europeus que, por diversas razões, não vão a casa no Natal. Uns dizem que vão sentir falta da família, outros da neve. Sabem que por cá se come bacalhau e bolo-rei e que, onde há crianças, aparece sempre um pai natal. Mas querem descobrir mais sobre a cultura lusa.

Apercebendo-se de que vários estudantes iam ficar em Portugal, a ESN Lisboa criou a iniciativa Christmas Exchange, dando aos alunos estrangeiros a oportunidades de passar a noite de 24 para 25 com uma família lisboeta. Aderiram cerca de uma dezena. Segundo fonte da associação, são principalmente os que vêm apenas só por um semestre que ficam cá em dezembro. "Geralmente só os espanhóis é que optam por ir a casa." No Porto, também há um programa semelhante.

De acordo com os dados cedidos ao DN pela organização Erasmus +, em 2012-13 (últimos números disponíveis) Portugal recebeu 9894 estudantes Erasmus, mais 4318 do que em 2007-08. Vêm, sobretudo, de Espanha, Polónia, Itália e Alemanha. O destino preferido é Lisboa, seguindo-se o Norte e o Centro de Portugal. E são sobretudo das áreas de ciências sociais, gestão e direito.

Natal a dobrar, mas sem neve

Artur Tomczak, polaco, de 23 anos, esteve em Lisboa "há muitos anos" e ficou encantado. Daí ter escolhido o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, onde estuda Engenharia Civil, para fazer Erasmus. Estará no ISEL até fevereiro e, por isso, não quis desperdiçar a oportunidade de passar cá o Natal. "É uma maneira de estar com amigos de diferentes partes do mundo", ao mesmo tempo que se descobrem "as tradições e os costumes da quadra." Este vai ser o primeiro Natal longe da família, mas rodeado de amigos, polacos e não só.

No dia 24, Artur vai juntar-se aos colegas da Polónia que também estudam em Lisboa. Vão jantar no apartamento de um dos estudantes, mas ainda não é certo que passem lá a noite. Talvez combinem juntar-se a estudantes Erasmus de outros países. É um jantar que, segundo o polaco, requer alguma preparação, já que há pratos que são confecionados com um ou dois dias de antecedência. Não admira, uma vez que um jantar tradicional obriga a que existam pelo menos 12 pratos com comida diferente na mesa.

"E toda a gente tem de tentar prová-los a todos", ressalva Artur Tomczak. Todos devem ser vegetarianos. Um deles tem de ser, obrigatoriamente, carpa, outro "bolinhos de massa", outro borsch (uma sopa de beterraba). Os restantes podem variar. Tradicionalmente, começam a comer quando aparece a primeira estrela no céu. E há sempre mais uma cadeira, prato e talheres na mesa, para alguém que possa aparecer de improviso. Depois de jantar, abrem os presentes e cantam músicas de Natal.

Na Polónia, as celebrações estendem-se de 24 a 26 de dezembro. E há algumas superstições. "Colocam-se ervas secas em cima da toalha da mesa para dar sorte. E durante a preparação do peixe, todos ficam com uma escama, que secam e colocam na carteira, garantia de prosperidade no ano seguinte."

No dia 25 ou 26, Artur irá encontrar-se com outros estudantes Erasmus de toda a Europa "para um segundo jantar". Vão comer o que "restar do primeiro" para que todos possam experimentar a refeição tradicional de outros países. Artur não sabe muito sobre o Natal em Portugal. "Existem algumas tradições como na Polónia", mas de certeza que "os portugueses não esperam neve na noite de consoada, algo que é muito importante para o espírito da quadra" na Polónia.

"Porto é muito longe do Myanmar"

Portugal fica "muito longe" de Myanmar (antiga Birmânia) e é essa a principal razão pela qual Ye Zaw Phyo, de 28 anos, decidiu não ir a casa no Natal. A fazer doutoramento no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar/Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto por três anos, vai passar, pela primeira vez, o Natal longe da família e dos amigos. "Sinto muita falta deles", assume. Mas há um outro motivo pelo qual decidiu ficar no Porto: "Quero aprender mais sobre a cultura e os costumes dos portugueses e sobre como é que eles celebram o Natal."

Phyo assume que já se apaixonou por Portugal. "Estudar no Porto é muito bom para mim. É uma cidade antiga e muito bonita." Gosta da comida portuguesa, especialmente do frango de churrasco com batatas fritas. "Como não como carne vermelha, ainda não tive oportunidade de experimentar francesinha. Mas parece ser deliciosa", afirma. As "festas" também são boas. Resta saber o que vai achar do Natal.

Para conhecer melhor as tradições portuguesas, nada melhor do que juntar-se aos portugueses. No âmbito do programa organizado pela ESN Porto - à qual agradece a oportunidade -, Phyo vai passar a consoada com uma família local. "Tanto quanto sei, eles jantam e depois ficam juntos durante a noite", diz ao DN. Sabe que o peru é "frequentemente" o prato principal. "E normalmente comem sopa, bacalhau, doces e bebem vinho." Abrem-se os presentes à meia-noite. "E, se houver crianças pequenas em casa, alguém se veste de Pai Natal para lhe dar as prendas."

Phyo é budista, mas, do que sabe das tradições natalícias no seu país, "cada cristão faz uma festa em sua casa". Convidam os amigos mais próximos, preparam refeições especiais, dão presentes e, em alguns casos, fazem orações. Há quem vá até à igreja, enquanto algumas famílias preferem juntar-se e viajar.

Noite mais triste mas inesquecível

"Provavelmente, este Natal será um pouco triste, porque não estou com a minha família", admite Elena Nae, de 20 anos. No entanto, a estudante de Línguas Modernas Aplicadas na Economia em Bucareste, que frequenta a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, diz que vai lembrar-se desta quadra "para o resto da vida, porque vai ser passada de uma maneira diferente, com uma família portuguesa".

Quis ficar em Lisboa para ficar a conhecer melhor a cultura portuguesa. Na sua opinião, esta é a melhor altura para saber mais sobre tradições e costumes. Quando falou com o DN, na quarta-feira, ainda não sabia ao certo como iria ser a noite de 24 de dezembro. Aguardava um encontro com a rapariga que, ao que tudo indica, a irá acolher na sua casa. Para já, sabe que os portugueses comem bacalhau e bolo-rei na ceia de Natal. "E têm o Pai Natal."

A dez dias do Natal, Elena recorda, ao DN, como é o vivido na Roménia. Também é feriado, destaca, e a família reúne-se. Mas o clima é diferente. "Quando eu era criança, havia sempre neve, mas agora vem mais tarde, devido ao aquecimento global." Seguem uma tradição pagã de matar um porco para o Natal. E transformam a carne em diferentes pratos. "Como a religião oficial é a ortodoxa, antes do Natal temos de jejuar durante 40 dias." Por isso, explica, têm de esperar até à hora de jantar para ver se o cozinhado ficou bom ou não. Não podem prová-lo antes.

Elena está, pela primeira vez, no nosso país. "Mas não vai ser a última", assegura. É difícil dizer aquilo de que mais gosta em Portugal. "Amo o país como um todo, as pessoas, a comida (especialmente os doces, que são incríveis), o clima e a mentalidade das pessoas."

Ficar para ver o que Lisboa oferece

Em setembro, Maria Goetz, 25 anos, visitou um amigo em Portugal e apaixonou-se de imediato pelo país. A realizar um estágio na ESN Lisboa, a alemã vai, pela primeira vez, estar longe da família no Natal. Queria passar a quadra fora do ambiente normal e, como está encantada com o país, achou que não fazia sentido sair da capital nesta altura.

A consoada vai ser com um amigo alemão que também está a viver em Portugal. "Vamos passar num mercado de Natal, escolher uma boa refeição num restaurante português e assistir a um filme típico da quadra, enquanto bebemos um pouco de vinho." À semelhança do que acontece em Portugal, as famílias alemãs também se reúnem para comemorar a data. "Depois de jantar, os membros trocam os presentes, veem filmes, ou ficam, simplesmente, a falar e a tomar bebidas." Na véspera, os mais religiosos vão à igreja. Da quadra em Portugal destaca a comida e o facto de encontrar, por todo o lado, luzes festivas na rua, a figura do Pai Natal e presépios.

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