Empresas desvalorizam alterações climáticas

Mais de um quarto das empresas não estão preocupadas com o impacto destas alterações. Quercus diz que falta informação

O impacto das alterações climáticas ainda não é uma preocupação para todos os empresários portugueses. A conclusão é de um estudo feito pela Zurich, no qual mais de um quarto dos inquiridos (27%), responsáveis por pequenas e médias empresas considerou que estas alterações não terão consequências nos seus negócios. Uma visão errada, diz a Quercus, que alerta para o facto de existir um grande desconhecimento sobre o tema em Portugal. A mesma preocupação é relatada pelos representantes do setor.

Para João Vicente, presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas, estes resultados estão dentro do esperado e "resultam da pouca informação que existe em relação ao impacto das alterações climáticas". Ressalvando que a responsabilidade "não é dos empresários, nem das associações", o representante considera que "os governos e a academia" deviam divulgar mais as consequências das alterações climáticas.

Já João Branco, presidente da Quercus (Associação Nacional de Conservação da Natureza), refere que é "positivo que quase 75% dos inquiridos tenham consciência de que as alterações climáticas podem ser um problema". Quanto aos outros, o ambientalista diz que "não têm uma perceção correta e, aparentemente, acham que não vão ser afetados".

De acordo com o estudo "Zurich PME: Riscos e Oportunidades", não é só em Portugal que ainda há uma escassa preocupação com o tema. Irlanda, Itália, Suíça e Áustria tiveram resultados semelhantes. Na opinião de João Branco, há setores da economia que consideram que as alterações climáticas não têm impacto na sua faturação. "O dono de uma empresa de mediação imobiliária em Bragança pode achar que não vão afetar o seu negócio. Mas se aprofundarmos vemos que ao haver impacto na agricultura, nomeadamente na produção de castanheiro, há uma diminuição do rendimento disponível, o que afeta o seu negócio."

Segundo o presidente da Quercus, as alterações climáticas "têm impacto em todos os setores". De um modo global, prossegue, há prejuízos e impactos negativos para muitas empresas, tal como haverá outras nas quais haverá um efeito positivo. "É como a guerra. É mau para todos, mas há quem ganhe com isso." E dá um exemplo concreto: "Se a temperatura fica mais alta em Lisboa, as empresas de ar condicionado vão vender mais." Mas os consumidores vão gastar mais.

O grande problema em Portugal, diz João Branco, é que "existe falta de informação sobre as alterações climáticas. A população em geral tem um grande desconhecimento sobre o que são e o impacto que têm nas suas vidas". Até porque, frisa, a linguagem que geralmente é usada "é tão técnica e hermética" que não chega a todas as pessoas" Para o presidente da Quercus, o país precisa de "um plano integrado sobre alterações climáticas e a forma como afetam as pessoas".

Entre as empresas portuguesas que se manifestaram preocupadas com aquilo que podem ser as consequências destas alterações, a maioria considerou que os principais impactos podem ser os furacões, ventos fortes e tornados. "É natural que tenham apontado esses, porque são os mais visíveis, mas há efeitos bem piores para a economia." O desaparecimento de castanheiros e sobreiros, as vinhas desadaptadas e os problemas nas pescas são alguns dos exemplos dados pelo ambientalista.

Segundo a Zurich, foram ouvidas 200 empresas em Portugal para a realização do estudo, que também foi realizado em mais sete países (Áustria, Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, Suíça e Turquia).

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.