Em três anos, a PSP apreendeu 6870 armas de alarme transformadas

As mais procuradas na net são as de origem turca. A pressão de ar 9mm Flobert é cada vez mais vendida por traficantes

As armas de alarme transformadas (ilegais em Portugal) e adquiridas facilmente na internet são uma das maiores preocupações da PSP, pois há cada vez mais grupos criminosos a utilizá-las.

Desde 2014 e até ao final do primeiro trimestre deste ano, a PSP apreendeu 6870 armas deste tipo, segundo dados do Departamento de Armas e Explosivos (DAE) da polícia facultados ao DN. São, na maioria, pistolas de alarme que foram entregues à DAE por outras forças de segurança e pelos comandos distritais da polícia, por terem sido confiscadas em operações de prevenção criminal ou no âmbito de processos-crime. As mais frequentes são os modelos Reck, Tanfoglio, Rohner e Star.

É possível encomendar uma, pagando entre os cem e os 200 euros, num site registado na Turquia, onde o negócio é legal, e transformá-la em Portugal, tornando-a uma arma de fogo verdadeira e a baixo custo. Muitas estarão nas mãos de grupos criminosos e outras com pessoas que não conseguiram, ou não quiseram, obter uma licença de uso e porte de arma de defesa.

No pós-atentados de Paris (em novembro de 2015, que provocaram mais de 180 mortos), o controlo do armamento ilegal que circula pelos mercados negros europeus tornou-se prioritário.

"As mais procuradas na internet são as pistolas de alarme de marca Zoraki e Ekol, de origem turca, por serem facilmente transformadas e por serem de muito boa qualidade, havendo vários modelos Zoraki 925, 914, 917, etc. No YouTube ensinam como as transformar", explicou ao DN o intendente Pedro Moura, comandante do Departamento de Armas e Explosivos da PSP de Lisboa.

"Como alguns países passaram a restringir o acesso a pistolas de alarme - como foi o caso da Eslováquia -, o modo de atuação dos traficantes evoluiu para as armas de pressão de ar de calibre 9mm Flobert, que tem estado a ter cada vez mais procura", acrescentou o oficial.

Sete das armas usadas pelos irmãos Saïd e Chérif Kouachi nos atentados de Paris em janeiro de 2015 (o ataque à sede do jornal Charlie Hebdo, em que morreram 13 pessoas) tiveram origem na Eslováquia, onde foram vendidas legalmente e neutralizadas (só podiam atirar cartuchos em branco).

Polícia infiltrada na darknet

A compra de armas ilegais na internet em sites domiciliados em países terceiros ou de empresas estrangeiras é muito difícil de controlar. "Sendo uma ameaça grave à segurança e de modo a combater o trafico ilícito de armas, através da internet, a Europol tem desde 2013 a decorrer várias ações operacionais, que vão desde a formação de agentes policiais ao cyberpatrolling, sobretudo nas vendas na chamada darknet, ou o mercado negro da internet", adiantou ao DN o intendente Pedro Moura.

Os agentes do Departamento de Armas e Explosivos da PSP estão a desenvolver várias ações operacionais para controlar as vendas na net e até já houve diversas apreensões, garante o oficial, mas "ainda é prematuro avançar números porque essas ações ainda não terminaram".

Este responsável adiantou que também "estão a ser controladas as vendas, com as operações policiais dirigidas às empresas de correio expresso", pois as armas compradas na internet são depois transportadas por estas empresas, denominadas Fast Parcel. Nesta área, explicou, tem existido uma grande colaboração das autoridades alfandegárias, no caso português, com a participação da Autoridade Tributária.

A Lei das Armas prevê o comércio eletrónico de armas, munições e acessórios, exceto as de classe A: calibres de guerra; automáticas; armas brancas ou de fogo dissimuladas; armas de fogo transformadas ou modificadas, entre outras.

Em 2016, a PSP realizou 323 operações no âmbito da Lei das Armas, empenhou 7209 elementos, deteve 397 pessoas e apreendeu 108 armas de fogo, 103 armas brancas e 221 de outro tipo. Caíram quase para metade as operações (586) em relação a 2015 mas fonte da hierarquia da PSP referiu que o combate ao tráfico de armas continua a ser prioritário, nomeadamente para a investigação criminal da polícia.

Ler mais