"Em Portugal, as alterações climáticas ainda não estão na agenda social"

As tecnologias são fulcrais para travar as alterações climáticas. Quem o diz é a engenheira do ambiente Júlia Seixas, professora e investigadora da Universidade Nova, que participa amanhã na conferência de abertura da exposição Clima 360º, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência

A tecnologia de que hoje dispomos é suficiente para se chegar ao nível zero, ou próximo disso, de emissões de gases com efeito de estufa, a partir de 2050, como prevê o Acordo de Paris, para travar as alterações climáticas?

Penso que ainda não temos neste momento toda a tecnologia necessária disponível no mercado para lá chegar. Mas estamos a falar em 2050, portanto há tecnologias que estão agora a ser desenvolvidas e que nessa altura vão estar disponíveis. Um exemplo: os veículos elétricos. Já existem, mas são ainda muito caros para a classe média. Ou seja, a tecnologia até pode existir, mas em alguns casos temos de promovê-la para que fique acessível às pessoas. Mas não devemos focar-nos apenas na disponibilidade tecnológica, porque isso não chega. Os sistemas produtivos também têm de fazer uma reflexão sobre si próprios para poderem evoluir no sentido de oferecerem os seus bens e serviços sem emissões de gases com efeito de estufa ou, pelo menos, com um mínimo de emissões.

O que falta, então, fazer para chegarmos a esse patamar zero de emissões?

A palavra-chave é inovação. E há dois tipos de inovação: a disruptiva, como a do veículo elétrico, e a incremental, em que a mudança é pequena. Para se chegar a zero emissões em 2050 é preciso ir pela via disruptiva. Tenho grandes dúvidas de que pela outra vamos conseguir isso.

E essa mudança disruptiva, como se fará?

Antes de mais é preciso uma mensagem política clara, como a do Acordo de Paris, embora exista agora a incerteza associada à eleição de Donald Trump. A mensagem política que António Costa levou a Marraquexe [à última cimeira do clima], afirmando que Portugal tem como meta ser neutro em emissões até 2050, é exatamente esse tipo de mensagem. Agora é preciso criar condições para que os vários setores da economia portuguesa adotem a inovação como lema nos próximos 20 a 30 anos. Mas não basta. Na sequência dessa mensagem do primeiro-ministro é preciso criar um roteiro para que os vários setores económicos possam cumprir essa meta. Pode ser um roteiro com objetivos intercalares até 2050 e poderão ser criados incentivos para as empresas ajustarem o seu modo de produção, de forma a chegarem às zero emissões. A história mostra que sempre que se decide inovar num certo sentido, a tecnologia necessária aparece.

O Acordo de Paris, alcançado na cimeira do clima no ano passado, foi apresentado como um sucesso, enquanto ponto de partida para chegar a esse balanço zero de emissões. A cimeira de Marraquexe confirmou essa esperança?

Confirmou. De uma maneira geral, todas as partes se manifestaram de acordo com esses objetivos, mesmo num eventual cenário de ausência dos Estados Unidos.

Donald Trump na presidência dos Estados Unidos poderá atrasar esse processo?

Se se confirmarem as más notícias em relação ao que ele afirmou que faria, como o retorno ao carvão, isso será um retrocesso, nomeadamente no que respeita à contribuição dos Estados Unidos para a redução global das emissões. No entanto, há no mercado americano uma série de inovações de tecnologias de baixo carbono que duvido que parem só porque Donald Trump se tornou presidente. Penso que essas iniciativas são irreversíveis.

Em Portugal, a aposta nas energias renováveis na última década e meia mudou o panorama da produção da energia elétrica. Onde é preciso apostar agora?

É preciso aumentar a eletrificação onde isso for possível. Por exemplo nos transportes, ou no consumo nas nossas casas, desde que essa eletricidade tenha origem em fontes renováveis. Nos serviços, por exemplo, 75% do consumo total de energia já é eletricidade. Mas a estratégia de a aumentar nos diferentes setores só faz sentido se ela tiver origem em fontes renováveis. Na indústria também há esse potencial de aumentar a eletrificação do consumo final de energia. Outra componente importante é a eficiência energética, onde há um potencial enorme também. Isso significa mudar os comportamentos, a gestão da mobilidade nas cidades ou a construção dos edifícios. Os estudos mostram que o investimento nesse sentido é o que traz o melhor retorno a prazo.

O que espera que esta exposição e as suas conferências deem a todo este debate?

Espero que aumentem a sensibilidade e o conhecimento do público em geral em relação à problemática das alterações climáticas. Em Portugal, o tema das alterações climáticas não está ainda na agenda social.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Legalização do lobbying

No dia 7 de junho foi aprovada, na Assembleia da República, a legalização do lobbying. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a aprovação desta lei traz uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político.