Explosão em Alfama. "Em nenhum momento pediram para evacuar o prédio"

Álvaro Filho, que habitava no 1º andar do prédio onde hoje houve uma explosão, explica que o cheiro a gás era recorrente

Passa um pouco das 22.00 e neste momento, Álvaro está com a mulher e os dois filhos numa gelataria junto ao Museu do Fado, Lisboa, a fazer telefonemas para alguns hotéis à procura de um sítio para dormir. "Vamos ficar num Airbnb aqui perto", conta, numa conversa telefónica, Álvaro Filho. A voz surpreendentemente calma ao contar que ficou sem casa depois de uma explosão ter causado um incêndio no prédio onde morava, na rua dos Remédios, em Alfama.

Álvaro Filho, 44 anos, jornalista, e a mulher, de 35 anos, fotógrafa, são brasileiros e mudaram-se para Lisboa há quase um ano, com os dois filhos: de 14 e 2 anos atualmente. Ambos trabalham e ele está também a fazer um doutoramento em Comunicação. Arrendaram o 1º andar daquele prédio em Alfama há 11 meses e são os únicos habitantes. O 2º andar encontrava-se desabitado há dois meses, e os dois andares superiores eram usados para alojamento local, habitualmente por turistas estrangeiros.

"O cheiro a gás era um problema recorrente, pelo menos desde janeiro", conta Álvaro. A EDP foi várias vezes ao local nestes meses, assim como os bombeiros. Hoje de manhã, um curto-circuito deixou sem luz parte da rua, mas não aquele prédio. O cheiro a gás era de tal maneira forte que, por volta do meio-dia, a família chamou os bombeiros. "Disseram-nos que estava tudo bem, que o cheiro não era do gás mas de um cabo elétrico queimado."

Álvaro Filho, em Alfama, antes dos incidentes

A família usou o gás e a eletricidade, prepararam o almoço, tomaram banho. Álvaro saiu de casa depois dsas 15.00. Depois saiu o filho mais velho. Às 19.00, saíram a mulher e o filho mais novo. Na rua, encontraram uma equipa de técnicos do gás. "A minha mulher perguntou o que se passava e quis saber se era perigoso e eles disseram que não, que estava tudo bem. Em nenhum momento pediram para evacuar o prédio. Fomos para uma festa em casa de amigos e quando chegámos lá soubemos que tinha uma havido uma explosão."

De regresso a Alfama, Ávaro já não conseguiu entrar em casa, nem sequer chegar lá perto. "Não conseguimos chegar perto do prédio. Os vizinhos dizem-me que o fogo terá afetado só os andres de cima, mas o prédio foi muito abalado, só amanhã saberemos." Foi ouvido por "técnicos" que estavam no local mas diz que apenas quiseram saber dados estatísticos: "Perguntaram-nos o nome e a idade e nada mais. Ninguém se preocupou em saber se estávamos bem nem se tínhamos onde ficar, não houve qualquer ajuda", queixa-se. Também recebeu um contacto da Embaixada do Brasil mas ninguém lhe ofereceu alojamento. "As pessoas dizem-me que devia falar com o proprietário do andar, mas ele está de férias, no estrangeiro, como poderá ajudar?"

A rua continua interdita. Álvaro não conhece as pessoas que ficaram feridas na explosão. "É tudo kafkiano", lamenta o jornalista. "Como é que os técnicos estavam lá e não tomaram as precauções?", pergunta-se. "Estamos bem, estamos tranquilos. Preocupo-me com as nossas coisas, o material de fotografia da minha mulher mas, neste momento, o que mais me preocupa a nível material são os documentos, os passaportes. Se tiver que ir ao SEF e pedir tudo de novo, será muito complicado", queixa-se. "O mais importante é que estamos bem. Num domingo, facilmente estaríamos em casa e não estávamos. Foi uma sorte."

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