Elvira Fortunato nomeada para Prémio Europeu do Inventor

Transístores de papel criados no laboratório da investigadora e de Rodrigo Martins, na UNL, são finalistas do galardão

A ideia ocorreu-lhe por acaso, mas por que não haveria de experimentar? Elvira Fortunato sugeriu então ao bolseiro de mestrado com quem estava a trabalhar no laboratório que usasse o próprio papel, até aí mero suporte, como material isolante do transístor - o tradicional seria o silício. No dia seguinte, o aluno estava surpreendido, e tinha uma grande novidade: aquilo funcionava.

Foi assim que nasceram os transístores de papel, em 2008, no laboratório de Elvira Fortunato, o CENIMAT - Centro de Investigação de Materiais, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Agora, a investigadora e Rodrigo Martins, que ali dirige o Departamento de Materiais, foram nomeados para o Prémio Europeu Inventor 2016 por causa dessa invenção, e do que ela já provou.

O grupo de Elvira Fortunato tem mais de 40 patentes, entres elas a dos transístores de papel, que nos últimos oito anos já evoluíram muito, abrindo perspetivas para um mundo de novas aplicações. Por exemplo para embalagens inteligentes, com circuitos integrados que avisam quando o prazo de validade de um produto está a expirar. Ou em chips e biossensores para análises de baixo custo na área da saúde, ou para células fotovoltaicas... a imaginação é o limite.

A investigadora confessa que foi "apanhada de surpresa por esta nomeação", mas sublinha que ela é importante, porque "significa uma boa visibilidade para o nosso trabalho e para esta área, que pode potenciar novos contactos com outros grupos de investigação e com empresas".

A nomeação é do Instituto Europeu de Patentes (EPO, na sigla de língua inglesa), e o grupo de Elvira Fortunato é um dos três finalistas designados na categoria de Investigação, e o único grupo português em todas as categorias, que incluem ainda Indústria, as PME, a Consagração de Carreira e Países não Europeus.

"Os microchips feitos de papel desenvolvidos por Elvira Fortunato, Rodrigo Martins e a sua equipa têm o potencial de aplicar a tecnologia eletrónica "inteligente" a áreas completamente novas do dia-a-dia", afirmou o presidente do EPO, Benoît Battistelli, ao anunciar os finalistas do Prémio Europeu do Inventor 2016. "Os microchips de papel potenciam uma nova geração de dispositivos pouco dispendiosos e recicláveis que podem vir a desempenhar um papel importante na internet das coisas e em outras tecnologias digitais do futuro", sublinhou ainda o responsável.

Os vencedores desta 11.ª edição do prémio anual de inovação do EPO serão divulgados a 9 de junho.

Materiais baratos e ecológicos

Num dos laboratórios do CENIMAT, uma pequena sala onde dois jovens do grupo de Elvira Fortunato se atarefam nas suas rotinas, há uma espécie de forno em metal e de ar robusto. Foi ali, naquela máquina de pulverização catódica, com sistema vácuo, para revestimento de superfícies que foi feito o primeiro transístor de papel, há oito anos.

"Esse aparelho, construímo-lo nós mesmos, peça a peça, porque era muito mais barato", lembra Elvira Fortunato. Mas, desde então, o laboratório cresceu muito, ganhou novos equipamentos de última geração para aquela função e para outras complementares, de produção e análise dos micro e nanomateriais e dos novos circuitos eletrónicos que ali se desenvolvem.

A Bolsa Avançada do European Research Council (ERC), no valor de 2,5 milhões de euros, que Elvira Fortunato ganhou naquele mesmo ano - foi a primeira portuguesa a conquistar uma bolsa ERC -, tornou possível a aquisição para o laboratório de um microscópio eletrónico que é também um laboratório completo, porque tem acopladas essas capacidades. "Somos a única universidade portuguesa que tem um equipamento destes."

Esse crescimento vê-se até na dimensão dos produtos que ali se fazem e que Elvira Fortunato vai mostrando: os primeiros transístores de papel eram do tamanho de uma unha do dedo mindinho. Agora já ali se fazem, com impressoras de jato de tinta, que foram adaptadas pela equipa, circuitos eletrónicos em rolos de papel. E tudo com materiais de baixo custo e amigos do ambiente. A colaboração com um grupo da Universidade do Minho que estuda uma bactéria chamada Acetobacter xylinum, que produz celulose, abriu outra via de investigação e poderá ser outra resposta inovadora na eletrónica transparente (para ecrãs de computador e telemóveis, ou para incorporar em janelas, por exemplo), área em que o grupo de Elvira Fortunato também é líder mundial e na qual tem já contratos com algumas grandes empresas de dispositivos eletrónicos. "O nosso lema não é eureka", diz ela. "É funciona." Essa expressão, por certo, ouve-se muitas vezes no seu laboratório.

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