"Ele roncava que eu sei lá!" Nas terras onde o fogo acaba sempre por voltar

O maior incêndio do ano passado foi em Arouca, no distrito de Aveiro. O terceiro maior foi no vizinho concelho de Águeda. Nas serras da Freita e do Caramulo a terra queimada não arde nos próximos dois anos mas a falta de prevenção e de limpeza dos terrenos faz temer o pior. Ali já se espera o próximo

Houve o de 1986, o de 2005, o de 2013, o de 2016 e num morreram 16 bombeiros, no outro nove... Assim falam as gentes nas encostas das serras do Caramulo e da Freita sobre a maior praga para a floresta da região: os incêndios. O fogo ali é visto como uma inevitabilidade e quase resta aos moradores idosos rezar "que ele não venha tão depressa". O DN foi às aldeias que restam nestas duas serras, encostadas aos concelhos de Arouca - que teve o maior incêndio florestal de agosto passado - e Águeda, onde aconteceu o terceiro maior. Quase um ano depois, vimos caminhos florestais quase inacessíveis, mesmo para um carro dos bombeiros, aldeias com dois ou três habitantes no coração serrano ou com casas encostadas a eucaliptais, madeireiros que andam a cortar os troncos queimados e que deixam acessos obstruídos. Incúria. "Ninguém limpa os caminhos, ninguém faz nada. Os postos de vigia não funcionam, o nosso centro de meios aéreos de Águeda só abre em julho". O desabafo é do comandante dos bombeiros de Águeda, Francisco Santos, que é também um dos proprietários florestais que perdeu largos hectares de eucalipto e pinheiro no fogo do ano passado e já tinha perdido outros tantos em incêndios de outros anos.

Não está isolado nas críticas. O jovem presidente da junta de freguesia de Préstimo e Macieira de Alcôba, da zona onde começou o fogo de Águeda, também é perentório: "Não foi posta uma boca de incendio, não foi construído um deposito de água, as placas a assinalarem os nomes das terras continuam queimadas. Cada dia que eu passo por elas lembro-me de que houve um incêndio que destruiu a freguesia".

Pedro Vidal, de 33 anos, decidiu dar o exemplo à população e num terreno da junta mandou plantar hectares de árvores autóctones para servirem de travão a futuros incêndios. "Estamos a fazer faixas de contenção em 16 hectares, com pinheiros, sobreiros e carvalhos, numa zona primária de defesa contra os fogos. Só vamos ter lucro daqui a 50 anos". Nos restantes terrenos em 300 hectares que são da junta, alguns foram arrendados a Portucel que tem a sua mata de eucaliptos cuidada, com intervalos entre as árvores e com os caminhos limpos . "Foi num terreno da empresa que conseguimos travar o fogo de agosto passado, em Rio de Maçãs", contou Pedro Vidal.

A marca dos incêndios nesta paisagem é avassaladora: em Talhadas, Águeda, veem-se as encostas áridas, de cinza e de negro, pontuadas à distância por alguns eucaliptos pequenos. O fim do mundo passou por ali.

Pinheiros e eucaliptos compõem a mancha florestal da região mas enquanto os primeiros demoram 50 anos a crescer, os últimos já se estão a desenvolver, em redor dos troncos queimados. Os eucaliptos são o sustento de muitas famílias há 50 anos mas crescem desordenados e sem intervalos entre eles, aos milhares. As únicas matas limpas e ordenadas da região são as das celuloses, garante o autarca. A renovação da floresta, nas terras do Caramulo, acerta passo e tempo com os incêndios.

Há quase um ano, no dia 8 de agosto de 2016, quando a ilha da Madeira estava a ser fustigada por incêndios em diferentes localidades que causaram três mortos, e o fogo não dava tréguas em Ponte de Lima, no Minho, o concelho de Arouca enfrentava o segundo dia de combate às chamas na Serra da Freita e , em Águeda, os bombeiros entravam pelas encostas do Caramulo no primeiro dia de um fogo que iria durar quatro longos e extenuantes dias.

Pela estrada da morte fora

O comandante dos bombeiros de Águeda, que andou nessa guerra desigual, guiou o DN no seu carro por um roteiro dantesco do fogo, que começou na freguesia urbana de Préstimo e Macieira de Alcôba, Águeda, entrou pelas povoações serranas e engoliu quase 8 mil hectares de floresta. "O ponto de início foi aqui, no cruzamento para Á-dos-Ferreiros. Alguém chegou à beira da estrada, tinha mato, e ateou. Eram 4.00 da manhã. Claro que foi fogo posto. Ninguém foi apanhado até hoje", contou Francisco Santos. O incêndio alastrou num ápice, por causa dos ventos de 100 quilómetros hora que varriam tudo e projetavam casca de eucalipto ardida e fagulhas pelo ar. "Começou a subir e houve logo três projeções de um para o outro lado da encosta. Passado meia hora, o fogo começou a ficar perto das habitações. Ninguém se segurava aqui com o vento".

No percurso de 30 quilómetros por onde passou o grande incêndio de agosto, que lavrou em contínuo durante quatro dias, impressiona a passagem pela estrada que liga Àgueda à Serra do Caramulo e que tem à sua beira eucaliptais queimados. "Nesta estrada, rumo às aldeias de Avelal e Castanheira do Vouga, morreram 16 bombeiros de uma só vez no fogo de 14 de junho de 1986. As placas evocativas assinalam os locais onde os corpos foram encontrados". Em 2013, um grande incêndio na serra do Caramulo voltaria a colher nove vidas de bombeiros de várias corporações.

No incêndio de agosto do ano passado, as chamas voltaram a um lugar que é já de trauma. É por causa do fogo de 86 que Francisco Santos, que tem hoje 49 anos, quis ser bombeiro. Tinha então 17 anos e aderiu a uma secção dos soldados da paz na sua terra, a aldeia de Agadão, no Caramulo. "A estrada no fogo de 86 era um túnel com labaredas à volta. Nest e ponto foi onde morreu o primeiro bombeiro, saiu daqui subiu a encosta e foi apanhado por uma linha de fogo. Aquele, só passados três dias é que deram com ele, já estavam quase para desistir das buscas".

No terreno, com o jipe do comandante a entrar por covas e vales repletos de eucaliptos e com caminhos "onde não passa um autotanque dos grandes", segundo o próprio, imagina-se o impacto de um incêndio que "voava" de uma encosta à outra como uma seta, e custa a acreditar que casinhotas em lugares como Serra de Baixo tenham sido salvos. "É uma aldeia muito exposta, ali, no meio do vale encaixado, onde moram apenas duas pessoas, idosas. O fogo subia a encosta com uma intensidade brutal. Mas os idosos que ainda trabalham a terra resistiram e estiveram sempre connosco. Nós também não deixámos que perdessem a casita".

Num apovoação próxima, Vale do Lobo, as casas foram abandonadas por quem lá vivia depois do fogo de 2013. Os animais selvagens também têm vindo a desaparecer das encostas do Caramulo. "Já vi a serra arder em 86, 94, 2005 e 2013", lamenta Francisco Santos.

Bombeiro deixou o que era seu arder

Na corporação de Águeda, um nome ficou conhecido pela bravura, embora o soldado da paz que o carrega seja um anti-heroí de bóina na cabeça e voz de rádio. Lino Monteiro, com 62 anos, "o Lino do Raivo" - chamado assim por causa do lugar onde vive - sobrev ivente do fogo de 86, esteve em todas as outras frentes de guerra na floresta. No incêndio do ano passado deixou o seu estaleiro de madeiras e alfaias agrícolas arder porque andava a proteger as propriedades de outras pessoas. "Eu estava na zona da aldeia de Casal a combater o fogo e um ex-colega ligou, esbaforido: "Então andas aí e tens o teu estaleiro no Raivo a arder!" Lino respondeu: "E o que hei-de eu fazer? Não posso sair daqui". E não saiu. O prejuízo foi grande. "Tinha 25 metros de madeira já cortada de eucalipto, pronta para vender. As máquinas agrícolas arderam todas. Foram 3600 euros de prejuízo em alfaias. Mas a câmara de Águeda, com o apoio de outras entidades, cobriu esse prejuízo. O resto, paciência". Lino Monteiro foi mostrar ao DN em que estado se encontram alguns caminhos de acesso atravessados por madeireiros. "Há zonas que podiam ser mais protegidas e termos melhor acesso ao fogo se houvesse estradões que é oque falta nos terrenos. Os madeireiros vêm cortar as madeiras e deixam os caminhos obstruídos, como podem ver. Aquele ali, nem consigo passar com os tratores". Em frente, viam-se troncos largados aos magotes na terra e covas que as maquinas fazem, afundando o terreno. "A competencia dos caminhos agrícolas e florestais é das juntas de freguesia mas nós não podemos autuar, apenas limpar. Essa competência é da GNR mas depois é difícil haver resultados", justificou o presidente da junta de Préstimo e Macieira de Alcôba, Pedro Vidal.

"Nós vivemos todos da madeira. Quando ela está queimada perde peso e não nos dão um terço do valor que nos davam por ela antes", explicou Maria da Conceição, de 72 anos, sem tirar os olhos das ervilhas que descascava, no lugar de Chousinha, Préstimo. Com apenas três casas, encravado na encosta florestal, Chousinha apenas se livrou da extinção pelas chamas por ter um tanque de água onde os bombeiros se abasteceram. "Que o fogo não venha outra vez!", desejou, recordando que já perdera muito eucaliptal e pinhal no de 1986. Há 50 anos instalada ali, assistiu à chegada das fábricas e à debandada dos trabalhadores agrícolas para a indústria. "Os campos andavam cultivados e arranjados, havia muitos animais, não havia fogos grandes destes", lamenta.

"O preço da madeira, queimada ou não, é a 40 euros a tonelada.O produtor é pago a 17/18 euros a tonelada. O que mais se vende aqui é o eucalipto para as celuloses fazerem a pasta de papel. Mas se fosse mais bem paga a madeira havia mais interesse e investimento", garante o comandante dos bombeiros.

"Há 50 anos haver 400 fogos no Verão no concelho de Águeda era impensável", frisa Francisco Santos. A realidade agora é outra. Em 2010, houve 280 fogos no concelho; em 2011, 440, em 2012, 413; em 2014, 175 [foi um ano atípico porque choveu muito no Verão] em 2015 foram 268 e em 2016, 311".

"Perdemos 100 mil euros de uma vez"

Os concelhos de Arouca e Águeda distam cerca de 60 quilómetros mas quando se entra no cenário frondoso da Serra da Freita essa distância aumenta, dado o contraste paisagístico. Apesar de o incêndio de Arouca ter sido o maior em área ardida em todo o país, em agosto passado, e de haver encostas inteiras com pinheiros e eucaliptos calcinados, há caminhos aos esses rodeados de arvoredo autóctone como carvalhos e castanheiros e aldeias idílicas com casas de xisto e de granito. O incêndio de agosto começou em Rossas, Provisende de Cima, Arouca e consumiu mais de 26 mil hectares, uma grande parte do concelho. Em Provisende houve quem perdesse quase tudo o que tinha. Foi o caso do casal de idosos Luciana Fernandes, 75 anos, e o marido Abílio, 79 . "Nascemos aqui na aldeia e aqui vivemos toda a vida. Nós tínhamos 21 leiras ali para cima na serra com pinhal, castanheiros ecarvalhos. Só uma delas tinha 15 hectares. Já vinham do tempo dos sogros e dos tios do meu marido. Éramos os que tínhamos mais e fomos os que mais perdemos", conta Luciana, que comemorou há pouco tempo as bodas de ouro com o marido.

"Estava tudo pronto para se poder vender. Dava mais de 100 mil euros se fosse tudo vendido", lamenta. Esta propriedade florestal, tal como muitas outras na zona, estava entregue ao crescimento selvagem, como a própria dona assumiu. "Como aquilo tinha sempre muito mato há tempos fomos lá ver se dávamos com os marcos, mas o pinhal, as silvas e os tojos estavam tão grandes que não se conseguia passar lá. Não víamos os marcos para cada um vender as suas leiras. Se não tivesse vindo o fogo tinhamos de arranjar uma máquina para desbastar. Agora lá no monte já fizeram caminhos para passar os tratores".

Luciana e a família contavam com o património que ardeu para deixar aos quatro filhos e oito netos. "Era o nosso sustento. As terras agora não dão nada", lamenta. A idosa e o marido continuam a alimentar-se do que cultivam nas hortas em frente à moradia de Provisende. "Cultivamos milho, feijão, cebolas, couves, tremoço, cenouras, courgettes. Se fossemos a comprar tudo não conseguíamos". Já distribuíram terras de cultivo aos filhos: "Cada um ficou com os seus bocados de terra para cultivar e eu pus as minhas "novidades"aqui". As "novidades" da época "são as cebolas, alhos, morangos, ervilhas e alfaces".

A sua vizinha Maria Ilda de Almeida, 74 anos, também nascida na aldeia, e o marido, garante que "foi o maior fogo de que há memória na região de Arouca". Depois de sete dias consecutivos de inferno de chamas em Arouca, e perto da vila, o fogo passou para o concelho vizinho de S.Pedro do Sul a 13 de agosto. Maria Ilda e o marido perderam "o pinhal todo, de três hectares e meio". "Era do tempo do meu pai. Nunca tínhamos vendido um pinheiro. A madeira cortada ia-nos dar uns 10 mil euros", lamenta. "Ninguém nos veio ajudar depois do fogo, nada. Antes pedia-se muito para fazer estradões para ajudar a passar os carros dos bombeiros, agora nem se vê fazerem isso".

Da moradia de Luciana avista-se muita mancha verde ainda intacta. "Alipara baixo, se começar do outro lado, não estamos livres deste ano as casas estarem em perigo. O que vem a arder no ar se chegar a um palheiro é um suficiente".

As populações vivem a contar os fogos que já passaram. Na aldeia de Fundo de Vila, muito perto de Arouca, o grande incêndio de agosto chegou mesmo junto à casa de Maria Santos, de 66 anos, na noite de 10, e destruiu um pequeno eucaliptal que estava quase colado à moradia."O fogo veio pelo ar e chegou aqui. Já tinha ardido tudo o que tínhamos no fogo de 2005, pinheiros e eucaliptos, e agora e voltou a arder o que restava de eucaliptal. Desta vez, deixei a madeira queimada para o lume. Se não fizesse assim, que madeira é que a gente queimava? Já não tínhamos nenhuma!". Já não vai ver crescer pinhal no seu tempo de vida. "Não vão nascer pinheiros porque os que arderam não tinham pinhas".

Na noite em que o incêndio de agosto do ano passado chegou ali, Ilda, que é viúva, resguardou-se como pôde. "Fugi quando ele veio, para a loja por baixo e tapei a grade com um manto velho, molhado, e estavasempre a lavar tudo com a esfregona. Ardiaa casa, ardia tudo, se eu não molhasse o chão. Enchi de águ apor aí fora, não tivemos a ajuda de ninguém. Mais tarde vieram os Bombeiros de Tábua, depois de já ter passado o fogo". Em baixo avista-se um pequeno rio "e o matagal acolá é uma selva". O vento, com rajadas de 100 quilómetros hora, puxava as labaredas para perto das habitações.

"Ele roncava que eu sei lá"

Para quem já está habituado ao fogo, aquilo é uma entidade com vida própria. "Estava aqui com o meu irmão, fechamo-nos dentro de casa, o fogo voava por cima da casa e até assustava. Batia ali, na parte que não tem janelas. Ele roncava que eu sei lá!". A descrição de uma noite de inferno é de Ilda Vinagre, de 63 anos, vizinha de Maria Santos no Fundo de Vila. "Perto da minha casa existe um mato enorme e uns silvados. O fogo veio de cima até aqui a baixo e foi destruindo tudo. No incêndio de há 11 anos o prejuízo ainda foi maior, até nos ardeu umaRenault Express que tínhamos na garagem, para além dos terenos cultivados, e caíram portas. Também perdemos animais. No do ano passado não fugi, mas no de 2005 fugimos de carro". Do Fundo de Vila seguimos para as aldeias de xisto e granito nas encostas da serra, onde os troncos esquálidos e negros dos pinheiros marcam a paisagem e as casas abandonadas também. São sítios por onde não se vê um carro a passar. Aldeias como Janarde, que parecia deserta quando o DN ali chegou a meio da tarde, com o vento a uivar e a bater nas portas abertas dos palheiros. Foi preciso caminhar mais de meia hora na companhia de apenas dois cães, que pareciam querer mostrar as hortas cuidadas, para se ouvir uma voz vinda do interior de uma casa. Era uma mulher a falar ao telefone. Tratava-se de Maria da Conceição, 72 anos, que apesar de ali viver quase isolada com o marido acamado, mantém um espírito jovial. "Aqui só havia moradores, agora somos nós, outros dois mais novos lá para cima e pouco mais. AGNR em março disse-nos que ia andar po r estas aldeias a patrulhar. Não apareceram uma única vez. Os caminhos agrícolas é a junta que tem limpado. À beira das casas somos nós que temos de limpar". Maria da Conceição olha para a serra e para o vale e vai contando o que perdeu: "Tínhamos uma leira ali que vai acima à serra, outra que vai do rio à serra, uma que era do outro lado e mais duas, uma do lado do rio. Já só tínhamos eucaliptos mas com o fogo de 2005 perdemos muito e já nem conseguimos vender nada, nem dados os queriam. Está por aí tanto eucalipto queimado que fica tudo a apodrecer".

A fiscalização é necessária. Na zona de Préstimo, em Águeda, a GNR deu um ano à população de duas aldeias para limparem todos os terrenos. "A Guarda até teve uma atitude pedagógica porque os militares disseram que podiam ter autuado no imediato e não o fizeram". As multas para quem não limpa as suas matas, não respeita os perímetros de proteção em redor das habitações ou realize queimas sem cumprir a lei vão de 140 a 5000 euros.

Desde o dia 1 de setembro de 2016 até 31 de maio de 2017, a GNR levantou 697 autos de contraordenação, por falta de limpeza das faixas de gestão de combustível, adiantou o Ministério da Administração Interna (MAI) ao DN.

Forças Armadas nas florestas

Segundo o MAI, "este ano verifica-se um reforço muito significativo da participação das Forças Armadas (FA) nas operações de rescaldo, a prosseguir nos anos seguintes". Além disso, no futuro, pretende-se reforçar o envolvimento das FA na vigilância e na operação de meios aéreos do Estado para combate a incêndios florestais, após a cessação dos contratos existentes com os operadores privados", sublinhou o ministério.

Face às queixas da Liga dos Bombeiros (ver entrevista), a ministra Constança Urbano de Sousa está a rever a lei de financiamento das corporações que foi aprovada pelo Parlamento por proposta do anterior Governo. "É esta Lei que obriga a reduzir o financiamento a mais de 200 associações humanitárias de bombeiros", refere o MAI, em esclarecimento ao DN. "Com a passagem dos anos e as redução sucessivas de financiamento, muitas associações ficariam numa situação de insustentabilidade e de incapacidade de responder às missões de proteção e socorro. A lei não pode ser apenas uma fórmula matemática". A ministra criou um grupo de trabalho - constituído pelo MAI, Autoridade Nacional de Proteção Civil e Liga dos Bombeiros Portugueses - que tem o mandato de apresentar, até 30 de setembro, uma proposta de revisão da lei de financiamento. O Governo está também a trabalhar na revisão do estatuto dos bombeiros profissionais de administração local, ressalvando que "a criação de mais corporações de bombeiros profissionais é da exclusiva responsabilidade das autarquias".

O futuro é agregar propriedades

A Reforma da Floresta, um conjunto de 12 diplomas, tem como um dos objetivos centrais promover a agregação de pequenas propriedades, como esclareceu o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural (MAFDR). O ministro Capoulas Santos também disse quer queria reorganizar a produção de eucaliptos e travá-los em sítios onde não podem estar.

O modelo de agregação de propriedades foi visto pelo comandante dos bombeiros de Águeda em Arcahon, França, onde esteve em formação. "Ali não há propriedade nenhuma que tenha menos de 100 hectares", afirmou. "Nesses 100 hectares cada pessoa tem 1% da propriedade. Quando se vender a madeira cada um tem a sua parte. E depois há estradões com 25 metros e está tudo compartimentado, em mosaico". Quem viu o modelo francês, como Francisco Santos, garante que o único incêndio que houve na região de Arcahon nos últimos anos consumiu 300 hectares: "Em Portugal, essa dimensão é de uma fogueira e lá foi um escândalo!".

Portugal perdeu 150 mil hectares de floresta nos últimos 15 anos devido a diversas causas, entre as quais os incêndios florestais, segundo dados do Ministério da Agricultura.

"Terrorismo florestal instalado"

Jaime marta soares

Presidente da liga dos bombeiros portugueses

O secretário de Estado Jorge Gomes disse, a propósito da diretiva financeira deste ano, que cada bombeiro ganha 45 euros po dia, logo, 1350 euros ao fim do mês. Foi crítico dessa declaração. Caiu mal nas corporações?

Causou um grande mal estar perante os bombeiros que se sacrificam por uma causa. Temos 90% de voluntários no país. Não aceitamos que se diga que um bombeiro recebe 1350 euros porque não é verdade. A verba de 45 euros por dia é para os elementos que estão no dispositivo de combate a incêndios florestais e é correspondente a 24 horas de serviço. Para ganharem 1350 euros era preciso que estivessem 30 dias de serviço, sem parar. Há algum bombeiro que pudesse estar todos os dias nestas funções de alto risco, física e psicologicamente?

Mas a Liga queria mais do que os 45 euros por dia?

Exigimos que houvesse um aumento de 2 euros na compensação de 45 euros para que se chegasse, entre 2018 a 2012, ao valor de 50 euros por 24 horas de serviço.

Também concordam que a atual lei de financiamento tem de ser alterada?

Simporque esta lei não serve. O orçamento de referência para alei está em discrepância com o que a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) manda para o Orçamento de Estado (OE) numa diferença superior a 500 mil euros. Veja-se isto: 26.296 milhões de eurosé a referência orçamental. E o que a ANPC manda para o OE são 25.711 milhões de euros. Significa que 50% das associações de bombeiros estão a receber menos dinheiro do que o ano passado.

Já arderam mais de 13 mil hectares este ano. O que está mal?

É o terrorismo florestal instalado, o crime que anda à solta. Continuamos a fazer floresta maciça de espécies sem considerar as alterações climáticas. E temos um dispositivo de combate que está preparado para 250 fogos por dia. Quando chega a 300 a 500 ignições por dia não há dispositivo que resista.

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