E o melhor chef de 2016 é...

O blog Mesa Marcada elegeu o restaurante Feitoria, no Altis Belém, como o melhor restaurante e João Rodrigues o chef do ano

Não se pode dizer, para quem conhece o espaço e as criações do chef, que seja surpreendente a subida no ranking e consequente escolha de João Rodrigues e do Feitoria como chef e restaurante do ano pelo blog especializado Mesa Marcada, nesta oitava edição dos prémios anualmente entregues por Duarte Calvão e Miguel Pires, mas nem por isso a equipa que recebeu mais esta distinção se mostrou menos entusiasmada.

Nas categorias especiais, o prémio Mesa Diária foi pelo 3º ano consecutivo para A Taberna da Rua das Flores (Lisboa) e Pedro Pena Bastos, do Esporão (Reguengos de Monsaraz), foi eleito Chef Revelação do Ano. O Prémio Especial Graham"s Restaurante Novo do Ano foi atribuído ao Bairro do Avillez e o Loco, de Alexandre Silva, venceu o Prémio Especial Estrella Damm Destaque do Ano, sendo o restaurante com a maior subida no ranking entre os primeiros.

"É ainda mais especial quando é um reconhecimento de colegas e pessoas do meio gastronómico, muitos deles a fazerem coisas incríveis nos seus projetos. Serem eles a eleger o nosso restaurante é incrível", reagiu João Rodrigues, que se tem mantido perto do topo da tabela e este ano conseguiu passar do quarto para o primeiro lugar, com 652 pontos, mais 11 do que José Avillez, o vencedor das últimas edições. Com 704 pontos, o Feitoria subiu duas posições e conquistou a preferência do painel de votantes dos mais importantes prémios da gastronomia nacional, mais 49 do que o segundo classificado, o Belcanto.

A conquista revela um percurso estudado e com passos dados rumo a uma crescente qualidade. "Temos vindo a trabalhar ainda mais o conceito do Feitoria e estamos a transpor isso para a nossa maneira de estar, para o que pomos no prato e para o nosso serviço de sala também, o que faz que as pessoas queiram ir e depois fiquem com vontade de voltar", explica o chef. O restaurante está num momento de "consolidação do percurso de várias etapas, um longo caminho, uma direção que se vai estreitando, que não deixou quem passou pelo Feitoria indiferente", acrescenta João Rodrigues, prometendo novidades para breve: o restaurante reabre no próximo dia 26 com energias restabelecidas e um novo menu centrado no produto e no sabor.

Aberto em 2009, e com uma estrela Michelin desde 2011, o Feitoria traz um conceito inspirador a Lisboa: "uma visão contemporânea dos Descobrimentos e o convite a uma viagem pela influência da cozinha portuguesa no mundo", um traço que é um prolongamento do chef João Rodrigues, apaixonado pela história da gastronomia e por produtos e sabores mais exóticos. Este tem sido um ano em grande para o restaurante que foi Garfo de Platina 2016 do Guia Boa Cama Boa Mesa e para o João Rodrigues, chef do Ano pelo mesmo guia e pela Revista Wine.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.