Droga nas ruas de Lisboa. "Isto é uma coisa um bocado estúpida"

Há muito que a toxicodependência já não é a preocupação número um dos portugueses. Mas 18 anos depois da intervenção no Casal Ventoso e da generalização dos programas de substituição com metadona persiste o consumo de rua de heroína e - sobretudo - cocaína, fumadas e injetadas. O número dos que consomem na rua terá até aumentado desde 2013, levando a autarquia a relançar a discussão sobre salas de consumo assistido - previstas na lei desde 2001. Roteiro de lugares de consumo e perplexidades.

É uma espécie de corredor: de um lado um muro que sustem a encosta que foi do Casal Ventoso, do outro um prédio. Dez metros de comprido, talvez, por dois de largura. No chão, a erva muito verde é um puzzle de embalagens de kits de injeção, colheres e frasquinhos da água destilada usados para fazer o caldo, preservativos intactos na embalagem. Seringas não, porém. Porquê, Diogo exemplifica. Um metro e oitenta, rosto liso, agradável, roupa normal, sorriso - víssemo-lo noutro lugar e jamais suspeitaríamos - abre a mochila mal vê as técnicas da equipa de rua e o contentor de plástico amarelo e encarnado e tira dois sacos cheios de seringas usadas. Em troca, recebe uma mão-cheia de kits. Pede mais: "Pode ser?" Claro, respondem as raparigas. E preservativos, queres, perguntam. A resposta é uma gargalhada amarga: "Não, tenho muitos, obrigada."

Apresentados os repórteres, Diogo acede a falar um pouco, não muito porque tem pressa. Faz o retrato: 35 anos, a usar desde os 22. Começou pela cocaína; "snifada", depois fumada. Agora está no speedball, que é a injeção de heroína e cocaína misturadas. Gasta cinco euros por dia - "É o mínimo." Está desempregado mas, anuncia, começa a trabalhar na semana que vem (a que passou, neste caso), como manobrador de máquinas. Manobrador de máquinas? Não é um bocado incompatível com estas drogas? Sorri com bonomia: "Quando trabalho não consumo."

Acede a dar o número de telefone, pede licença educadamente e vai até ao fundo do corredor. A pressa era esta. Agacha-se, de costas para a assistência, prepara a injeção, sobe a manga do casaco. Fica ali muito tempo, naquele canto sem sol neste dia gelado que a meteorologia garante ser, até agora, o mais frio do inverno. Nem olha quando um homem surge do nada, em salto, vindo da encosta, escala o muro do outro lado e desaparece, sem uma palavra. Outras pessoas vêm espreitar a ver se o local está livre, mas desistem ante tanta gente. Algumas cumprimentam as técnicas, olhar esquivo face aos jornalistas. Um tipo de uns 45 anos (pode ter muito menos, as drogas e viver na rua envelhecem muito) conta que está ali - aponta no sentido da encosta - a viver numa casa abandonada. "Pus uma porta, está-se bem", informa as técnicas, que lhe perguntam se precisa de alguma coisa. Andreia Alves, de 23 anos, e Inês Costa, de 28, tratam todos por tu, com familiaridade e descontração. Ninguém é agressivo; mesmo quando se negam conversas, é a pedir desculpa.

"Desaprende-se o criar sentido"

De todos os locais do giro habitual das equipas de rua da Associação Crescer na Maior - a que pertencem Inês e Andreia -, esta zona, identificada como "Campo de Ourique/Casal Ventoso", é aquela em que nos primeiros seis meses de 2016 foram identificados mais consumidores de rua: 268. É também a recordista da entrega de "pratas", usadas para fumar heroína. Precisamente o que se encontra aqui perto, ao fundo de uma rampa, passado um portão arrombado, numa espécie de túnel sob os prédios. Quem chega da luz leva tempo a perceber que no breu, entre montes de lixo, estão dois homens. Um com 33, outro de 52 anos. O de 33 rejeita conversas: "Só se me orientarem alguma coisa, porque o tempo que perco a falar com vocês posso estar a orientar-me." O outro começa por dizer o mesmo mas vai falando. Consome desde os 22, "com paragens", e é funcionário público. "Em três anos de trabalho nunca faltei", garante. "Mas estive de baixa e recaí e agora tenho vergonha de ir trabalhar, por causa do meu parecer. Se me vissem há um mês nem me conheciam." Muito magro, rosto sulcado, Carlos - chamemos-lhe assim, pediu para não ser identificado - sente-se sem coragem para aparecer assim aos colegas. "Todos os dias digo que amanhã vou." Mas não vai. Nem a casa, a maior parte das vezes: dorme no carro, na zona de Alcântara. As técnicas propõem-lhe ir para um albergue, combinam o dia e a hora para a entrevista - os albergues têm condições de acesso, não basta aparecer, e com o frio têm estado muito cheios. Carlos diz que sim, que vai. Ele e o outro homem pedem a prata - um bocado de folha de inox, de rolo de cozinha - para fazer a chinesa (que consiste em colocar a heroína em pó sobre a prata, aquecê-la com um isqueiro, até liquefazer, e aspirar o fumo com um canudo). No fim, a prata usada há de juntar-se a outras, no chão. Carlos, ironia, trabalha - quando trabalha - na recolha de resíduos. Mas aqui ninguém recolhe nada, além das seringas usadas. Que ele nunca usou: "Nunca piquei, não gosto. Só fumo. Comecei na cocaína mas agora estou a usar heroína." São três da tarde e já gastou 70 euros. Como os arranjou? "Acha que lhe vou dizer o que fiz hoje? Não matei ninguém. E já chega, está bem?" Só para terminar: gostava de ter um local para consumir com mais condições? "Gostava era de sair desta merda."

Chegam mais clientes da "prata". Inês e Andreia já deram toda a que tinham e também já não têm kits - Diogo ficou com quase todos. Têm de voltar ao carro, lá em cima, para ir buscar mais. No primeiro semestre de 2016, nesta zona, foram entregues 1896 pratas, num total de 5473 para todas as cinco zonas visitadas, divididas por duas rondas diárias (exceto ao domingo): Lisboa Ocidental e Lisboa Oriental. Esta visita, que começou depois das duas, é a segunda do dia para elas. De manhã, ao meio-dia, fizeram a zona de cima do Casal Ventoso, a famosa Meia Laranja. Ainda bomba, a Meia Laranja, mesmo se nada parecido com o que era há 20 anos, antes da intervenção camarária que arrasou aquele que era conhecido como o maior supermercado de droga da Europa. Até 1998, quer a zona de cima quer a de baixo, na Avenida de Ceuta, eram um corrupio de gente, centenas, milhares de utilizadores em procissão diária. Havia tendas na encosta para aqueles que já não conseguiam sair dali, alguns em tremenda degradação física, com escaras, feridas, abcessos nos braços e nas pernas causados por injeções dadas com água infetada - muitas vezes retirada de poças. Havia uma rua na qual só se entrava sob o olhar de vigias (se algo parecido com polícia aparecia assobiavam e fechava tudo), onde se ouviam pregões surreais - "É da branca [cocaína] e da castanha [heroína], é da boa e da melhor" - e cada porta era uma loja de substâncias ilícitas, com filas ordeiras à espera de vez. Todo esse aparato desapareceu mas todos os dias há gente a comprar: quando falamos com Diogo, na semana seguinte, para saber se já está a trabalhar, diz-nos que afinal é só na outra segunda-feira, e que "por acaso" àquela hora - meio-dia - está na Meia Laranja, a adquirir. "Infelizmente", acrescenta. A seguir, como de costume, vai picar.

Não é, pelo menos hoje, o caso de Francisco. É mesmo o nome dele, faz questão: "Pode meter o meu nome. Não tenho vergonha do meu passado. Tenho é vergonha do meu presente." Veio de carro com dois amigos comprar, na parte de baixo da encosta do Casal Ventoso, e quando veem os coletes fosforescentes de Andreia e Inês aproximam-se. E querem kits e estão com pressa, têm de ir "à metadona" e além disso, diz, "temos substâncias ilícitas no carro, pode aparecer a polícia e não nos convém". Normalmente, explica depois, numa longa conversa telefónica, consome em casa, em São Domingos de Rana. "Há crianças na rua. E as outras pessoas se não consumirem não têm de estar a levar connosco. Mas já me aconteceu consumir na rua, porque estava aflito [a ressacar] e tem de ser naquele momento." Por esse motivo, sobretudo para proteger quem não consome, achava bem que houvesse locais próprios para consumo. "Até porque a polícia de vez em quando vai aos sítios onde as pessoas estão escondidas a consumir e enxota-as. Isso serve para quê? Não percebo."

Como Diogo, não tem qualquer sinal exterior do seu fado. Rapaz bonito, até, o que faz compreender as histórias que conta sobre as namoradas à bulha quando andava no liceu (só foi até ao nono ano). Agora, porém, não tem namorada. "Não há mulher que aguente. Ninguém aguenta. A minha última até era psicóloga mas nem ela conseguiu. É a gente e a droga e mais nada." Suspira. "Eu era contra as drogas, contra tudo isto. Fui desportista, campeão de atletismo de longa distância. Agora é como se a vida não fizesse sentido sem a droga. São muitos anos disto, a cabeça acaba por desaprender o criar sentido."

Sair da heroína para a cocaína

A lucidez de Francisco parece uma contradição: se sabe tão bem o que se passa com ele, como é que não consegue dar a volta? "É como uma depressão. Tem de se conseguir sair do buraco. Às vezes parece que só me apetece morrer, é uma coisa um bocado estúpida. E quando consumo esse sentimento desaparece." Ah, isso: e se toda a gente precisasse de criar um sentido, e se toda a gente caminhasse, funâmbula, sobre o vazio, sabendo que o truque é nunca olhar para baixo? Francisco não sabe dos outros. Para ele foi a morte da mãe, há sete anos, a tirar-lhe o chão. "Ela deixou-me algum dinheiro e acabei por gastar tudo. Já só tenho a casa. Consegui parar de consumir, estive numa comunidade em que nos punham a trabalhar o tempo todo e não pensava em mais nada. Mas precisava que me ensinassem o que a minha cabeça tem de pensar. A ter vontade de viver. Isto não é vida, caramba. Há pessoas que gostam mesmo disto, que não querem sair. Eu quero."

Toma todos os dias a chamada metadona de baixo limiar ("baixo limiar de exigência", ou seja, que não exige abstinência ou cessação de consumos), ministrada em carrinhas - "Tem de ser, senão começo a ressacar, e a ressaca da metadona é muito má." E consome, diz, duas a três vezes por semana. "Muita gente sai da heroína, mete-se na metadona e deixa de consumir heroína porque não faz nada [ou seja: a metadona, também opiácea, bloqueia o efeito da heroína] e começa a consumir cocaína. É o meu caso. Comecei por fumar mas neste momento pico." Gasta "às vezes trinta, às vezes quarenta, outras vezes dez euros." O grama (que no jargão é sempre "a grama") de cocaína, como o de heroína, custa entre 40 e 50 e Francisco, que vive com um irmão de 36 anos e também consumidor, não tem neste momento rendimentos. Como faz? A resposta é vaga, como quase sempre que nesta reportagem se pergunta de onde vem o dinheiro. "Vou fazendo biscates e trabalhos que ninguém quer. Estou desempregado desde que recaí, a droga não condiz muito com o trabalho. Tinha estabilizado mas não conseguia arranjar trabalho. A gente arranja sempre uma desculpa." Já ouviu muitas histórias assim porque às vezes, conta, é ele o jornalista. "Começo a puxar pelos outros, a fazer perguntas. Vão falando, desabafam e às vezes chegam ao fim e choram, agradecem. E eu fico a sentir-me um bocado melhor."

"Já não dá o prazer que dava"

O impulso de dizer, de revelar. Estas pessoas, como todas, têm uma história e querem dizê-la - sobretudo, que alguém oiça. Contadas, as histórias iluminam cada um destes rostos, redimem-nos da indistinção do "tipo" - mesmo se é possível achar que estamos a ouvir sempre a mesma, que em 20 e tal anos de reportagens sobre o assunto já conhecemos todo o catálogo dos discursos. Mas cada um é diferente do anterior; cada um é alguém. Alguém como nós, por mais que à partida, de longe, parecesse impossível.

Nunca mais, por exemplo, passar nas ruas do Intendente sem tentar perceber se Carlos e Luís estão ali, no meio dos grupos de capuz dos que vendem ou dos que sentados nas soleiras das portas fumam crack, chinesas ou procuram uma zona menos concorrida para picar. Nunca mais esquecer que Luís, de 43 anos, andou por aquelas ruas, enquanto faz tempo para ir a Santa Apolónia, às 18, buscar a dose diária de metadona, a refletir filosoficamente, solidariamente, sobre o fenómeno de que faz parte e a fazer o tour da venda e do consumo: "Aqui nestas escadas costuma haver gente a picar, vês?" E aponta os restos: embalagens vazias de seringas, garrafinhas de água destilada. "Ali naqueles cafés [na Almirante Reis] também costuma estar gente a vender." Numa rua com grupos de vendedores encontra Carlos, de 38 anos, oito passados na prisão por tráfico. Falador, articulado e sorridente, Carlos, que também usa, assume-se como um mediador: "Trazemos quem quer consumir a quem vende." É assim, explica, que consegue a droga para si. Luís faz o mesmo: "Não precisamos de dinheiro." Não querem dar mais explicações. Ambos já deixaram; recaíram. Luís, pensativo, acha que está a chegar a altura de sair. "Chega a um ponto em que já não dá o prazer que dava. Uso e já não sinto aquela coisa. Estava à espera de que isso sucedesse para me convencer." Muitas vezes, porém, sai-se, passa-se um tempo sem consumir, regressa-se. E, como numa daquelas relações amorosas em que as pessoas estão sempre a romper e a reatar, é outra vez como no início. Luís sorri. "É isso. Mas dura cada vez menos esse sentimento. Muito rapidamente passa a ser só mau. A teres só a necessidade sem a recompensa." Encolhe os ombros. Vive num quarto, pago pela mãe. "Sei que tenho de largar isto um dia. Mas ainda não chegou o momento. Acho que está próximo."

"Isto é um total contrassenso"

Se o ponto de viragem for a degradação, então este lugar do outro lado da cidade, no Bairro da Cruz Vermelha, ao Lumiar, num descampado rodeado de prédios altos, é um bom exemplo. Uma casota da EDP é a barreira contra o vento gélido onde várias pessoas, todas com mais de 45 anos, preparam a dose. Adelaide e Vítor usam uma grande embalagem de cartão para proteger a cocaína em pó enquanto a colocam nos cachimbos artesanais (estes são, explicam, construídos com pedaços de garrafas de refrigerantes e o corpo de uma seringa - desde 2013 que se distribuem kits de cachimbo mas por algum motivo muita gente prefere fazê-los) e aceitam uma foto desde que sem cara. Ele tem 48, ela não diz, só que consome "há 20 e tal". Ao lado, uma mulher e um homem fazem o caldo para injetar. O chão, aqui como no corredor perto do Casal Ventoso, é um puzzle de restos de consumos. Mais uma sala ao ar livre das que a equipa da Crescer na Maior identifica nas cinco zonas-chave da cidade - além desta, Casal Ventoso, Penha de França (Quinta do Lavradio, Picheleira), Beato (Xabregas)e Intendente. Em 2015, apesar de todas as recolhas efetuadas, juntos dos consumidores, pelas equipas de rua, a associação contabilizou 1260 seringas apanhadas no chão.

"Isto é um total contrassenso. Damos kits às pessoas para se injetarem na rua. É ridículo. E ainda me irrita mais porque Portugal lá fora é muito bem-visto. Somos apontados como exemplo, por causa da descriminalização do consumo, dos programas de substituição, da baixa da taxa de infeção do VIH/sida. Mas há muitos países que não descriminalizaram o consumo e têm salas de consumo há anos." Magda Ferreira, 44 anos, é uma das "pares" do IN-Mouraria, uma estrutura do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos) para apoio de PUD (Pessoas que Usam Drogas). Ser "par" significa que é alguém que usou ou usa drogas, e que por ter essa experiência tem uma maior capacidade de comunicar com quem usa, de empatizar. E Magda empatiza: sabe o que é ter de procurar um beco, um prédio abandonado, uma casa de banho de café para usar: "Como é que uma coisa que está prevista na lei não avançou ainda? Têm medo de quê, dos vizinhos?"

É claro que abrir salas de consumo implica uma torção lógica: o consumo é proibido. Mas, como Magda aponta, essa contradição já existe em toda a política de redução de danos, que tenta tornar o consumo de substâncias ilegais o mais seguro possível. A questão mais bicuda é outra: um equipamento desses só faz sentido nos locais onde já existe consumo de rua - e o consumo só existe nos locais onde se vende. Abrir a sala pressupõe, pois, admitir a venda. Mas durante quantos anos Lisboa conviveu, mais ou menos pacificamente, com o seu grande supermercado de droga? Magda encolhe os ombros: "Arrasaram o Casal e o negócio espalhou-se pela cidade. Era inevitável."

Para cada ação, uma reação. Como com a metadona: "O disparar do consumo de cocaína/crack é o reverso da medalha da generalização dos programas de metadona." Foram muito bem-sucedidos no debelar da grande epidemia de consumo de heroína, uma droga mais problemática devido à muito desagradável ressaca física (que a cocaína não provoca), mas apareceu o crack (cocaína fumada). A maioria dos atuais consumos de rua são de fumo - quer em chinesa (heroína) quer em cachimbo (cocaína). Em 2015, dos 1230 consumidores contactados na rua pela Crescer na Maior, 797 tinham como meio privilegiado o fumar.

O que seria, então, um local para consumo assistido? As propostas das associações passam todas por um espaço polivalente, onde além de divisões para consumo - a Crescer na Maior propõe dois, um para injeção e outro para fumo - e a habitual troca de materiais se disponibilizariam outros serviços, desde os médicos e de enfermagem (com rastreio de VIH/sida e hepatites), aos cuidados de higiene, passando por oferta de roupa e de snacks, gabinete de emprego, apoio jurídico, etc., além de espaço de convívio. Justamente o que oferece o IN-Mouraria, onde Magda trabalha. Um lugar de encontro, seguro e caloroso, com dois turnos: no primeiro, das 14 às 16, faz-se rastreio de doenças infecciosas e troca-se material de consumo; no segundo, entre as cinco e as oito, oferecem-se sandes (120 por dia, duas por cabeça), café, chá e sumos e um filme. Os serviços incluem ainda receção de correio (para quem não têm morada certa, acesso à net, apoio médico e psicossocial, entrega de roupa. E ouvidos. "Somos os amigos deles, da classe deles", diz João Santa Maria, 46 anos, o "par" mais antigo. "Temos pessoas sem abrigo, imigrantes, de um modo geral pessoas de "fim de linha"."

Há cerca de 700 utentes registados (o registo não é obrigatório), 50 a 60% dos quais com consumos ativos. As idades, constata-se in loco, são muito variadas. "Temos gente muito nova. Chegámos até a ver menores de 18, que não podíamos deixar entrar. E acho que houve muita gente a recair nestes anos da crise", informa João. Nota também que há gente que fumava e está a passar para a injeção. "Faz mais efeito e ao fim de algum tempo de consumo as pessoas já não sentem o mesmo, querem intensificar a sensação."

São cinco e meia, o IN está cheio. Começa Espelhos, um filme de terror em que a imagem das pessoas no espelho ganha vida própria, mortal. Olharmo-nos e vermos alguém que não reconhecemos e nos vai destruir: uma metáfora possível para o duplo que uma dependência pode criar em nós. Foi Tatiana, uma transexual de 32 anos, que pediu a fita. "Adoro filmes de terror. Adoro gritar." Consumidora há oito anos, Tatiana está agora a fazer metadona de baixo limiar. E como tantos outros passou para a cocaína. Gasta de 60 a 70 euros por dia e não esconde como: "Prostituo-me. Comecei a fazê-lo para a transformação [a cirurgia de mudança de sexo] e depois olhe." Interrompe a história numa cena mais intensa do filme: "Não se importa que me agarre a si? Tenho de me agarrar a alguém quando vejo estes filmes." Gargalhada geral. A seguir, repara nas horas: são quase seis. Despede-se: tem de ir a Santa Apolónia, à metadona.

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