Dos defensores dos TPC aos que lhes declaram guerra

Consolidar a matéria dada nas aulas é importante, mas as crianças também precisam de tempo para brincar. E até já há quem peça um movimento de recusa dos TPC

Há quem defenda que os trabalhos de casa ajudam a consolidar a matéria dada nas aulas, promovem a autonomia e incutem hábitos de trabalho. Outros que as crianças já chegam demasiado cansadas a casa, que têm necessidade de brincar e de estar com a família. Também há quem diga que acentuam as desigualdades sociais e quem critique o facto de, em muitos casos, nem sequer chegarem a ser corrigidos. E há mesmo quem, aproveitando o início de mais um ano letivo, defenda um movimento de recusa dos TPC.

Entre aqueles que acham que os TPC deviam acabar está Mário Cordeiro: "Apelo ao senhor ministro, às direções de educação e, sobretudo, às escolas e professores, que têm a faca e o queijo na mão. Chega de ensinar e aprender como no século passado!" Para o pediatra, os trabalhos para casa "não servem para nada e são arcaicos, excetuando os de fins de semana, se forem trabalhos de investigação feitos por pais e filhos". E explica porquê: "Por várias razões, nomeadamente científicas: provou-se que os TPC não acrescem em nada, pelo contrário, ao êxito e sucesso educativo das crianças; mas também sociais: é um estigma que prejudica o que hoje se pretende - o desenvolvimento de uma criança e ser humano integrais, completos, ecléticos e variados; e familiares: perturbam o bem-estar da família, prejudicam o já tão escasso tempo entre pais e filhos, causam stress."

Na opinião do pediatra, os trabalhos para casa "não apenas roubam muito tempo, como causam stress nas crianças e nos pais: estas porque estão numa fase endorfínica do dia, cansadas, e já não aguentam mais do mesmo, os pais porque veem as crianças quase adormecidas frente aos TPC e irritam-se, ajudam, desancam na criança, e acabam por ser eles a fazer os TPC, entre berros e gritos". Para que, prossegue, "os professores nem consigam - quem conseguiria - vê-los e analisá-los como merecem."

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), "no ensino secundário, os professores devem pensar duas vezes antes de marcar TPC, porque o aluno já deve ter autonomia. Se for orientado no estudo, há uma necessidade menor de trabalhos de casa". Já no ensino básico, o presidente da ANDAEP considera que podem fazer sentido: "Não me repugna que existam TPC q.b., para consolidar a matéria dada." Mas há alguns cuidados a ter. "Não marcar todos os dias, mas de acordo com a necessidade de consolidar o que é dado. E deve haver comunicação entre os professores do conselho de turma, para que, no mesmo dia, o aluno não tenha TPC a três ou quatro disciplinas."

Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática, defende que grande parte do trabalho dos alunos deve ser feita na sala de aula. "A existir algum trabalho suplementar, sobretudo no primeiro e no segundo ciclos, devem ser atividades mais leves e até com carácter lúdico, que não sejam mais do mesmo." Não é a repetição, explica, "que suscita a aprendizagem". Pelo contrário, "suscita aborrecimento".

Relativamente ao primeiro ciclo, Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, diz que "os TPC, tal como estão concebidos, não deveriam ser necessários. Na maior parte dos casos, não trazem grandes vantagens". Algumas vezes, refere, os deveres estão feitos "para consolidar conhecimento, o que devia ser feito na escola". Para o representante dos pais, faria mais sentido que existisse um "modelo diferente", no qual as aprendizagens dadas na escola fossem relacionadas com o dia-a-dia e que os TPC até fossem realizados "com o apoio da família". Também não lhe parece mal que, "caso a caso, fosse pedido ao aluno que lesse ou escrevesse um pequeno texto", consoante as necessidades. "Não de forma sistemática e igual para todos".

O atual modelo de trabalhos para casa, critica Jorge Ascenção, "retira convívio familiar, cria desigualdades e há situações em que o professor nem tem tempo de os corrigir".

O termómetro do conhecimento

Pedro Rosário, professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, defende que não faz sentido acabar com os trabalhos para casa. "Se forem ajustados, são importantes para perceber a autonomia da criança", sustenta. Autor de vários estudos sobre o tema, o investigador defende que "uma grande parte dos argumentos contra os TPC são emocionais ou contra a utilização da ferramenta. A estratégia é adequada, a forma como muitas vezes se utiliza é que não é". No primeiro ciclo, "há uma regra que corresponde a dez minutos para cada ano de escolaridade". A finalidade, salienta, não é "colmatar lacunas do que não se faz nas aulas", mas sim funcionar como "termómetro", que permite perceber como é que a criança está a dominar o conhecimento. "Os conteúdos são trabalhados por todos na sala de aula, mas a apropriação é individual."

Adequar os trabalhos de casa a cada criança é uma das sugestões de Pedro Rosário. "Deviam seguir a perspetiva do personal trainer. Podiam servir como ferramenta de aproximação às necessidades dos alunos. Podiam existir dois ou três tipos de TPC mais dirigidos", propõe. Voltando ao tempo que deve ser dedicado aos deveres, o investigador diz que, entre o 5.º e o 8.º anos, "mais do que uma hora é complicado". Pedro Rosário alerta, no entanto, que "os pais não têm de explicar os trabalhos para casa". O docente reforça que cabe apenas aos pais "proporcionar o tempo, o espaço e a tranquilidade para as crianças os fazerem".

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?