Doentes dos 80 aos 89 anos vão 7,6 vezes por ano ao médico

Os doentes dos 80 aos 89 anos com diabetes, hipertensão e depressão vão ao médico de família 7,6 vezes por ano, em média, segundo um estudo hoje divulgado pelo Sindicato Independente dos Médicos.

O número de consultas por ano varia de acordo com a idade, havendo um aumento progressivo com o avançar da faixa etária, quer para os utentes com diagnóstico de doenças crónicas quer para os que não têm doenças diagnosticadas.

Contudo, os utentes com diagnóstico de diabetes, hipertensão ou depressão apresentam um número de consultas por ano "muito superior" aos utentes sem diagnóstico em qualquer uma das faixas etárias, revela o estudo feito com o apoio do Gabinete de Estatística, Modelação e Aplicações Computacionais da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Neste estudo foram utilizados dados de seis unidades funcionais dos cuidados de saúde primários, envolvendo mais de 85 mil utentes e quase 230 mil consultas em 2016.

A análise permitiu perceber que os utentes que têm dois diagnósticos (entre a diabetes, hipertensão e depressão) apresentam mais consultas do que os doentes com apenas uma patologia diagnosticada.

O número de consultas por ano, segundo o estudo a que a agência Lusa teve acesso, varia entre 1,1 consultas nos utentes entre os 10 e os 19 anos sem diagnósticos e 7,6 consultas nos doentes dos 80 aos 89 anos com os três problemas diagnosticados.

Na primeira infância, dos 0 aos 9 anos, o número de consultas por ano é em média de 2,2, semelhante ao que ocorre nos utentes entre os 40 e os 59 anos sem problemas diagnosticados. Entre os 10 e os 50 anos, os utentes sem patologias vão duas ou menos vezes por ano ao médico de família.

Os médicos têm reclamado que as listas de utentes passem para um máximo de 1.500 doentes por médico de família, pretendendo que haja fatores de ponderação com base na idade e nos diagnósticos de diabetes, hipertensão e depressão.

"Torna-se necessário determinar novos fatores e critérios de ponderação com vista à normalização da carga de trabalho associada a cada lista de utentes", frisa o Sindicato Independente dos Médicos.

O secretário-geral do Sindicato, Roque da Cunha, considera fundamental introduzir as patologias mais frequentes como ponderação nas listas dos utentes, indicando que o estudo agora divulgado vem "fundamentar a necessidade de reduzir as listas a um máximo de 1.500 utentes por médico".

Aliás, a redução da lista de utentes tem sido uma das principais reivindicações dos sindicatos médicos e esteve também na origem da greve nacional de maio passado. Além disso, continua na lista de prioridades das organizações médicas nas negociações que decorrem com o Governo.

As listas de utentes por médico de família passaram de 1.500 para 1.900 utentes em 2013, no período de assistência financeira a Portugal e de intervenção da 'troika', tendo na altura o acordo dos sindicatos, com a condição de que seria por um período limitado de tempo.

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) recorda que este aumento representou um acréscimo de 27% na dimensão das listas de utentes, a que veio acrescer um aumento de 22% de utentes efetivamente utilizadores das unidades de cuidados de saúde primários, quando foram expurgadas das listas os utentes que não frequentam os centros de saúde.

"No total assistiu-se a um aumento de 55% do número de utentes utilizadores nas listas de utentes", refere o SIM, considerando que este "aumento desastroso na carga de trabalho dos médicos" implicou "estado elevado de exaustão emocional e impossibilidade de cumprimento dos tempos máximos de resposta garantidos".

Aliás, segundo o sindicato, mesmo as unidades de saúde familiar (USF) acreditadas apresentam mais de 75% das consultas marcadas por iniciativa do utente com tempo de espera acima do máximo legalmente estabelecido.

O secretário-geral do SIM apela ao Ministério da Saúde para que seja célere a abrir os concursos para os médicos recém-especialistas, de forma a dar médicos de família a mais utentes.

Roque da Cunha sustenta que o Ministério da Saúde tem o dever de criar condições para tornar mais atrativa a medicina geral e familiar, fazendo com que os clínicos permaneçam mais tempo no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e evitando saídas antecipadas.

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