Do lixo ao santo antónio. O que valem as moedas locais

André Couto, presidente da Junta de Freguesia de Campolide, com a nota local

São usadas por associações, juntas de freguesia, em feiras e em contexto digital e servem para trocar bens ou serviços. Surgiram há dez anos, mas começam agora a ganhar espaço

Nem só com euros se fazem compras em Portugal. Também se fazem com lixos, ecosóis, teares, santos antónios e lapas, algumas das moedas sociais criadas em determinadas zonas do país para a troca de bens ou serviços. Embora o conceito tenha chegado a Portugal há cerca de dez anos, as moedas locais só ganharam visibilidade mais recentemente. Em Espanha, já existem mais de 40 e até já foi criado o Instituto da Moeda Social.

"Podem funcionar em contexto de bairro, quando são iniciativas do poder local (junta de freguesia), e no âmbito das associações. São bastante utilizadas, por exemplo, em contexto de feiras de trocas", explica ao DN Sandra Coelho, professora na Católica Porto Business School. Também podem existir em formato digital para trocas online, como é o caso da ecosol, no Porto, criada para o desenvolvimento de uma "economia solidária", com o objetivo de suprir necessidades de alimentação, vestuário, saúde, educação.

Dependendo do contexto, há várias formas de obter moedas sociais. Nas feiras de trocas, por exemplo, os produtores ou artesãos podem trocar os seus produtos por moedas, que depois usam em compras. "São simultaneamente produtores e consumidores", refere a socióloga. Outra forma de ganhar moedas sociais é através da prestação de serviços, mas ainda existem outras. Em Campolide, por cada quilo de resíduos que os moradores entreguem à junta de freguesia recebem um lixo, uma moeda social que equivale a um euro e que pode ser usada no comércio local. Em pouco mais de dois meses começaram a circular 7500 lixos.

Ao DN, André Couto, presidente da Junta de Freguesia de Campolide, explicou que a campanha "está a ser um sucesso". "Conseguimos captar a atenção das pessoas e mudar comportamentos. Por outro lado, nas zonas mais carenciadas, é também uma forma de ajudar. E há ainda a dinamização do comércio local", destaca. Os próprios comerciantes estão a gastar os lixos que recebem uns nos outros.
As moedas sociais são criadas e geridas pela própria comunidade. Ana Margarida Esteves, socióloga e investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, explica que "o objetivo é criar moedas que estejam sob o controlo da comunidade e não de entidades abstratas, para que a comunidade possa controlar a taxa de juro em microcréditos, por exemplo, como acontece com o Banco Palmas, no Brasil". Daí que "as relações de proximidade e a confiança" sejam dois dos requisitos para o sucesso destes projetos.

Com este tipo de moedas, explica Sandra Coelho, é possível "conceder algum poder de compra a populações economicamente desfavorecidas e estimular a economia local". Uma das suas particularidades é que, na maioria das vezes, perdem valor com o tempo. "O objetivo é que a moeda circule dentro da comunidade e que não seja acumulada, até porque não pode ser trocada fora do circuito em que é válida. A sua lógica de funcionamento é, portanto, não capitalista." Citando o economista Karl Polanyi, a socióloga refere que esta moeda é a prova de que "a economia de mercado não é a única forma de economia. Reduzir a economia à sua forma de mercado é uma ideia falaciosa que é dominante na nossa sociedade".

Ana Margarida Esteves explica que o facto de serem moedas complementares faz que, "em muitos casos, sejam difíceis de implementar". Segundo Sandra Coelho, um estudo feito em 2013 apontava para a existência de 50 feiras de trocas em Portugal. "Estima-se que apenas 19 recorressem à moeda social, mas apenas cinco existiam fisicamente. As restantes existem somente em suporte virtual." E nem todas são mantidas com regularidade. Recentemente, a freguesia de Santo António, em Lisboa, criou o santo antónio para ajudar famílias carenciadas. Na Covilhã, também existe a LAPA e em Campo Maior circula a mayor.

Em Espanha, o fenómeno tem outra dimensão, já que, de acordo com um artigo publicado recentemente no El País, existem entre 40 e 50 moedas sociais, que circulam entre milhares de pessoas. A mais antiga, el zoquito del jerez, cumpre dez anos de existência em 2017 e, além de trocas de produtos biológicos, contempla serviços de transporte para os aeroportos, fotorreportagens em casamentos, roupas. Segundo o presidente da Câmara Municipal de Barcelona, arranca no próximo ano um projeto-piloto nos bairros de Besos, que deverá chegar a milhares de famílias.

Por cá, Sandra Coelho diz que estas moedas surgiram em 2006, "como forma de valorização dos saberes e fazeres mais tradicionais das comunidades, e como meio de promoção de um consumo mais solidário". No entanto, a nível global, "remontam à década de 1980 e intensificaram-se nos anos 1990". "Atualmente, as moedas sociais têm-se multiplicado, pois constituem, para muitas famílias, uma forma de aceder a bens de primeira necessidade que os seus parcos salários não lhes permitem adquirir. O contexto de crise financeira que assolou o país, o aumento do desemprego e consequente perda de poder de compra propiciaram a emergência de mais feiras de trocas e de mais moedas sociais", esclarece a socióloga.

Apesar de todos os benefícios que podem trazer a uma comunidade, as moedas sociais também são alvo de algumas críticas. "Para os economistas, levanta algumas questões ligadas à economia formal, uma vez que não envolve a moeda oficial, o que quer dizer que não se pagam impostos", conta Sandra Coelho. Além disso, "há pessoas que também questionam porque é que, em alguns casos, se paga em moedas sociais e não em euros".

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