Dinheiro para cardíacos faltará se não houver mais prevenção

O secretário de Estado adjunto da Saúde diz que o crescimento dos custos é incomportável e a solução é a prevenção. Chamar a atenção para o impacto da insuficiência cardíaca na saúde dos portugueses é um objetivo da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que realizou a conferência Repensar o futuro da saúde cardiovascular

O secretário de Estado adjunto da Saúde, Fernando Araújo, disse que o ritmo de aumento das despesas com medicamentos e tratamentos é "incomportável quando comparado com o crescimento do PIB". Por isso, "não podemos continuar a focar a abordagem da cardiologia apenas no tratamento hospitalar, antes temos de olhar para a reabilitação e para a prevenção da doença, sem o que não conseguiremos ter dinheiro para o tratamento", concluiu o governante na conferência da Sociedade Portuguesa de Cardiologia subordinada ao tema Repensar o Futuro da Saúde Cardiovascular em Portugal.

É nisso mesmo que está apostada a Sociedade Portuguesa de Cardiologia. "Retirar as doenças do aparelho circulatório do lugar cimeiro das causas de morte é o nosso objetivo", assumiu o seu presidente executivo, João Morais, na abertura da conferência que se realizou na quarta-feira na Fundação Gulbenkian. Para tal, João Morais considera essencial "tornar a insuficiência cardíaca - que afeta meio milhão de pessoas - uma prioridade da política geral de saúde".

Algo que passa não apenas por incluir a doença no Programa Nacional para as Doenças Cerebrocardiovasculares, mas também por formar os profissionais de saúde, como os médicos de família, melhorar o diagnóstico precoce (através de marcadores de exclusão da doença comparticipados pelo SNS) e criar programas multidisciplinares para o correto acompanhamento da doença.

Porquê? Em Portugal, a mortalidade por insuficiência cardíaca, em torno dos 12%, é superior ao cancro da mama, do cólon ou da leucemia, bem como da diabetes e da doença pulmonar obstrutiva crónica, explicou João Morais. Mais, segundo a SPC, "o tempo médio de internamento motivado por descompensações de insuficiência cardíaca ronda os dez dias, contribuindo com a taxa mais elevada de morte intra-hospitalar de entre todas as doenças cardiovasculares".Um quadro que acarreta internamentos recorrentes e "excessivos custos económicos e sociais".

Apesar dos "progressos assinaláveis nos últimos 20 anos, em que a mortalidade das doenças cardiovasculares baixou para metade", a investigadora Ana Azevedo revelou indicadores que mostram que muito há ainda a fazer. Aquela especialista em epidemiologia referiu, com base em estudos, que para além dos fatores de risco mais conhecidos, como a hipertensão, o colesterol, o tabagismo e o sedentarismo, uma baixa condição socioeconómica também constitui um fator de risco.

Outra revelação feita por Ana Azevedo é que o tempo que os hospitais demoram a intervir num doente desde que ele apresenta sintomas até à cateterização difere substancialmente, caso seja no Hospital de São João, no Porto, ou em Trás-os-Montes.

Desigualdade no acesso

"Esta grande diferença de tratamento é injusta e remete para a desigualdade no acesso à saúde", considerou Ana Azevedo. Por outro lado, também apontou diferenças relevantes entre o tempo médio que o doente demora a reagir aos sintomas (hora e meia) e o que o sistema demora (pode ir até às duas horas e meia). Para resolver este desequilíbrio, a investigadora propõe que se trabalhe no sentido de "reduzir o tempo de intervenção do lado do sistema e desenvolver competências do lado do doente".

Até porque, segundo João Morais, a prevalência da doença está subestimada e vai subir em flecha, não só porque as pessoas vivem até mais tarde, mas porque vão sobrevivendo a outras doenças agravando a insuficiência cardíaca, com custos aumentados.

Rui Ferreira, diretor do Programa Nacional para as Doenças Cerebrocardiovasculares, defendeu um reforço do "fraco diálogo entre os profissionais dos centros de saúde e dos hospitais" a par de um rastreio mais precoce das doenças cardiovasculares.

Já Rui Cernadas, vice-presidente da ARS Norte, considerou que a percentagem do orçamento da Saúde para prevenção é baixíssima. Por outro lado, "é absolutamente necessário fazer ações de formação junto dos médicos de medicina geral e familiar sobre insuficiência cardíaca porque esta é uma síndrome complexa", disse.

Para o presidente eleito da SPC, Victor Gil, "temos a obrigação de manter o que conseguimos, mas também criar novos desafios. Gostaríamos de ser vistos pelo governo como parceiros neste diálogo, mas nem sempre o temos sentido".

Ricardo Mestre, da ACSS, destacou o facto de, "pela primeira vez, terem sido definidos tempos máximos de resposta para cardiologia".

Para melhorar o conhecimento da população sobre a insuficiência cardíaca, a SPC defende um aumento do investimento público na prevenção (o orçamento da Saúde só prevê 1%) bem como o envolvimento dos media. Foi nesse sentido que convidou o DN para media partner da conferência e o seu diretor, Paulo Baldaia, para falar sobre a utilidade dos media na promoção da saúde cardiovascular. O jornalista considerou que, num tempo em que prolifera nas redes sociais informação não certificada, também sobre saúde, "é importante estabelecer parcerias entre a comunidade científica e os media, que conferem um selo de credibilidade à informação veiculada".

Mas lembrou que, "fruto da quebra drástica das receitas publicitárias, os media tiveram de reduzir as suas redações, às vezes para metade, perdendo jornalistas especializados". Por isso lançou o desafio ao setor da saúde para apoiar a formação dessa especialização e contratualizar parcerias de comunicação porque os media, na conjuntura atual, nem sempre têm capacidade para o fazer pro bono.

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