Deteção de veneno. Sete cães da GNR treinam para salvar a águia imperial

A missão é proteger a ave que agricultores e caçadores tentam matar. Para isso são treinados a farejar três substâncias

"Yelo", um pastor belga mallinois, usa um colete da GNR e podia facilmente ser o protagonista de uma série policial. Escondam deste cão um animal morto que tenha sido previamente impregnado com uma de três espécies de veneno (estricinina, abdicarb ou carbofurano). Depois é assistir à sua investigação até encontrar o alvo, como o DN fez, a partir de um ponto alto, na zona do Alqueva: o focinho de "Yelo" parece uma seta. Pode não ir logo direto mas vai com uma energia e uma determinação ímpares. Quando encontra o animal morto que o tratador escondeu numa moita sinaliza: ladra e abana a cauda. Já sabe que não pode agarrar o animal de treino pela boca: se o fizesse morria.

"Yelo" e a atlética "Suzy" vieram de Beja para a zona do Alqueva, no Alentejo, treinar na presença do DN. Fazem parte de uma nova equipa canina especial da GNR: sete cães (pastores belga mallinois e pastores alemães) que estão a fazer nove patrulhas por mês nos campos dos distritos de Évora, Beja e Castelo Branco para proteger da morte por ingestão de venenos a águia imperial, espécie protegida, como explicou ao DN o coordenador do programa, capitão Brito, do Grupo de Intervenção Cinotécnico (GIC) da GNR.

A águia imperial foi considerada extinta em Portugal na década de 1980. Voltou a ser confirmada em 2003, e, desde aí, a população tem vindo a aumentar lentamente até atingir, em 2013, os 11 casais confirmados (22 indivíduos), segundo dados do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

As etapas do treino

O treino tem várias etapas. Primeiro, os animais mortos são impregnados de veneno com discos de algodão e depois são escondidos no mato para o cão detetar o odor. No dia em que o DN esteve no terreno, era com um saca rabos e com uma águia, enviados para o efeito pela Liga da Proteção da Natureza (LPN), parceira da GNR.

A águia, que tinha sido morta num acidente, já fora usada num treino com os cães de Évora e a experiência correu mal. "Talvez pela forma como morreu, os cães confundiram os odores e não a detetaram nos locais onde os militares a tinham escondido", refere o capitão Brito. Com os cães de Beja, o resultado foi outro. "Suzy" saiu disparada à procura do odor de veneno. O vento não a ajudava, levando-a em direções diferentes e obrigando os militares que a acompanhavam a um treino intensivo de sobe e desce de montes, com o espelho de água do Alqueva em baixo. Depois de muito correr em círculos, "Suzy" acertou no arbusto e sinalizou, ladrando alto. Como recompensa, o tratador atira-lhe o "boneco" para ela brincar. É pela recompensa que os cães correm.

""Yelo e Suzy são tão rápidos a seguir a pista que temos de os enganar, deixar contaminar algumas áreas para dificultar a sua missão . "Yelo" é mesmo muito inteligente, consegue seguir rastos dos pneus durante o tempo que for preciso. Se apanhar uma pista não a larga", elogia o capitão Brito.

"As equipas são constituídas por dois binómios. Uma das equipas leva uma mochila de primeiros socorros, inclusivamente preparada com água oxigenada para provocar o vómito se houver algo que fuja do controlo, como o cão ingerir o veneno", adianta o oficial. "Em zonas de armadilhas e laços para apanhar animais, uma equipa corta o arame. O militar que não vai com o cão vai atento a tudo, nomeadamente ao terreno".

Da Holanda para Portugal

Os cães vieram da Holanda há três meses e foram treinados pelo GIC para encontrar venenos colocados em presas da águia imperial (uma pata de frango, um coelho, etc), como explicou o capitão Brito. São os venenos colocados por vezes por agricultores, caçadores ou outros, para matar aquela ave. "Este novo tipo de criminalidade é um flagelo para o meio ambiental e ameaça todos os que nele habitam", afirma o capitão. A contaminação por veneno pode ir até cinco espécies na cadeia alimentar, explicou.

A missão da GNR é inserida no projeto Life Imperial, coordenado pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e destinado à conservação da águia imperial , espécie "criticamente em perigo" que tem sido muito ameaçada pela ingestão de venenos. O crime é o de danos contra a natureza, punido com pena até três anos ou multa até 600 dias. O financiamento europeu deste programa é por quatro anos. "Vamos ter muita tecnologia ao dispor. Teremos tablets e coleiras GPS que vão estar nos cães para podermos georeferenciar. A mais valia é que poderemos fazer o mapeamento dos casos e ter o registo das zonas batidas pelos cães", diz o capitão Brito. No início do ano morreu uma águia imperial por ingestão de veneno no Baixo Alentejo. Nesta região terão havido quatro mortes, de milhafre real e águia-de-asa-redonda, apenas em dezembro de 2015, segundo a LPN.

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