Desfile no Tejo com mais de 300 embarcações

Associação Naval de Lisboa celebra 160 anos. Presidente da República vai lá estar

Mais de 300 embarcações das três marinhas que todos os dias cruzam o Tejo - a mercante, com os seus rebocadores, a de guerra com o garboso "Creoula" e a de recreio, incluindo 10 canoas e fragatas, os tradicionais barcos do rio - participam hoje no desfile que encerra as celebrações dos 160 anos da Associação Naval de Lisboa (ANL).

A festa, "que está a ser preparada há quatro meses", como explicou ao DN André Bettencourt, o comodoro da ANL, inicia-se às 17.00, junto à Doca de Santo Amaro, em Alcântara, e será o momento alto das comemorações que celebram a já longa travessia deste que é o clube desportivo mais antigo da Península Ibérica, e um dos 30 mais antigos da Europa.

O trajeto do desfile far-se-á rio abaixo, da Doca de Santo Amaro até à Torre de Belém, e daí, com uma inversão de rumo, até ao Padrão dos Descobrimentos, onde está prevista a chegada pelas 17.40, e onde haverá um brinde, uma salva de 21 tiros a partir do navio "Creoula", da Marinha Portuguesa, e ainda um sobrevoo, com acrobacias, por parte da aviação militar, que assim se associa às celebrações. O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que é presidente honorário da Associação Naval de Lisboa, também participa no desfile, a bordo da embarcação "Gaivota do Mar".

"O melhor sítio para ver o desfile, a partir de terra, é junto ao Padrão dos Descobrimentos", aconselha André Bettencourt.

Com esta festa náutica, a ANL quer celebrar as suas principais atividades de navegação, que são a vela e o remo, mas também chamar mais lisboetas para o Tejo, mostrando-lhes que viver o rio, além de passear na suas margens e usufruir do seu belo cenário, também é navegar nas suas águas.

"Nos últimos dez anos, sobretudo, a cidade de Lisboa reaproximou-se do seu rio, depois de muitas décadas de afastamento", diz André Bettencourt, sublinhando que esta reaproximação, "muito devida à ação do Porto de Lisboa e da câmara municipal, que devolveram às pessoas os espaços das margens e os requalificaram, tem sido muito positiva".

Mas viver o rio na sua totalidade, para ANL, é navegá-lo. E, por isso a associação, que tem cerca de 500 participantes regulares no remo e na vela, quer quadruplicar esse número, para os 2000 praticantes. Um anseio que terá de passar pela remodelação e ampliação das atuais instalações. "Já temos projeto e estamos em conversações com a câmara de Lisboa", conclui André Bettencourt.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.