De precisar de ir a várias lojas até pedir entregas em casa passaram 30 anos

Primeiro Continente de Lisboa faz três décadas. Desde então, portugueses habituaram-se a ir a um único sítio fazer compras

Com iogurtes, tomate e milho na mão, Alexandra Gonçalves é uma consumidora típica dos dias de hoje. Aproveitou uns minutos de pausa para correr ao supermercado ao lado do trabalho e comprar os produtos que lhe iam fazer falta para esse dia. Habituou-se a usar os hipermercados e supermercados, mas faz as suas compras para a semana e usa o mercado para fruta e legumes "biológicos". A carne também é comprada no talho, ao passo que "o peixe compro no supermercado".

Alexandra não se lembra do tempo antes dos hipermercados, quando era preciso ir a várias lojas para fazer as compras para casa. A massificação destes espaços aconteceu há pouco mais de 30 anos. Depois da experiência do Pão de Açúcar (da CUF), um grande supermercado nos anos 1970, os anos 1980 vieram tornar o conceito mais abrangente. O primeiro Continente (da Sonae) abriria em 1985, em Matosinhos. Lisboa teve de esperar mais dois anos. Acabado de completar 30 anos de existência, o espaço serve mais de 175 mil pessoas. Atualmente, os hiper entram cada vez mais nas preferências dos consumidores.

Maria do Carmo ainda se lembra do Pão de Açúcar da Venda Nova. "Há 50 anos ia lá e também tinha tudo. Uma pessoa habitua-se a fazer as compras todas no mesmo sítio", refere. Aos 72 anos, confessa que anda sempre à procura do melhor preço. "Agora há supermercados em todo o lado e quando está mais caro num vou ao outro." Regressar ao mercado está fora de questão: "Na praça é tudo mais caro", justifica.

Para Maria do Carmo o fator principal de escolha é o preço e depois a comodidade de ter tudo no mesmo sítio. Elogia ainda a evolução que houve: "Até há um cartão que dá descontos em consultas."

Palmira e Albino Pombo também reconhecem que já se esqueceram de ir às mercearias. "Quando apareceram os super e hipermercados era mais fácil comprar tudo lá e habituámo-nos."

Na comparação do mercado de hoje com o de há 30 anos, admitem que os hipermercados vieram trazer mais variedade. "Há mais oferta e até compramos o que não queremos", brinca Palmira, acrescentando que "só vinha comprar uma coisa" e vai com os sacos cheios para casa.

A variedade e as promoções são dois dos traços distintivos dos hipermercados, desde a primeira hora, como aponta João Melo, diretor de Operações da Sonae. Do tempo em que abriu a primeira loja em Lisboa, recorda a euforia. "A loja foi inundada de clientes e nós tínhamos até dificuldade em fazer a reposição dos stocks tal era a afluência. Era até frequente as lojas serem obrigadas a fechar as portas por alguns períodos, de forma a que se pudessem repor os produtos nas prateleiras."

A oferta de produtos foi também novidade: "As pessoas tinham acesso a gamas inteiras de televisores, walkmans e outros equipamentos eletrónicos e podiam tocar e fazer comparações. No início da nossa atividade, o corredor de bolachas era constituído maioritariamente por bolacha Maria, torrada e água e sal, porque eram esses os produtos mais consumidos. Com o Continente, produtos e marcas até então desconhecidos em Portugal passaram a estar mais disponíveis para compra, como por exemplo o Kiwi ou a marca de achocolatado Cola Cao."

Não é, por isso, difícil de imaginar que "nessa altura, a visita aos nossos hipermercados era considerada uma experiência para ser contada e recontada a familiares e amigos. No momento de pagar, destacavam-se os tapetes rolantes das caixas - uma novidade para a altura -, mas as filas eram de tal forma grandes que os mais impacientes desistiam e abandonavam os seus carrinhos".

Longe vão esses tempos e muita coisa já se alterou. Antigamente faziam-se compras para o mês. Hoje, o planeamento é semanal e nem assim é garantido que não se volte ao supermercado nesse intervalo.
Palmira ainda tenta fazer compras para o mês, aproveitando que manda entregar em casa - "outras das diferenças", sublinha -, mas este ainda é um serviço de que desconfia. "Quando há promoções, demoram mais tempo a fazer entregas e já fica fora das promoções, às vezes, não estão disponíveis quando nos dá jeito", exemplifica.

À procura do que lhe dá jeito, José Ferreira confessa que vai a quase todos os supermercados que tem perto de casa. "Felizmente agora há um em cada esquina." Com 76 anos e reformado é ele quem faz as compras lá para casa. "A minha mulher não pode e eu venho de carro e já toda a gente me conhece. Mas diversifico muito, não vou sempre ao mesmo sítio", refere. Está satisfeito com a qualidade dos produtos que encontra nas grandes superfícies e por isso já nem pensa nos mercados tradicionais. Além disso, ao pé de casa tem mais supermercados do que mercearias.

E estes têm sabido inovar ao longo dos anos, aponta a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). Apostando na "personalização e conveniência". "Este comércio de proximidade tem igualmente sido alvo de grande transformação, com as insígnias da distribuição a marcarem cada vez mais presença neste formato", indica Ana Isabel Trigo Morais, diretora-geral da APED.

Para os consumidores a proximidade de casa ou do trabalho é mesmo a principal razão por que escolhem determinadas lojas para fazer compras. Por isso, as marcas que antes apostavam mais nos hipermercados adaptaram a marca para estar mais próximos da vida de bairro. É esse o exemplo de Paulina, que embora tenha ido fazer compras para "a patroa", no sítio mais perto da casa dela, também para as suas compras escolhe os supermercados "mais próximos, mas há vários".

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