De jovem esperança até ao Óscar da gastronomia

Em 2005 foi considerado o Chef d"Avenir, 13 anos depois é o primeiro português a vencer o Grande Prémio da Arte da Cozinha

Em 2005 quando José Avillez ainda procurava vingar no mundo da gastronomia, recebeu o seu primeiro grande prémio internacional com a distinção Chef d"Avenir (Chef do Futuro) da Academia Internacional de Gastronomia (AIG). Treze anos depois, com duas estrelas Michelin já no currículo, chega a consagração, com a mesma organização, sediada em Paris, a atribuir-lhe ontem o Grand prix de l"Art de la cuisine, um prémio só ao alcance dos melhores como Alain Ducasse e Joan Roca. É o primeiro português a receber este prémio, atribuído desde 1990.

"Sinto-me muito agradecido e honrado por receber esta distinção. Temos trabalhado no sentido de promover a gastronomia portuguesa e este prémio reconhece o caminho que temos vindo a fazer", respondeu ao DN José Avillez, horas depois de saber que tinha recebido o prémio. Questionado se é a distinção mais importante da carreira, afirmou que "é uma das mais importantes na área da gastronomia e é um privilégio fazer parte do extraordinário grupo de chefs que tem vindo a ser nomeado com este prémio e entre os quais encontro tantas referências".

A Academia Portuguesa de Gastronomia é a instituição portuguesa que integra a AIG e considerou ontem que é um reconhecimento da evolução da cozinha portuguesa. "É primeira vez que um português vence tamanha distinção, confirmando as críticas que José Avillez vem recebendo dos gastrónomos mais exigentes que já clamam pela mais que merecida terceira estrela no Michelin", refere em comunicado. A organização nacional "congratula-se efusivamente com este prémio que vem definitivamente colocar a gastronomia portuguesa ao lado das melhores do mundo, provando que o trabalho iniciado há alguns anos por esta nova geração dos chefes portugueses está a ser consagrada além fronteiras ao mais alto nível".

O Presidente da República também reagiu no si te oficial, onde se lê que "é um reconhecimento internacional depois do aplauso já conquistado em termos nacionais, estão de parabéns os portugueses, está de parabéns o chef José Avillez". Marcelo Rebelo de Sousa acrescenta que "este é mais um exemplo de que quando somos bons, somos mesmo os melhores".

A AIG é uma organização que reúne cerca de 30 países, de todos os continentes, com o objetivo promover as cozinhas nacionais e regionais e a sua herança cultural, sem deixar de valorizar a cozinha contemporânea e a criatividade. Todos os anos, Anualmente, atribui quatro grandes prémios - Arte da Cozinha, Cultura Gastronómica, Ciência da Alimentação e Arte da Sala - com "o objetivo de recompensar o trabalho das personalidades e instituições mais relevantes no mundo da gastronomia".

Desde 1990, ano da sua criação, a AIG premeia anualmente os melhores chefes do mundo e entre os distinguidos estão chefs como Alain Ducasse, Joel Robuchon, Thomas Keller, Pierre Gagnaire, Heston Blumenthal, Joan Roca, Grant Achatz, Massimo Bottura, e Alex Atala.

A distinção a José Avillez não foi a única a beneficiar Portugal. Pedro Pena Bastos recebeu o prémio Chef de l"Avenir, que Avillez venceu em 2005. Pedro Pena Basto foi até novembro o chef do restaurante Herdade do Esporão. Além desta distinção, Portugal recebeu ainda mais três prémios, atribuídos a Gabriela Marques (Prix au Sommelier), George Mendes com o livro My Portugal (Prix de Literature Gastronomique) e Leonardo Pereira com o programa de televisão "Chef de Raiz" (Prix Multimedia), o que significa, para a Academia Portuguesa de Gastronomia, que mais uma vez a gastronomia portuguesa é elevada "a um patamar nunca antes atingido". O sucesso de Portugal vem sendo reconhecido e Jacques Mallard, presidente honorário da AIG já tinha antecipado, em 2016, quando esteve em Lisboa e assinalou que a cozinha portuguesa viveu, nas últimas décadas, "uma verdadeira revolução".

De Cascais para o mundo

José Avillez, 38 anos, é natural de Cascais e estudou comunicação empresarial. Mas a gastronomia era uma paixão e o restaurante da Fortaleza do Guincho foi o seu primeiro local de trabalho, como estagiário. Percebeu que não havia outro caminho fora d a cozinha, era esse o seu mundo, e, por isso, realizou vários estágios em restaurantes como o espanhol El Bulli, do chef Ferran Adrià, considerado o melhor do mundo da altura. O Tavares foi a primeira casa, em 2008, onde assumiu o lugar de chef e e o êxito chegou no ano seguinte com a primeira estrela Michelin, atribuída nesse ano a este restaurante lisboeta.

A partir de 2011, José Avillez apostou na marca própria e criou vários restaurantes em Lisboa e Porto. O Belcanto, no Largo de São Carlos, em Lisboa, é o mais conhecido, já foi distinguido com duas estrelas Michelin e considerado um dos cem melhores restaurantes do mundo pela prestigiada The World"s 50 Best Restaurants List.

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