Da pasteleira à BMX, uma cidade onde as bicicletas têm prioridade

Mais de 300 alunos deslocam-se diariamente de bicicleta para a Secundária da Gafanha da Nazaré. Este ano, a escola criou oficina e espaço de formação sobre os velocípedes e espera aumentar o número de utilizadores diários

De mochila às costas, chegam em bicicletas de montanha, de BTT ou BMX e em relíquias como a pasteleira e a yé-yé. Também há artistas que se deslocam nas suas próprias criações de duas rodas. Cruzam-se no portão com os colegas que vêm a pé e com os que apanham a boleia dos pais. São oito e vinte da manhã de sexta-feira. Este cenário, que nos remete para países nórdicos, repete-se todos os dias. Mais de 300 alunos da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, no concelho de Ílhavo, vão a pedalar para a escola. Alguns professores e funcionários também. Um excelente exemplo do que se passa na freguesia, que é, de acordo com os Censos de 2011, aquela onde há mais utilizadores diários de bicicleta.

Apressados, os ciclistas estacionam no enorme parque coberto que ocupa a entrada da escola. Não perdem tempo a prender a bicicleta. "É raro haver furtos", dizem-nos. Bruno Vilarinho e João Marques, alunos do 12.º ano, estacionam lado a lado, no mesmo lugar de sempre. São entusiastas das duas rodas, que montaram e quitaram as suas bicicletas. Dois adeptos da mobilidade sustentável. "Acabamos por fazer exercício e, ao mesmo tempo, respeitamos o ambiente. É um meio de transporte fácil e que permite que não estejamos dependentes dos nossos pais", diz Bruno, que começou a usar a bicicleta diariamente aos 9 anos. Ambos fazem parte do GAFe Bike Lab, um laboratório criado este ano pela escola, que contempla, entre outras coisas, uma oficina para arranjo de bicicletas e apoio técnico aos estudantes. A ideia é fomentar ainda mais o uso de velocípedes entre os alunos, uma vez que, num total de 800 estudantes, já houve mais de 500 utilizadores diários, mas hoje são pouco mais de 300. Alguns vivem perto, outros a quatro quilómetros, na Gafanha da Encarnação.

António Rodrigues, o coordenador do Espaço Bicicleta, acredita que uma das razões para esta quebra é o facto de alguns encarregados de educação não deixarem os filhos usar bicicletas por não se sentirem seguros. A segurança é, aliás, um dos focos do novo projeto. Atualmente, só 10% dos alunos têm iluminação, mas a escola já tem LED, oferecidos pela junta de freguesia, para distribuir pelos jovens ciclistas.

Professor na Gafanha de Nazaré há 25 anos, onde casou, o transmontano António Rodrigues é um dos docentes que usa a bicicleta nas deslocações para o trabalho. Rendeu-se desde que começou a dar aulas na instituição. Recorda que a mãe ficou boquiaberta quando, há 25 anos, viu a sogra em cima de uma bicicleta. "Ela nunca tinha visto uma mulher a andar de bicicleta." Na freguesia, a prática já era comum.

Ao DN, Carlos Rocha, presidente da junta de freguesia, diz que a utilização das duas rodas está muito relacionada com "a morfologia do terreno, uma vez que a cidade é plana" e é também uma tradição muito enraizada. "A Gafanha é uma terra de gente pacata, onde as distâncias se colmatavam primeiro com carros de bois e depois com as bicicletas, um meio de transporte barato." O hábito manteve-se. "Nas crianças mais pequenas, o sonho é ter uma bicicleta." À medida que crescem, o desejo é que seja cada vez maior. "É uma prática transversal a todas as faixas etárias e classes sociais." Nem o próprio escapa. "Ao fim de semana, ando de bicicleta sempre que posso. É uma boa maneira de ver os buracos na estrada."

Aqueles que usam este meio de transporte seguem o exemplo dos pais e dos avós. É o caso de Jéssica Rocha, de 16 anos, que usa a bicicleta diariamente desde os 12. "Só não a trago quando chove", diz. Há muitas vantagens: "Não apanho confusão. E, caso não haja aulas, posso ir embora. Não estou dependente da minha mãe." Mas, lamenta, "as estradas estão em mau estado".

Alargar temática às aulas

O GAFe Bike Lab nasceu este ano para que os alunos possam melhorar a sua relação com a bicicleta, quer ao nível da segurança quer da manutenção e do desenvolvimento de novos produtos. Além de palestras, exposições, discussões, há mesmo uma oficina junto à cantina e ao bar. Aí, é possível arranjar bicicletas, trocar experiências e pedir apoio técnico. "Também vamos recuperar algumas bicicletas, que depois podem ser cedidas aos alunos durante o ano", revela João Marques.

O desafio é alargar o projeto à componente letiva. Manuel Santos, professor de Sistemas Digitais do curso de Automação, conta ao DN que está a trabalhar com os alunos para a produção de sensores de luminosidade. A ideia é ter uma solução manual e outra automática. "Isso pressupõe uma estrutura para fixar componentes, pelo que envolve também modelagem 3D." Mas mais arrojado é o projeto de "segurança no estacionamento". "O objetivo é abolir cadeados e ter um sistema automático a partir de uma app Android, através da qual os alunos conseguem ver os estacionamentos disponíveis, escolhem o que pretendem, encaixam a bicicleta e trancam através do telemóvel."

Já o professor Carlos Ramos procura desenvolver mecanismos que tornem a bicicleta mais "segura e confortável", mas, para isso, os alunos vão "fazer protótipos 3D de pequenos acessórios", em parceria com a Universidade de Aveiro.

Toda a cidade pedala

Em termos percentuais, a Murtosa é o concelho do país que dá mais uso a este meio de transporte (20%), mas a freguesia da Gafanha da Nazaré é líder no número de pessoas que vai de bicicleta para a escola e para o trabalho (1201). Apesar de existirem poucos troços de ciclovias na cidade.

Maria La Salete, de 80 anos, tem "a ideia" de que anda muita gente de bicicleta na Gafanha. Viveu "muitos anos" no estrangeiro e, por isso, só aprendeu a pedalar aos 50. "Não tenho muita prática e confesso-lhe que já me custa muito." Tal como outros utilizadores seniores, deixa a yé-yé enferrujada encostada à montra enquanto faz compras no minimercado. Sem cadeado. "Nunca tive esse hábito e também nunca me roubaram. Mas já caí muitas vezes", graceja.

Ao final da manhã, ainda se circula bem na Gafanha. Por volta das 18.00, o presidente da junta de freguesia admite que "é um inferno" andar de carro na cidade, pois é a hora a que todos regressam a casa. "Quem circula de automóvel sabe que às 08.00, à hora de almoço e ao final do dia tem de ter mais cuidado. É muito raro haver notícia de acidentes", adianta Carlos Rocha. Diz que a bicicleta quase só tem vantagens. "A única desvantagem é que às vezes solta-se a corrente."

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