Da Palhavã a Carnide, a feira popular é (para já) uma memória

O parque de diversão que nasceu para financiar a obra social de O Século, nasceu no que é a sede da Fundação Calouste Gulbenkian, esteve em Entrecampos e regressará em Carnide

Quem hoje passeia pelos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dificilmente imaginará que foi ali que, a 10 de junho de 1943, se começou a escrever a história da Feira Popular de Lisboa. No mesmo ano em que o Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos EUA, foi inaugurado; o químico suíço Albert Hofmann deliberadamente experimentou pela primeira vez LSD, a droga que descobrira cinco meses anos e o mundo vivia o terror da Segunda Grande Guerra (1939-45), abriu na capital portuguesa o parque de diversões que, durante décadas, encantaria miúdos e graúdos de todo o país apenas com um objetivo: financiar a obra social do jornal O Século, iniciada em 1927, com a criação, em São Pedro do Estoril (Cascais), da sua já histórica Colónia Balnear Infantil.

Emanuel Martins preside hoje à Fundação O Século, constituída em 1998 para prosseguir a missão social da publicação extinta em 1977, e nasceu nove anos depois da inauguração do recinto na então Palhavã. Tinha apenas quatro quando este fechou para dar lugar à sede e aos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, mas ainda se lembra bem do que mais sentiu a falta quando, a 24 de junho de 1961, o parque de diversões reabriu em Entrecampos, onde se manteria até setembro de 2003.

"Era um sítio muito frondoso e tinha um túnel onde os barquinhos circulavam. Julgo que era o Túnel do Amor. Quando mudaram [de lugar] tiveram de acabar com os barquinhos, porque eram a gasolina", recorda ao DN o administrador que, à medida que foi ficando mais velho, foi passando a preferir os carrosséis, os carrinhos-de -choque e os simuladores. Só nunca chegou a apreciar as diversões mais vanguardistas, aquelas que por serem a alta -velocidade ou atingirem alturas impróprias até para quem não tem vertigens fazem explodir os níveis de adrenalina. "Não tive coragem", confessa, bem-disposto.

Passou já mais de uma semana desde que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, anunciou, sem adiantar a data de abertura e admitindo que se trata de "um projeto que se vai desenvolver ao longo de muitos anos", que a feira popular vai regressar à capital, em Carnide. Emanuel Martins não esclarece se a fundação a que preside irá participar na sua gestão nem esconde que se sentiu "ludibriado" pela forma como a entidade, que tem direitos sobre a feira popular, foi sendo esquecida ao longo dos últimos 12 anos (ver texto secundário), mas nem por isso deixa de falar com ternura do parque de diversões que permanece na memória de muitos lisboetas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

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