Cristãos vão ao circo para defender integração dos muçulmanos

"Europa precisa mais do que de economia", diz cardeal Walter Kasper. Em Munique fala-se de união por oposição ao brexit

As luzes do Circo Krone, em Munique (Alemanha) acendem-se e piscam, a arena está montada, a orquestra dá o tom, mas as acrobacias que se aplaudem são outras: depois da "tragédia" da II Guerra Mundial e de os antigos inimigos se terem transformado em amigos, é preciso continuar a mostrar que os 70 anos de paz na Europa não foram "sonho, mas realidade" e que "a economia é a base da vida mas não é o sentido da vida".

Foi o cardeal católico alemão Walter Kasper que, esta quinta-feira na abertura do congresso Juntos Pela Europa, que congrega dois mil participantes de uns 40 países, alertou: "A Europa precisa de mais do que de economia." Kasper tem sido uma das vozes que, na Igreja Católica, mais tem apoiado o Papa Francisco no seu desejo de reforma - por exemplo, na questão da integração dos divorciados na Igreja Católica. Uma Europa que integrou celtas, normandos e outros povos deve ser capaz, hoje, de integrar os muçulmanos, sublinhou Kasper, na sua curta intervenção na abertura do congresso. "Os problemas do mundo vêm ter connosco, e não são estatísticas, são pessoas com rosto", acrescentou.

Enquanto cristãos, católicos ou evangélicos, temos de mostrar que o amor é mais forte do que o ódio, para que seja possível vivermos em conjunto na Europa, sem medo", disse ainda o cardeal.
No início do congresso, que se prolonga até sábado foram várias as vozes a insistir na urgência de uma nova alma na construção europeia. "Depois do "brexit", da semana passada, não podia haver um melhor momento para dar um testemunho de unidade", disse Gerhard Proß, um dos responsáveis da iniciativa. "Depois do "brexit", o que devemos fazer a partir do Evangelho?" - perguntava o bispo luterano alemão, Heinrich Bedford-Strohm, que já presidiu ao Conselho Nacional das Igrejas Evangélicas (protestantes) da Alemanha.

"A Europa tem necessidade de uma nova força espiritual, porque não é só a economia que dá força" ao continente, acrescentou. "Devemos ser capazes de continuar a colocar no centro a dignidade da pessoa humana e é por isso que devemos continuar a falar de refugiados", acrescentou.
A presidente do Movimento dos Focolares, Maria Voce, acrescentava, na conferência de imprensa de apresentação da iniciativa: "A tendência para o aumento dos nacionalismos e do racismo são fruto de uma Europa que esqueceu os seus valores". Por isso, acrescentou, é importante os cristãos darem testemunho desses valores.

O Juntos pela Europa é uma rede nascida em 1999, que junta cerca de 300 movimentos e comunidades cristãs de todo o continente, pertencestes às Igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana e também às diferentes Igrejas protestantes.

Neste congresso de Munique, participam duas centenas de movimentos e grupos. A rede Juntos Pela Europa organizou já iniciativas em várias cidades europeias, incluindo Bruxelas, onde decorreu, em 2012, um diálogo com políticos europeus.

Para os políticos e as igrejas cristãs foi outro dos recados do cardeal Kasper. "A unidade da Igreja é mais importante ainda, num momento em que a unidade da Europa está em perigo", disse, ao referir-se também ao referendo da semana passada, no Reino Unido. "Não é possível que os nacionalismos construam novos muros; quem destrói as pontes destrói a paz", referiu o cardeal alemão, que citou depois o Papa Francisco: "A Europa é uma construção em progresso."
O congresso de Munique faz também referência ao início da Reforma de Lutero, em 1517. "Quinhentos anos de separação já são demais", dizem vários documentos da iniciativa e repetem muitos dos seus intervenientes. Mesmo se, com os ortodoxos, a divisão tem quase mil anos, já que o Cisma do Oriente, a primeira grande divisão da cristandade, se deu em 1054.

No século XVI, a divisão da Igreja deu visibilidade a um deficiente testemunho do evangelho, disse ainda Gerhard Proß. Por isso, hoje, se torna urgente os cristãos serem capazes de dar sinal de unidade, na diversidade. O congresso termina amanhã com uma manifestação pública, que inclui música e intervenções de responsáveis de igrejas, no centro de Munique.

Jornalista do religionline.blogspot.pt

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