Contracetivo masculino já foi testado em macacos e está mais perto de chegar

Para as mulheres existem 18 métodos de contraceção, para os homens apenas dois. Teresa Bombas, ginecologista e obstetra, diz que também por uma questão de igualdade de género é necessário dar mais opções ao sexo masculino

Chama-se Vasalgel, é injetável e bloqueia o canal por onde os espermatozoides passam para chegar ao pénis. Testado com sucesso em macacos, o contracetivo masculino poderá ser uma alternativa à vasectomia, com a vantagem de, ao que tudo indica, o processo ser mais fácil de reverter. Depois de décadas sem grandes avanços no que diz respeito aos contracetivos masculinos - só existe o preservativo e a vasectomia -, os cientistas preveem que os testes em humanos possam avançar dentro de pouco tempo.

De acordo com o artigo científico publicado na Basic and Clinical Andrology, o gel é injetado nos canais deferentes que levam os espermatozoides até ao pénis, bloqueando a sua passagem. Um procedimento semelhante ao que ocorre na vasectomia, mas cuja reversão parece ser mais fácil. Nos primeiros testes, feitos em coelhos, uma injeção nos mesmos canais foi capaz de anular o efeito do gel. Resta saber, no entanto, se também é possível a reversão em macacos e humanos. Segundo os investigadores da Universidade da Califórnia e da Fundação Parsemus, o gel pode funcionar por um período até dez anos.

Enquanto para as mulheres existem várias opções - pílula, dispositivo intrauterino, adesivo, anel vaginal, entre outras -, o preservativo e a vasectomia são as únicas formas de contraceção masculina. "Aumentar o leque de escolha é vantajoso, porque conseguimos chegar a mais pessoas. Quanto mais opções houver, melhor", frisa Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção. Ao dar mais alternativas aos homens, há uma "tentativa de equilibrar as escolhas e sobretudo de dar uma igualdade de género".

Até agora, a oferta que tem surgido é fundamentalmente feminina, porque, segundo Teresa Bombas, "tem sido difícil encontrar contracetivos masculinos eficazes e sem grandes efeitos adversos". Relativamente à contraceção feminina, a masculina "é mais difícil, porque requer um bloqueio hormonal, com efeitos secundários a vários níveis".

Ao DN, a presidente da SPDC indica que os estudos feitos sobre este tema revelam que, se existissem alternativas de contraceção masculina, nomeadamente hormonais, a mulheres confiavam nos homens para a contraceção, "sobretudo nas relações monogâmicas". Os homens também são recetivos ao uso de novos métodos, adianta, desde que sejam eficazes, seguros e reversíveis.
Em Portugal, um estudo realizado em 2015 mostrou que "a prevalência de uso de preservativo isolado é de 14% e o seu uso associado a outro método é de 8%". E apenas 0,5% da população masculina recorre à vasectomia. Este método, explica, tem a desvantagem de ser irreversível e não ser imediato.

Sucesso em macacos

As injeções de Vasalgel foram aplicadas a 16 macacos, dez dos quais já tinham sido pais. Os animais foram depois colocados com fêmeas, cuja fertilidade estava comprovada, e, apesar de terem tido relações sexuais - o teste inclui duas épocas de reprodução completas -, nenhuma das fêmeas engravidou. Foram registados alguns efeitos adversos, mas a maioria eram muito semelhantes aos que ocorrem quando são feitas vasectomias. Se os testes em humanos tiverem resultados semelhantes e for possível obter financiamento, a Fundação Parsemus, organização sem fins lucrativos que financiou a investigação, acredita que o Vasalgel possa chegar ao mercado dentro de alguns anos.

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