Com união e diversão: assim se faz uma Queima das Fitas

Últimos dias foram de azáfama em Coimbra. Organizador e grupos dos carros alegóricos explicam como se monta a festa

No final de contas - milhões de flores de papel, milhares de latas de cerveja, meses de trabalho de equipa e outras tantas horas de diversão -, o saldo é bem positivo. "É extremamente gratificante quando vemos toda a gente a desfrutar da festa", confessa Luís Lobo, secretário--geral da comissão organizadora da Queima das Fitas de Coimbra, com o mesmo sorriso com que o dizem todos os universitários que, por estes dias, se afadigam na preparação dos carros alegóricos do cortejo, que é o ponto alto do evento. Para todos eles, a semana mais importante do ano está mesmo a começar.

A Queima das Fitas de Coimbra arrancou esta madrugada, com a Serenata Monumental, e prolonga-se até 12 de maio. Para trás, ficaram meses de preparativos dos estudantes grelados (que estão no penúltimo ano do curso e vão no carro do cortejo de domingo) e da comissão organizadora, encabeçada por Luís Lobo. São eles que contam ao DN como se faz a festa estudantil mais emblemática do país.

Luís Lobo, de 27 anos e licenciado em Gestão, cumpre o segundo ano de mandato como secretário--geral (um cargo remunerado): foi ele a fazer "os primeiros contactos burocráticos" da Queima das Fitas 2017, antes da eleição dos restantes membros da comissão organizadora, em novembro. A partir daí, começou a ganhar forma um evento multidisciplinar, com muitas atividades culturais e desportivas, mas conhecido pelo cortejo e pelas Noites do Parque, o quase-festival de verão, que é o epicentro da festa (e onde se esperam 140 mil visitas).

"A Queima das Fitas é um evento que quase se organiza em piloto automático quando se tem experiência", diz Luís Lobo. Selados todos os contratos, os últimos dias foram de "trabalho logístico, na preparação das infraestruturas do recinto" e na resolução dos derradeiros "pormenores de licenciamento", descreve. O fruto do labor dele e de cerca de cem voluntários, em 27 áreas distintas, está prestes a materializar-se.

Ao mesmo tempo, ganham cores garridas, formas arrojadas e carregamentos massivos de comida e bebida os 101 carros alegóricos do cortejo, que representam grupos de grelados de todas as instituições de ensino superior da cidade. Como os colegas da organização da Queima das Fitas, também eles se agitam, nos preparativos finais dos veículos que animam o desfile, da Praça D. Dinis ao Largo da Portagem.

Para eles, os últimos dias foram passados a encaixar flores de papel na rede fina que envolve os veículos pesados convertidos em carros alegóricos, a completar as figuras de tom humorístico que os encimam e a garantir que nada falta na hora de descer pelas principais ruas de Coimbra. "O mais importante agora é acabar de meter as flores e completar a estrutura do carro, que tem umas mãos e um microfone à frente. A nossa comissão chama-se Fome de microfone e pretendemos satirizar o facto de haver gente que está disposta a tudo para ter o seu momento de fama", descreve Ana Domingues, do curso de Comunicação Social, da Escola Superior de Educação de Coimbra.

O conceito e o resumo dos meses de trabalho até ao cortejo é semelhante ao que Jéssica Saramago, do carro ambienta-te n"ESTES (da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra), Mariana Felício, do (o)Pinemos (da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, UC) e Ricardo Branco, do FDUC-me, i"m famous (da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra) fazem ao DN. Todos passaram os últimos meses a fazer flores de papel (20 a 40 mil por carro) e andam há um ou dois anos a angariar dinheiro para erguer o veículo e enchê-lo de comida e bebida no dia do cortejo. Os orçamentos vão dos sete aos dez mil euros.

"Nós somos 16. Tínhamos reuniões todas as semanas, pagámos quotas mensais, fizemos convívios e piqueniques. Vendemos casacos, t-shirts, rifas, canetas, canecas e outros merchandisings alusivos ao curso. E recolhemos patrocínios nas nossas terras", diz Ana Domingues. "A nossa ajuda principal é a família, que é um pilar essencial neste trabalho. Eles também vão fazer parte desta festa. No dia do cortejo estão cá a comer e a beber connosco", acrescenta Jéssica Saramago.

A conversa é feita com a estudante de copo de cerveja na mão. No armazém, nos arredores de Coimbra, onde se juntam nove comissões de curso a trabalhar nos seus carros (visitado pelo DN no início da semana), já se vive um ambiente de pré-festa: há música ambiente, bebidas a circular e gargalhadas frequentes entre os grupos que juntam a finalizar os projetos. Tudo se faz com diversão e união. "Há gente que diz que é muito trabalho só para um dia de festa. Mas uma comissão de carro não trabalha só para aquele dia: serviu para fortalecermos amizades. Levamos muita coisa de todo este trabalho, garante Mariana Felício.

O mesmo diz Ricardo Branco, que traz nos genes a tradição coimbrã - o pai participou no primeiro cortejo do pós-25 de abril (em 1980). "O meu pai ainda não acredita que nós vamos ter litros e litros de cerveja em cima do carro. A comida é bastante, a bebida é demais até...", nota o estudante de Direito.

São números, como os do carro de Comunicação Social - "mais de 4500 latas de cerveja, 30 garrafas de bebida branca, três garrafões de vinho e seis de sangria, e comidas simples como bifanas, batatas fritas ou rissóis" -, capazes de abalar qualquer estômago e fígado, mesmo que muita da carga seja para partilhar com família, amigos e colegas de curso. No final de contas, o saldo é mesmo positivo. "Trabalhamos um ano para isto. Pode haver quem pense que é só gastar dinheiro, mandar cerveja e apanhar bebedeiras... mas para quem está em cima do carro é muito mais do que isso", conclui Ana Domingues

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