Cientistas do Porto procuram nova terapia para a doença de Alzheimer

Grupo de investigação do i3S está a testar uma proteína, mas ainda há muito trabalho pela frente

Um grupo de investigação do Porto está a criar novas terapias para o tratamento da doença de Alzheimer, através do estudo de uma proteína envolvida nesta patologia, que afeta aproximadamente 47 milhões de pessoas a nível mundial.

"A doença de Alzheimer resulta da degradação progressiva de um fragmento proteico - peptídeo abeta -, presente no organismo dos indivíduos, que os doentes com Alzheimer têm em concentrações demasiado elevadas, acumulando-se no cérebro", disse à Lusa Isabel Cardoso, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S).

Neste projeto, a equipa do i3S está a estudar a proteína Transtirretina (TTR), presente no sangue, no cérebro e na medula espinal, que tem uma ação protetora na doença de Alzheimer. Segundo a investigadora, esta proteína consegue capturar os fragmentos proteicos típicos na doença de Alzheimer e levá-los até ao fígado, onde são degradados e eliminados, evitando que se acumulem no cérebro.

"Em determinadas situações, a estabilidade da TTR está diminuída, ficando a função de limpeza dos fragmentos proteicos comprometida", diz Isabel Cardoso. Mas os investigadores perceberam que há formas de recuperar a estabilidade da proteína, com recurso a "pequenos compostos químicos que a ela se ligam" - anti-inflamatórios não esteróides -, recuperando, assim, a sua performance.

Para chegar a estes resultados, a equipa analisou a capacidade de memória e de aprendizagem de ratos transgénicos, e de dois grupos: um com animais com características típicas do Alzheimer, não tratados, e outro com portadores da doença, aos quais foi ministrado um composto químico.

Os animais foram colocados numa piscina com água transparente e tinham de memorizar a localização de uma plataforma. Numa fase seguinte a água foi tornada turva, impedindo os animais de verem a plataforma, de forma a verificar o tempo que demoravam a encontrar a plataforma.

Os animais não tratados "nadavam na piscina e tinham dificuldade em lembrar-se onde estava a plataforma, andando às voltas imenso tempo, sem a conseguirem encontrar", referiu a investigadora.

Já os animais tratados com o composto químico conseguiam encontrar a plataforma.

Testes bioquímicos ao cérebro mostraram que, no caso dos ratos tratados, o peptídeo abeta estava diminuído comparativamente ao grupo não tratado, comprovando o efeito do composto químico.

Apesar destes avanços, Isabel Cardoso considera que é preciso ainda muita investigação para identificar quais dos compostos químicos estudados conseguem estabilizar a TTR e, em simultâneo, aumentar a sua interação com o péptido abeta.

A doença de Alzheimer é uma patologia progressiva e irreversível, que atinge o cérebro e caracteriza-se pela perda de memória e das capacidades de pensamento, afetando, atualmente, cerca de 47 milhões de pessoas.

Isabel Cardoso salientou que o maior fator de risco para o desenvolvimento da doença é a idade e, dado o aumento da esperança média de vida, o número de casos tem vindo a aumentar, constituindo um problema grave, que afeta os pacientes e as suas famílias.

A equipa recebeu recentemente um apoio de 37,5 mil euros, da Fundação Millennium bcp, que lhe permitirá, nos próximos 24 meses, aprofundar o seu trabalho.

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