Cavaleiro, Fénix, Lápis Mágico... como se criam os códigos policiais

São variadas as fontes de inspiração dos inspetores portugueses para designarem as investigações criminais. Não o admitem, mas este é um tema de discussão e de diversão

Operação Cavaleiro. Este foi o nome que a PJ chamou à investigação em que deteve Diogo Gaspar, o presidente do Museu da Presidência condecorado com o grau de cavaleiro. Operação Fénix quando a PSP desmantelou um gangue da noite que tinha sido desativado e reapareceu tal como a ave da mitologia grega que renasceu das cinzas. Operação Danúbio por a GNR intercetar um grupo romeno que assaltava casas no Alentejo. Já o SEF escolheu Livro Mágico para designar uma rede que conseguia a nacionalidade portuguesa para estrangeiros alegadamente nascidos nas ex-colónias da Índia com assentos e certificados de nascimento falsos.

São nomes que as polícias atribuíram às operações e que, em regra, se inspiram nas características dos arguidos, na origem das redes ou no tipo de crimes, dependendo da criatividade de quem chefia. Os batismos são feitos muito antes das investigações serem públicas, funcionando até como um nome de código interno para manter o sigilo.

Na PSP há predileção pela mitologia grega. A Operação Fénix decorreu entre 2014 e 2015 e envolveu a segurança de bares e discotecas, além de outros crimes. Dois anos antes, a PSP desmantelara um grupo que atuava nos mesmos moldes: a Operação Nix, a deusa da noite.

"A investigação criminal da PSP é relativamente recente, surgiu em 2000, e começámos a utilizar nomes em 2003", conta o comissário Nelson Ribeiro, na secção há 11 anos. "Normalmente, é escolhido tendo em conta o modus operandi dos suspeitos, algo que os caracteriza, para identificarmos as investigações mais complexas e que têm muitas diligências. E é uma forma de melhor passarmos a mensagem para o público." Prática comum a todas as autoridades policiais, incluindo a ASAE e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, não só para designar investigações criminais como ações de fiscalização e prevenção. Por exemplo, Operação Segura, da PSP, ou Operação Sénior, da GNR.

Mitologia como fonte de inspiração

Mas a mitologia grega não é um exclusivo da PSP. A GNR recorreu a Ártemis, a deusa da caça, para designar uma ação de fiscalização aos caçadores. E na Operação Medusa deteve suspeitos que se dedicavam ao furto de automóveis e os alteravam para venda no estrangeiro. Conta-se que Medusa transformava em pedra quem para ela olhasse diretamente. "O objetivo é identificar logo aquilo a que a investigação se refere, já que, por regra, envolve várias valências. No início de cada operação há um briefing sobre o que vai ser feito e aparece logo um nome", conta o capitão Ricardo Silva. E Aquiles, o herói grego que lutou na Guerra de Troia e cujo calcanhar era a parte frágil do corpo, designou a investigação da PJ em que detiveram elementos da PJ e da GNR, um tiro no seio das polícias.

Os códigos facilitam a comunicação e são compreendidos por quem investiga e pelo público em geral. É o caso da Operação Marquês, que envolve José Sócrates, aludindo à zona de Lisboa onde o ex-primeiro- -ministro tinha um apartamento. Aliás, a residência e origem dos suspeitos é um elemento importante para se batizarem as investigações.

A Operação Rota do Atlântico, que terminou em maio, deteve vários empresários, entre os quais José Veiga, por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais. E a Operação Matrioskas, também da PJ, investigou o dinheiro da transferência de jogadores russos para o União de Leiria. Aliás, o meio futebolístico é fértil na inspiração. A Operação Apito Dourado, um dos maiores escândalos de corrupção no futebol português, levou, há 12 anos, à detenção de 16 suspeitos entre dirigentes e árbitros de futebol. E a PSP chamou Operação Fair Play quando deteve elementos da claque benfiquista No Name Boys, por violência e tráfico.

Pedro Carmo, diretor nacional adjunto da PJ, justifica que as etiquetas são uma tradição e uma necessidade. "Em primeiro lugar, pode servir para preservar o arguido enquanto está a ser investigado. E, em segundo, por uma questão de facilidade. A partir do momento em que batizamos a operação, basta dizer o nome para se perceber do que se está a falar." É uma prática mais comum nos casos complexos.

A forma de atuação das organizações criminosas é importante. Eis algumas dessas operações da PJ: Mãozinhas de Ferro (carteiristas dos elétricos); Polvo (teia que atuava em casas de diversão noturna); Pontas Soltas (que surgiu na sequência do caso Polvo); Chicote (peça usada no furto de automóveis) e Dominó (rede de tráfico de droga que se foi denunciando à medida que foram descobertos suspeitos). Há ainda exemplos mais genéricos como Offline (burla informática internacional), Fundo Falso (fraude fiscal com recurso a faturas falsas), Top Secret (espionagem contra o Estado), Cartão Gift (contrafação de cartões de crédito). E o SEF desmantelou em maio uma rede de ladrões georgianos que cometiam os crimes à noite, na Operação Morcego.

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