Carlos Cruz: "Cada vez mais acho que há muita gente inocente presa"

Entrevistado na prisão da Carregueira, Carlos Cruz reitera a sua inocência, mas mostra um espírito positivo. "Estou bem"

"Livre". É como se define Carlos Cruz, na prisão da Carregueira desde 2010, após ter sido condenado a sete anos de prisão por dois crimes de abuso sexual de menores. O antigo apresentador de televisão mantém que está inocente, vítima de um enorme erro judicial - algo que, afirma, será evidente para "qualquer pessoa que leia o processo". Diz-se preparado para voltar a trabalhar mal saia da cadeia, entretanto passa o dia a dia no estabelecimento prisional a escrever livros, a ler e a estudar.

Numa altura em que se prepara para publicar uma autobiografia, "Uma Vida", Cruz foi entrevistado pelo programa Grande Entrevista, da RTP3. Utilizando uma expressão que o antigo apresentador utiliza no seu livro o jornalista Vítor Gonçalves começa por perguntar-lhe se ele se sente "lobo" ou cordeiro". "Acho que basicamente sou um cordeiro. Sou uma pessoa pacífica, não gosto de agredir os outros". Mas no processo Casa Pia "fui o cordeiro entre o silêncio dos cordeiros. Fui a vítima".

Tenho a certeza que há pessoas que não dormem tranquilamente por me terem feito aquilo que fizeram

Está assim lançado o mote para a argumentação de que está a ser vítima de uma enorme injustiça. "O erro judiciário existe. E quando acontece é protegido em todas as instâncias. As pessoas que leem o processo escrevem-me a pedir desculpa por terem pensado que eu era culpado", afirmou. E tem a certeza de que não é caso único: "Cada vez mais acho que há muita gente inocente presa".

Apontando todas as contradições que diz existirem no processo, Carlos Cruz justifica a sua condenação com o "pânico moral que este processo gerou na sociedade portuguesa que foi muito construído por uma certa comunicação social".

"Tenho a certeza que há pessoas que não dormem tranquilamente por me terem feito aquilo que fizeram", dirá depois, a encerrar a entrevista.

Mostrando-se bem adaptado à realidade da prisão, Carlos Cruz garante que tem com os outros detidos uma relação "ótima". "A cadeia não é um sítio onde se façam amizades. Criam-se empatias", descreve, contando que até há quem lhe peça ajuda para escrever cartas ou requerimentos, ou mesmo ler acórdãos. Quanto aos guardas prisionais, tem uma relação "tranquila. É uma relação de respeito". E garante que nunca foi vítima de violência ou discriminação por estar condenado por crimes de pedofilia.

É na grande solidão que encontramos a liberdade absoluta. Não tenho nada a pressionar-me. Na solidão, existo em absoluto

A experiência na cadeia, descreve em jeito de balanço, está a ser "altamente enriquecedora" - embora "demasiado longa": "Descobri que tenho uma enorme capacidade em aceitar a maldade dos outros; descobri que é na grande solidão que encontramos a liberdade absoluta. Não tenho nada a pressionar-me. Na solidão, existo em absoluto".

Por isso, até acha que "havia muita gente que devia passar por uma prisão durante um ano, seis meses, para perceber que a vida tem coisas muito boas".

Demonstra alguma revolta com o facto de lhe ter sido recusada por duas vezes a liberdade condicional, por não cumprir o requisito legal do arrependimento: "Não compro a minha liberdade com uma mentira. Se eu não cometi nenhum crime vou arrepender-me de quê?!"

A inocência dá-me uma tranquilidade muito boa. Durmo bem, brinco, jogo às cartas... Estou bem

Preparado para voltar ao trabalho quando sair da prisão - "tenho convites para trabalhar na área da comunicação" - certo é que vai continuar a escrever: "Tenho projetos para mais livros. Um sobre a minha experiência como entrevistador, que poderá ser útil para quem quer seguir essa carreira. Quero escrever uma peça de teatro..."

Tranquilo e "livre de espírito" - "o meu corpo está aqui, mas o meu espírito nunca está aqui. Penso muito e o pensamento é uma enorme libertação" - Cruz descreve-se de forma muito positiva: "A inocência dá-me uma tranquilidade muito boa. Durmo bem, brinco, jogo às cartas... Estou bem"

Leia abaixo os pontos altos da entrevista (ordem cronológica inversa - o início está no fim)

- "Tenho a certeza que há pessoas que não dormem tranquilamente por me terem feito aquilo que fizeram".

- "Tenho projetos para mais livros. Um sobre a minha experiência como entrevistador, que poderá ser útil para quem quer seguir essa carreira. Quero escrever uma peça de teatro. E tenho convites para trabalhar na área da comunicação"

- A experiência na cadeia está a ser "altamente enriquecedora. Mas havia muita gente que devia passar por uma prisão durante um ano, seis meses, para perceber que a vida tem coisas muito boas e que devemos participar na comunidade para criar uma vida melhor".

- Relativamente à possibilidade de fazer registo público dos condenados por crimes sexuais contra menores: "Acho que é perigoso. Temos a cultura da maledicência e do boato. Existindo essa lista, nada impede que alguém que viva no seu prédio diga 'Eu tenho um amigo que é polícia que diz que o Vítor Gonçalves é pedófilo'. A sua vida acabou nesse momento!"

- Olhando de dentro da prisão para o exterior, Cruz diz-se preocupado com a falta de solidariedade, os egoísmos das pessoas, "que é cada vez maior", a "fragilidade do sistema financeiro" e a incapacidade de fazer a reforma da justiça. Além da "ameaça do desemprego das novas gerações". E o que mais o entusiasma, lá fora? "Pouca coisa. Temos de virar uma esquina civilizacional ou isto implode. Se a maioria da riqueza está nas mãos de 10% das pessoas, como pode a economia crescer?"

- "Não interessa aos políticos os problemas das prisões", diz Cruz, raciocinando que o número máximo de eleitores com familiares ou próximos detidos serão "35 mil pessoas, todas não votam no mesmo partido" o que "não chega para eleger sequer um deputado".

- "Há vários tipos de organizações [sociais dentro da cadeia]: por etnias - ciganos, angolanos, cabo-verdianos... - por zonas do país - por exemplo, temos muitos açorianos aqui. Há alguns que passam anos sem terem visitas!"

- Carlos Cruz garante que nunca foi objeto de violência ou discriminação pelo facto de estar condenado por crime de abuso sexual de menores - "Há uma dúzia de reclusos que quando olham para mim desviam o olhar, mas já percebi que esses é timidez". E afirma que a sua "relação com os guardas prisionais é tranquila. É uma relação de respeito".

- Cruz afirma que não há casos de violência na cadeia da Carregueira. E que raramente se encontra com Manuel Abrantes ou Jorge Rito, os outros dois condenados do processo Casa Pia. Quando isso acontece, falam sobre o processo? "Raramente".

- "A cadeia não é um sítio onde se façam amizades. Criam-se empatias. A minha relação com os outros reclusos é ótima. Tratam-me por Sr. Carlos Cruz, eu trato-os pelo nome, há alguns que me pedem ajuda para escrever cartas... Alguns pedem-me para ler os acórdãos e cada vez estou mais convencido de que há muita gente inocente presa".

- "Uma pessoa que está dez anos presa, por exemplo, quando é posta em liberdade, vai para um mundo completamente estranho. E se não vai preparado para enfrentar esse desconhecido, corre o risco de voltar a cometer atos [criminosos]. A reincidência em Portugal é mais de 50%".

- Carlos Cruz diz que já não ouve o ruído do trancar a porta da cela. "Quando estive preso preventivamente fazia-me impressão e quando saí chegava a acordar a meio da noite com a sensação de que tinha ouvido. Agora já não ouço".

- "Os juízes defendem-se estendendo as penas, daí a sobrelotação das prisões. Na Alemanha, apenas 8% das penas são superiores a quatro anos e é um país que tem prisão perpétua". "Aliás, neste momento na Europa começa a discutir-se se vale a pena existir a prisão".

- "A lei permite uma largueza de interpretação que se a pessoa que a aplica não estiver educada [no sentido de a prisão ser a reinserção] isso não acontece". "Na Bélgica está-se a construir uma prisão que tem um telefone em cada cela. Na Noruega já permite o uso dos telemóveis. A visita é fundamental, é uma questão de afetos"

- "Eu gosto muito de mim. Para gostar dos outros é preciso gostar de mim. E quando se gosta de nós, está-se muito bem, está-se tranquilo. A inocência dá-me uma tranquilidade muito boa. Durmo bem, brinco, jogo às cartas... Estou bem"

- "As pessoas não lutam para ser as melhores, lutam para ser as maiores. Mas no fundo, tudo é efémero e tudo vai acabar numas palavras numa lápide, ou se calhar nem isso".

- "Descobri que tenho uma enorme capacidade em aceitar a maldade dos outros".

- "Descobri que é na grande solidão que encontramos a liberdade absoluta. Não tenho nada a pressionar-me. Na solidão, existo em absoluto".

- Carlos Cruz está numa cela com mais quatro pessoas - que vão mudando com o passar do tempo, "quando são postas em liberdade". "Cada um organiza o seu tempo, temos uma televisão comum, Somos uma democracia, vemos o que a maioria quer ver. Eles trabalham, eu é que normalmente fico na cela a estudar e a escrever".

- "Esta autobiografia e outro [livro] que estou a preparar, que é um estudo comparativo sobre a execução de penas nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, serve para dar sentido à minha passagem por aqui. Não faz sentido eu estar aqui, portanto eu tenho de encontrar um sentido para estar na Carregueira.

- "O meu dia a dia: como estou reformado não trabalho, portanto o tempo é todo meu. Vou uma vez por semana ao pátio, mas passo muito tempo a ler e a escrever. Ler e escrever, é isso. De vez em quando vejo um DVD que vem de casa"

- As ex-mulheres "sabem que é completamente impossível" Cruz ter cometido os crimes por que é condenado, afirma.

- "Acho que ambas [as filhas] interiorizaram a situação ao ponto de viver com normalidade. Elas sabem que eu estou inocente".

- A outra filha, Marta, mais velha, "entrou num processo de tentativa de fugir da realidade. Felizmente tomou consciência disso, foi para o Brasil" e fez lá a sua vida.

- Carlos Cruz conta que tentou explicar à filha Mariana o que lhe estava a acontecer desde que ela tinha 6 anos. "Hoje com 14 anos, ela está uma pessoa com a perfeita noção do que é a verdade e a mentira e com a capacidade de perceber o que as pessoas são capazes para fazer mal aos outros".

- "Não compro a minha liberdade com uma mentira. Se eu não cometi nenhum crime vou arrepender-me de quê?!"

- Carlos Cruz desmente que lhe tenha sido formalmente proposto um curso de reabilitação. "Mas se eu não cometi nenhum crime, sou culpado de quê?! Nunca tive apetência para esses tipos de comportamentos, especialmente com rapazes!"

- "Falta desconstruir o bluff ou a mentira que foi construída à minha volta. Qualquer estudante de direto lê o processo e percebe que eu sou inocente".

- "Tenho a certeza que há muita gente que pensa [que é culpado] até por uma questão de confiança na justiça. Porque de outra forma sentir-se-iam ameaçados. Mas há cada vez mais pessoas a acreditar que sou inocente".

- "Na abertura do ano escolar em Lisboa, numa universidade, na cadeira de introdução ao direito, um professor catedrático disse 'na justiça cometem-se muitos erros. Por exemplo, Carlos Cruz está condenado'"

- Cruz diz-se "livre de espírito". "O meu corpo está aqui, mas o meu espírito nunca está aqui. Penso muito e o pensamento é uma enorme libertação".

- "Sou condenado por uma convicção de uma 'ressonância da verdade' [como está escrito no acórdão]. Ora pelo princípio in dubio pro reo, eu teria de ser absolvido".

- Cruz aponta todas as contradições que diz existirem no processo. "É tudo ao contrário!" Justifica a sua condenação com o "pânico moral que este processo gerou na sociedade portuguesa que foi muito construído por uma certa comunicação social". E acha que isso aconteceu "em todas as instâncias".

- "O erro judiciário existe. E quando acontece é protegido em todas as instâncias. As pessoas que lêem o processo escrevem-me a pedir desculpa por terem pensado que eu era culpado".

- "Acho que basicamente sou um cordeiro. Sou uma pessoa pacífica, não gosto de agredir os outros", diz Cruz, questionado sobre a expressão que usa na sua autobiografia "estar entre lobos". No processo Casa Pia fui o cordeiro entre o silêncio dos cordeiros. Fui a vítima"

- Cruz começa por "deixar registada a grande tristeza pelo desaparecimento de Nicolau Breyner". Diz que não faz contas a quanto tempo lhe falta para terminar a pena. "Tenho um diário onde anoto os dias que aqui passo, vou em mil e tal dias"

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