Campo de férias sem ligações ao mundo. Mas onde as vidas se cruzam

Durante dez dias, numa quinta de Tomar, juntam-se 41 adolescentes de mundos distintos: os que vêm dos bairros sociais do Pragal e Peniche, os que frequentam os melhores colégios de Lisboa e de Braga. Todos ficam privados de eletricidade e o banho será no rio com sabão azul. Os Gambozinos foi criado há 21 anos pela Companhia de Jesus, o movimento jesuíta da Igreja Católica em Portugal. Os monitores falam numa transformação de vida dos jovens

"Posso atirar lama ao padre?" À pergunta, feita no meio de um jogo em que 40 adolescentes se fundem num terreiro que a água transformou em lama, Francisco Mota responde que "agora não" (está a falar ao DN), mas promete que já lá vai ter com eles, ao tão esperado banho do rio. É meio da tarde de terça-feira, este é o quarto dia do campo de férias Os Gambozinos, criado há 21 anos pela Companhia de Jesus, o movimento jesuíta da Igreja Católica em Portugal.

Estamos em Tomar, na Quinta da Granja, um espaço onde durante 10 dias, 41 adolescentes (de 13 e 14 anos) desligam da vida diária em que nasceram. E ali cruzam-se muitas vidas, muitos mundos: os que vêm dos bairros sociais do Pragal e Peniche, os que frequentam os melhores colégios de Lisboa e de Braga. Os que já viajaram pelo mundo e os que nunca foram de férias, embora todos se encontrem tantas vezes no mesmo registo, o digital. Os equipamentos ficaram lá fora, em casa, à guarda dos pais. Ali não há sequer eletricidade, nem banhos quentes.

Quando chegamos ao campo é hora "da sorna", aquele tempo em que cada um pode fazer o que quiser menos dormir na tenda. Aos poucos, os Gambozinos juntam-se num círculo, sentados em bancos compridos feitos de tábuas e assentes em tijolos. Levantaram-se cedo, como todos os dias, começaram pelo pequeno-almoço, depois pela primeira atividade do dia, a que chamam BDS (Bom Dia Senhor). É preciso não esquecer que este é um campo católico e, como tal, tudo tem a marca da religião, mesmo que de forma discreta. Nessa altura a oração descamba muitas vezes em conversas sobre a generosidade ou outros valores cristãos.

"Fazemos tudo para a glória a Deus. Desde as coisas mais pequeninas, como preparar o pequeno-almoço, a ir ao banho", explica o padre Francisco. Depois há sempre um jogo, ainda durante a manhã. E um banho de rio, antes do almoço preparado por "uma mamã e algumas tias". Na verdade são monitoras, que o campo designa assim, e que integram o grupo de 16, dirigido por Gonçalo Mina. É um rapaz de 24 anos, gestor de profissão, que descobriu os campos de férias quando tinha a idade daqueles adolescentes. Conta com o apoio do padre Francisco ao longo destes dias intensos, e enquanto espera que ele regresse de Lisboa vai ensaiando com o grupo uma melhor afinação do hino do campo. Muitos deles tocam viola, jambé ou oboé, e ajudam na cantiga.

À volta, as tendas azuis atestam a letra do hino. Mais recuadas, as latrinas corroboram esse modo básico de viver, em que os banhos se fazem no rio, com sabão azul. Nos campos de férias promovidos pelos jesuítas em Portugal há sempre dois requisitos a cumprir: sombra e água. Desta vez a escolha recaiu sobre a quinta de Tomar, onde as águas do rio Nabão se revelaram preciosas para os dias de muito calor.

Alex veio de Peniche, faz 14 anos em setembro, vai para o 9.º ano, e quando for grande quer ser biólogo ou fuzileiro. Este é o quarto ano em que participa no campo d"Os Gambozinos, que já conhecia de tanto ouvir os tios falar. "Está a ser muito fixe. Já conhecia aqui alguns rapazes que também estiveram comigo nos outros anos, mas gosto sempre de conhecer pessoas novas e dos jogos que fazemos", conta ao DN. Mas nem sempre é assim, logo de início. Num tempo em que tudo é digital, há crianças que chegam a entrar numa espécie de ressaca dos jogos online, da informática e das redes sociais. "Nestes campos estão miúdos que ficam acordados todas as noites até às 4 da manhã, a jogar PlayStation, acordam à 1 da tarde para jogar outra vez", sublinha o padre Francisco Mota. "Quando eu era miúdo era impensável estar num campo destes e dizer que não queria fazer um jogo. Mas hoje há uma espécie de transição para a vida aqui no campo." E naquele dia o jogo da lama assume um papel importante. A partir dali acabam-se os pruridos em andar sujo, por exemplo. E brincar ao ar livre passa a ser tão comum como deveria, ainda nesta idade.

"Uma coisa que penso é que temos oportunidade de fazer aqui com eles aquilo que os professores não têm. Passam 200 dias por ano com estes miúdos, dentro de uma sala, em sítios onde se geram ondas de indisciplina muito difíceis de quebrar. O tipo de relação e respeito que se cria aqui entre animadores e estes miúdos é impressionante. Somos mais do que um amigo mas menos do que um pai ou uma mãe. Temos aqui a oportunidade de contribuir para a educação deles com uma força enorme. Começamos a ver agora os primeiros filhos de alguns que já foram gambozinos e o impacto é enorme", acrescenta o padre Francisco.

Os gémeos Alice e José Burguete estão também entre os repetentes do campo. Estudam ambos no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, ele quer ser gestor de carreira de jogadores de futebol, ela designer de moda. Discordam em quase tudo, menos nas opiniões sobre o campo de férias. "Por mim ficava cá a vida toda", diz Alice, enquanto seca a pele arrepiada pela água fria do Nabão. O mesmo acontece com Cátia, que veio do Pragal. Às vezes tem saudades de casa e dos pais, mas nada que não supere entre um banho e um jogo qualquer.

"Mina, já podemos ir?", quer saber João Macieira, aluno do externato Paulo VI, em Braga. É quem nos conta das partidas que se fazem entre gambozinos, especialmente na última noite. A próxima atividade é uma missa, que acontece todos os dias, ao final da tarde. A capela é imaginária, há apenas um tronco que serve de altar. Depois janta-se (cedo), há espaço para uma ou outra atividade. Gonçalo Mina garante que os dez dias passam a correr, mas lembra que - também nesse aspeto - os Gambozinos são um campo diferente: "Temos uma presença constante e regular no dia-a-dia destes miúdos."

O campo é um "elemento de transformação da vida destes miúdos", acrescenta o padre Francisco, padre há um ano, regressado de Boston há um mês. No próximo ano vai trabalhar num centro cultural que os jesuítas vão abrir em Lisboa, ele que foi um dos primeiros gambozinos e descobriu ali a vocação. Era um "betinho do Estoril" e ficou marcado para sempre. "Percebi que, para mim e para o meu futuro, era irrelevante saber de onde é que os meus amigos vêm, de onde são, o que fazem os pais."

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