Bertalan Mesko: "As apps vão dizer-nos o que devemos comer"

Bertalan Mesko, o médico futurista, vai falar hoje sobre o futuro da alimentação na Conferência Portugal Saudável, organizada pela Missão Continente, na Fundação Oriente. Ao DN, diz que a tecnologia já está a mudar a forma como nos alimentamos, podendo contribuir para escolhas mais saudáveis através de leitores de alimentos, robôs de conversação ou utensílios inteligentes. E isto "não leva necessariamente à perda de contacto entre as pessoas".

Vem a Portugal falar sobre a alimentação do futuro. O que podemos esperar da sua intervenção?

Vou falar sobre como as tecnologias do futuro irão afetar a forma como comemos e como devemos comer. O discurso dominante irá focar os aspetos sociais de comer num mundo excessivamente tecnológico.

Como é que a tecnologia está a alterar a forma como comemos?

Os leitores de alimentos conseguem dizer-nos o que comemos. A nutrigenómica usa os nossos dados genómicos para nos dizer qual a comida mais apropriada a cada um de nós. As apps para smartphones e os "chatbots" [robôs de conversação] permitem-nos encontrar as melhores alturas e formas para comer. Os utensílios inteligentes podem ajudar as pessoas com limitações a comer como qualquer outra pessoa. A lista é muito longa.

Como é que estas tecnologias funcionam?

Os leitores de alimentos serão capazes de nos dizer quantos gramas de açúcar uma peça de fruta contém, ou qual a percentagem de álcool que uma bebida tem. A empresa Canadian TellSpec tenciona desenvolver um leitor de alimentos portátil que dê informação específica aos utilizadores sobre os ingredientes e os macronutrientes de um alimento. Um outro aparelho, o SCiO, produzido em Israel, usa uma tecnologia semelhante à do TellSpec, mas é desenhado para identificar o conteúdo molecular de alimentos, medicamentos ou até plantas. Ilumina o objeto; os sensores óticos detetam a luz refletida e o aparelho analisa o objeto, usando um algoritmo e uma base de dados em nuvem, que é constantemente atualizada. A ideia básica por trás da nutrigenómica consiste no facto de o nosso genoma revelar informação valiosa acerca das necessidades do nosso organismo, que devemos sinalizar e utilizar de forma a conseguirmos ter uma vida longa e saudável. Depois de sequenciar o ADN, uma app para smartphones poderá informar-nos qual a comida que devemos ingerir e a que devemos evitar a todo o custo. Como somos todos geneticamente diferentes, a nossa dieta deve ser personalizada.

Como é que a tecnologia pode ajudar a acabar com a subnutrição?

Soylent é um composto alimentar em pó para substituição de refeições, que misturado com a água contém os nutrientes necessários a um adulto médio. A empresa aconselha os consumidores a usá-lo como suplemento para as refeições tradicionais, até que encontrem o equilíbrio ideal entre o Soylent e a comida real. A empresa espera que o seu produto poupe tempo e esforço ao eliminar a necessidade de preparar todas as refeições. Isto poderia ajudar temporariamente as regiões onde a subnutrição é um assunto premente. Já o projeto "Cultured Beef" tem como objetivo criar carne artificial em laboratório. Os técnicos removem células do músculo da parte superior do membro anterior da vaca, alimentam as células com uma mistura de nutrientes numa placa de Petri e estas crescem no tecido do músculo. Poucas células iniciais poderão dar origens a toneladas de carne. O mundo inteiro pode ser alimentado com carne de células do músculo criada em laboratório.

Que impacto é que poderá ter na luta contra a obesidade?

A obesidade pode ser controlada com a ajuda de leitores de alimentos, informação nutrigenética e "chatbots", que nos motivam a uma dieta e estilo de vida melhores. Existem também muitas outras tecnologias neste sentido. É extremamente desafiante manter uma dieta saudável, portanto as pessoas irão encontrar a motivação de onde quer que ela venha. Há quem use redes sociais, chatbots ou sensores para medir dados acerca do seu estilo de vida.

Considera que há o risco de se perder a socialização à mesa?

Sim, o risco claramente existe. No entanto, no meu discurso, tentarei defender a ideia de que com mais tecnologias vão surgir melhores dietas, o que não leva necessariamente à perda de contacto entre as pessoas. Depende de nós.

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