"Até podemos viver no centro de Lisboa, mas tem de ser num hostel"

Cidadãos e associações fazem apelo a entidades para fixar pessoas na capital. Câmara vai abrir o Programa de renda Acessível

Luís Mourato tem 20 anos, todos passados na Mouraria. Dos amigos de infância já nenhum ali mora: "Uns saíram por opção, outros porque os prédios onde viviam foram para obras ou vendidos." Agora é a sua vez. A mãe, Elvira, foi informada pelo senhorio de que este queria vender a casa. "Ele disse que tinha sido avaliada em 150 mil euros, se nós queríamos comprar. Não temos dinheiro para isso, mas agora também já não temos dinheiro para alugar aqui na zona. As rendas antes eram de 400 euros por um T2 e agora pedem por um T1 980 euros", descreve Elvira. Por viver no mesmo sítio há 25 anos tinha não só o direito de preferência pela compra do apartamento como uma indemnização, no caso de querer deixar a casa.

Luís, Elvira e o marido vão sair da zona. "Até podemos viver no centro, mas tem de ser num hostel", critica Luís. A sua família é apenas o último exemplo, sublinha Teresa Fernandes, moradora há 42 anos na Mouraria. "Já não temos bairro, temos dormitório e de estrangeiros", critica. Em linha com estas críticas foi lançada a petição Morar em Lisboa - Carta Aberta, de que são signatários a Academia Cidadã, várias associações de moradores e inquilinos da cidade, o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), arquitetos, geógrafos e sociólogos. Ontem, às 20.00, a petição já tinha 2683 assinaturas.

Os signatários fizeram pedidos de audição ao Parlamento e à Câmara Municipal, mas "ainda passou pouco tempo e não tivemos resposta", esclarece João Labrincha, da Academia Cidadã. Segundo o responsável da associação cívica, "há pessoas que vivem no centro histórico que estão a ser ameaçadas para que saiam das suas casas, vivem expostas". "Queremos denunciar a forma como tudo está a ser feito. Por vezes, até de forma desregulada. A lei é permissiva para os proprietários e os arrendatários não têm capacidade para fazer valer os seus direitos."

Câmara quer mudança na lei

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) explica ao DN que tem dado apoio às lojas históricas - com o programa de certificação - e que "tem pressionado a Assembleia da República para alterar a lei das rendas". Em relação aos moradores particulares, a autarquia anunciou para "as próximas semanas" o lançamento dos primeiros concursos do Programa de Renda Acessível. Esta iniciativa vai ser de-senvolvida em 15 locais, abrangendo "entre cinco e sete mil fogos de tipologias T0, T1 e T2 e com rendas entre os 250 e os 450 euros, muito abaixo dos valores praticados pelo mercado".

Nada como o que descreve Dora Rodrigues, da Leitaria das Andorinhas, na Mouraria. "Em vez de puxarem as pessoas novas para viverem aqui no bairro pedem 800 euros por uma casa antiga sem condições e, se for para vender, há aí casas com uma assoalhada à venda por 200 mil euros." O marido, José Rodrigues, ainda tem esperança de que a situação mude: "Não somos diferentes de outras capitais europeias e precisamos do turismo, mas aconteceu tudo muito rápido e deu cabo do espírito de bairro."

A mesma queixa faz Teresa que, apesar de se sentir cada vez mais sozinha no bairro, não desiste. "Sou proprietária da minha casa e de lá ninguém me tira, por isso é que vivo cá há 42 anos. Quem vivia nas casas arrendadas teve de se ir embora, pela pressão de aumentar as rendas e a venda dos prédios", diz a moradora. Lamenta que os filhos não encontrem casas para morar também no bairro que os viu nascer.

O alojamento local está a tomar conta de todos os espaços, dizem. "Havia aqui um cafezinho e até esse espaço passou a ser usado para alojamento. Era uma coisa pequena, de esquina, deve ter uma cama e pouco mais", refere José Rodrigues. O comerciante acrescenta que os turistas vão passar a cruzar-se com outros turistas até que deixam de vir.

O mesmo receio têm os autores da petição. "Estamos a assistir à transformação de Lisboa num parque temático, sem habitantes. Os turistas querem ver a vida local, perdendo-se essa autenticidade, perde-se a vontade de os turistas virem para cá. É mau para toda a gente", sublinha João Labrincha.

Carlos Silva perdeu os clientes portugueses e ganhou os estrangeiros no restaurante A Mourisca, na Graça. "Gostava que viessem mais portugueses, mas quem aqui para são os turistas", diz o dono do restaurante aberto desde 1975. E as obras não vão facilitar: "Estão a alargar os passeios e a tirar estacionamento, assim não vem cá ninguém", queixa-se.

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