As marcas que o fogo deixou a quem esteve na retaguarda

Militares, bombeiros e psicólogos estão a ajudar as populações afetadas

Quem esteve envolvido no combate aos incêndios conta o que viu e como a experiência os mudou.

O combate aos fogos que durante cinco dias (entre sábado 17 e quarta-feira 21) atingiram Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera envolveu dezenas de pessoas além dos bombeiros. O secretário de Estado da Administração Interna e três operacionais contam ao DN o que viveram e viram nestes dias

"Também temos afetos e sentimentos. Mortes deixam marcas"

Secretário de Estado do MAI tem 65 anos

Jorge Gomes foi o primeiro rosto do governo no local dos fogos que assolaram a zona centro. O secretário de Estado da Administração Interna chegou no sábado 17 pelas 20.30 a Figueiró dos Vinhos, duas horas depois estava em Pedrógão Grande, onde ficou até trocar de protagonismo com a ministra Constança Urbano de Sousa, deslocando-se, então, para o centro de operações de Góis. Depois do que viu o que mudaria? Respira fundo. "É difícil. A única coisa que interessa é fazer uma reflexão e analisar tudo o que aconteceu. E corrigir as coisas, se é que há alguma coisa a corrigir."

Estar no terreno é algo que considera "uma situação normal" desde que foi governador civil de Bragança, entre 2005 e 2011. "À época, era então ministro da Administração Interna o atual primeiro-ministro que sempre considerou, e bem, que o governador civil com a área da Proteção Civil tinha de estar no terreno. E, de facto, é importante apoiar a população e acompanhar os operacionais."

Agora prefere deixar reflexões sobre o que aconteceu para depois de uma avaliação, o que entende dever ser feito pela ministra. Fala sobre as emoções. "O que me surpreendeu foram as 64 vítimas mortais. É algo que nos preocupa muito, também temos afetos e sentimentos." "O que aconteceu na estrada nacional 236-1 foi chocante e marca as nossas vidas." Marcas que "vão sendo atenuadas". "São coisas que temos de encarar com todo o respeito e que com o tempo vão sendo ultrapassadas. Marcam a minha vida enquanto pessoa e enquanto governante."

"A malta sentiu que estava em combate e o inimigo era o fogo"

Porta-voz da Marinha tem 41 anos

O apoio da população As armas ficaram no Comando do Corpo de Fuzileiros, em Almada. Para Pedrógão Grande e Avelar seguiram 200 homens e material logístico de apoio à proteção civil. Não foi para isto que foram treinados, mas Pedro Coelho Dias, porta-voz da Marinha, disse ao DN que os camaradas entregaram-se à "missão de corpo e alma, vestindo o fato de soldado da paz".

A "malta", contou Pedro Coelho Dias com emoção, "sentiu que estava em combate e o inimigo era o fogo". Nos incêndios, o trabalho dos fuzileiros passou por fazer patrulhas pelos montes à procura de reacendimentos. Ao mesmo tempo, uma cozinha foi montada nos bombeiros de Pedrógão: "A estimativa inicial era fornecer cerca de 800 refeições/dia, acabamos por dar mais de duas mil."

Para o comandante, a melhor recompensa foram os pequenos gestos da população: "Em Avelar, um grupo de voluntários que distribuíam refeições faziam questão de que nos sentássemos com eles. Isto comove. Houve pessoas que apareceram no posto de comando a oferecer o que podiam: azeite, hortaliças", recordou. Pedro Coelho Dias considera que este teatro de operações pôs à prova os conhecimentos militares, "a sustentabilidade da força, a logística", uma experiência que os fuzileiros poderão levar para um eventual cenário de guerra. Além do Corpo de Fuzileiros, a Marinha deslocou psicólogos da Polícia Marítima que deram uma primeira resposta às populações. E, apesar de tanta entidade das respetivas diferenças, "a coordenação funcionou muito bem", concluiu.

"Ninguém consegue desligar. Também ajudámos operacionais"

Psicóloga do INEM tem 39 anos

Ao contrário do que se possa pensar, um psicólogo não tem uma capacidade de distanciamento total. Vive o acontecimento como um comum cidadão. "Ninguém consegue desligar, nós também temos a nossa empatia, afetividade, mas temos estratégias para conseguir equilibrar e fazer o nosso trabalho." Foi por detrás das imagens mais visíveis dos incêndios que Sónia Cunha, 39 anos, coordenou uma equipa de pessoas que, tal como os bombeiros, também combateram incêndios e fizeram o respetivo rescaldo. A responsável pela equipa de psicólogos do INEM, que assumiu a coordenação desta ajuda no terreno, contou ao DN ter sido necessário apoio em várias locais, quer a vítimas quer a profissionais.

É que não são só as vítimas de uma catástrofe que precisam de apoio psicológico. Os profissionais que estão nas operações de socorro, por muita segurança e determinação que as imagens possam transmitir, também quebram. "Sobretudo quando se sentem incapazes de não impedir uma tragédia", explicou, revelando que a equipa que coordenou nos concelhos afetados pelos fogos também teve de "ajudar os profissionais".

Como boa psicóloga, Sónia Cunha ainda não guardou nenhuma memória dos acontecimentos de Pedrógão Grande. Porque sabe "processar a informação". "Ainda é cedo para fazer esse processamento", disse ao DN, prometendo, porém, que tal será feito, até porque um psicólogo, por estranho que possa parecer, também tem emoções, ainda que não as queira partilhar.

"O que marcou mais foi a resposta do meu pessoal"

Paulo Santos (à frente) tem 50 anos

Desastre ferroviário de Alcafache, incêndio do Chiado, Timor após a ocupação. Em todos estes cenários esteve Paulo Santos, coordenador da Plataforma Regional de Emergência 2 (região centro). Também esteve nos incêndios que atingiram Pedrógão Grande, primeiro na sede, depois no terreno. Tragédias em relação às quais aprendeu a defender-se emocionalmente, mas que "deixam marcas".

A pior experiência "foram estes incêndios, no sentido em que fizeram mais vítimas mortais [64]", no entanto é Timor que leva com maior intensidade para a vida. Em Figueiró dos Vinhos, onde a Cruz Vermelha se responsabilizou pelo acolhimento às vítimas no gimnodesportivo e montou um posto médico avançado, fez o balanço desta semana. "O que mais me marcou, sinceramente, foi a disponibilidade do meu pessoal, a forma como responderam."

Paulo Santos, 50 anos, já cumpriu 32 ao serviço da Cruz Vermelha Portuguesa, para onde entrou "por engano." "Fui fazer um curso de socorrismo, deram-me uma farda e umas botas e fiquei." Às 18.30 de sábado 17 estava na sede, em Lisboa, quando soube do incêndio e passou a delinear as ações com o dirigente de Coimbra. "A inteirar-me da situação e a disponibilizar os meios."

Como é que esta semana lhe mudou a vida? "Não muda, temos de dar continuidade às coisas. Marca, é normal, são situações dramáticas, mas temos de lidar com estes incidentes. Dar sempre a melhor capacidade de resposta e continuar."

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