Artista ciborgue sente tremores de terra em tempo real...e dança-os

Bailarina espanhola Moon Ribas quis perceber os movimentos à sua volta de outra maneira e começou por usar sensores nos pulsos. Não lhe chegou, e colocou um implante cibernético na dobra do cotovelo, para sentir as vibrações do planeta

A espanhola Moon Ribas fascinou-se pelo movimento - é preciso dizer que é bailarina -, mas o que lhe chegava do mundo através dos muito humanos cinco sentidos não lhe bastava. Por isso, decidiu ampliar a própria perceção: implantou um magneto na dobra do cotovelo, que lhe transmite, graças a uma aplicação ligada à Internet, cada movimento no interior da Terra em tempo real e, depois, ao sabor dessas vibrações, ela dança.

Moon Ribas, 30 anos, diz de si própria que é uma artista ciborgue. Expressa em linguagem artística as novas perceções que ganhou do mundo - neste caso, do seu interior - através do novo sentido, que ganhou com o implante cibernético.

Na sua performance favorita, a bailarina está em palco... e espera que os estremecimentos do planeta se manifestem no seu cotovelo. Se não houver nenhum sismo, ela não se mexe. Mas a sua imobilidade nunca dura muito. "Não passam mais de dois minutos sem que em algum ponto do planeta haja um tremor de terra", explicou numa conferência TED, em Munique, em janeiro do ano passado.

A dança, portanto, está sempre garantida. Mas, neste ponto do seu desenvolvimento como pessoa, como artista e como ciborgue, Moon Ribas não se limita a transformar em dança os sobressaltos das falhas sísmicas e das placas tectónicas. Ela acredita que encontrou uma nova via para interpretar a natureza e, por isso, com o seu companheiro de ciborguismo - a palavra é dela - Neil Harbisson, que se fez implantar uma antena no crânio para poder sentir as cores (nasceu cego para elas), criou a Fundació Cyborg, para promover a investigação nesta área e aprofundar a arte cyborguista - a palavra não é dela.

Chegar aqui não foi imediato. Moon Ribas fez uma longa caminhada, antes de decidir tornar-se cyborg, e começou por abordagens menos radicais, usando sensores de movimento nos pulsos, e depois nas orelhas, para poder sentir os movimentos à sua volta de outra maneira.

Nessa fase, percorreu várias cidades europeias para mapear a velocidade média dos transeuntes e descobriu que os mais rápidos são os londrinos. Em Lisboa, onde também veio fazer medições, anda-se mais devagar. E mais devagar ainda, só no Vaticano, diz ela.

Medir a velocidade dos passantes há de tê-la divertido, mas ainda não era bem aquilo. O que ela queria mesmo era sentir no corpo os movimentos do interior da Terra. Não apenas os grandes sismos, mas cada pequeno estremecimento. Conseguiu, e diz que já aprendeu a viver com isso. Mas às vezes não pode evitar um grande sobressalto. Foi assim no mês passado, no terramoto do Equador. Nessa noite, confessa, acordou alarmada e, como se viu, não era caso para menos.

Ler mais