Aprender a ler mais cedo: a pressão do sucesso começa no pré-escolar

Pediatras defendem que não se deve forçar o desenvolvimento das crianças. Educadores dizem que seguem o ritmo de cada um. Sair do pré-escolar a ler não é uma meta, asseguram, mas estudo americano indica o contrário

Tal como brincar, pintar ou cantar, a leitura tem um papel cada vez mais importante no pré-escolar. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Virgínia, nos EUA, que comparou as mudanças entre 1998 e 2010, a percentagem de educadores que esperam que os alunos que vão para o primeiro ciclo saibam ler subiu de 30% para 80%. A mesma pesquisa diz que gastam cada vez mais tempo com fichas de exercícios e cada vez menos com música e arte. Por cá, os três pediatras ouvidos pelo DN dizem que também há uma tendência para a sobrecarga das crianças no pré-escolar, quer por pressão da escola quer dos pais, o que não tem qualquer benefício para os mais novos.

De acordo com o estudo "O jardim-de-infância é o novo primeiro ano?", citado pela revista The Atlantic, aquilo que se esperava das crianças de 6 anos é hoje pedido às mais jovens. Tal como nos EUA, em Portugal o pré-escolar também mudou, tornando-se mais exigente. Para tal, explica o pediatra Mário Cordeiro, contribuiu "a ciência pediátrica, educativa e psicológica, e também a neurofisiologia", mas também existem razões "menos boas" para a mudança. Segundo o pediatra, "é querer fazer das crianças "cavalos de corrida" a partir de idades muito precoces, "querendo forçar conceitos abstratos e simbólicos cedo de mais e a aquisição de competências que não são adequadas à maioria dessa idade". Com base nisso está "a pressão dos pais e um certo show off das escolas (que prometem aulas de inglês aos 2 anos ou mandarim aos 3, por exemplo), impedindo muitas crianças de... serem crianças".

Essa é também a opinião da pediatra Júlia Guimarães. "Isto também acontece em Portugal, sobretudo no ensino particular. E é uma tendência perfeitamente errada." Antes do ingresso no 1º. ciclo, "não se deve academizar". Os educadores "devem estimular as crianças, através da arte, da música, das brincadeiras e atividades orientadas", mas o início da leitura e da escrita "deve ficar para o 1º ano". Na opinião do pediatra Hugo Rodrigues, "é notório que, cada vez mais, o pré-escolar tenta investir na escolarização das crianças, o que é um disparate". Se o 1º ciclo tem início aos 6 anos, "é porque é nessa idade que é suposto começaram a aprender". Mas, além da pressão da sociedade, "há demasiada competitividade entre os pais e as próprias escolas". Claro que, ressalva, "se a criança tem vontade de ir mais além, deve corresponder-se, mas sem impor".

Embora as crianças possam corresponder do ponto de vista cognitivo, Hugo Rodrigues lembra que "não têm maturidade para lidar com as diferenças relativamente aos outros meninos, nem com as diferenças nos métodos de ensino". Mário Cordeiro explica que "quando as exigências são disparatadas ou desfasadas relativamente ao que é capaz de dar, ou quando é intensivo e faz gastar tempo que poderia estar a ser usado noutras coisas, a criança vive ainda mais em stress, é menos feliz, sente-se pressionada e, mesmo que aprenda muitas coisas, terá mais hipóteses de se desinteressar".

Antes de receber o telefonema do DN, Mariana Miranda, educadora de infância há 34 anos, tinha estado a falar com a mãe de uma criança de 5 anos que já lê algumas palavras. Não é um caso único. "Quando chegam já trazem imensos saberes. Nós fazemos diagnóstico e conduzimos, introduzindo coisas novas", explica a coordenadora do pré-escolar do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Gaia. No entanto, "não existe pressão para que adquiram essas competências". Trabalham, sim, "para que desenvolvam o gosto pela leitura e pela escrita". Cristina Madureira, do jardim-de-infância do Centro Escolar de Cinfães, reforça que "não se espera que as crianças saiam do pré-escolar a ler ou a escrever". Cada uma tem o seu ritmo "e é com base nele que se trabalha". No 1º. ciclo "chegam facilmente à leitura e à escrita".

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?