Regresso às aulas deixa famílias a fazer contas o ano inteiro

Para os miúdos, setembro é o mês de ter coisas novas: mochilas, livros, roupa. Para os pais é quando gastam as poupanças feitas ao longo do ano

Ana Bela Ferreira
© Sara Matos / Global Imagens

Setembro é o mês dos pesadelos para os pais e dos sonhos para os filhos. Os mais novos sonham com as mochilas novas, os livros, os estojos, a roupa nova e mostrar isso tudo aos amigos na escola. Os pais têm pesadelos com o saldo final dos sonhos dos filhos. Contas feitas, em média as famílias gastaram este ano 455 euros com o regresso às aulas.

Os livros começam sempre por ser o mais preocupante, porque são obrigatórios e representam a maior despesa concentrada, para todos os anos, menos o 1.º ciclo. Nos primeiros quatro anos de escola, os pais gastam mais em material do que em livros: estes custam apenas em média 34,7 euros, com base nos dados da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros).

Uma fatura que sobe nos anos seguintes. No 2.º ciclo de 96,4 a 131,7 euros, no 3.º de 160,8 euro a 189,1 euros e no secundário é de 174,8 euros. Ora, estes números mostram que "os manuais não são a parte do bolo das despesas da educação que mais pesam no orçamento familiar. Temos a educação visual, a música, o desporto, as mochilas, os cadernos, as canetas e os compassos, que são necessários e exigidos pelas escolas que são mais significativas naquilo que é o orçamento familiar", aponta o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção.

Exigências feitas às famílias que, segundo o representante dos pais, deixa claro que "a Educação é tudo menos gratuita". "Há despesas durante o ano que se sobrepõem às dos manuais agora."

Jorge Ascenção considera, assim que, "embora a oferta dos manuais do primeiro ano seja bem-vinda, é preciso considerar que com as contenções orçamentais do governo e as das famílias, é necessário equacionar o que pode ser feito para que seja dada uma ajuda mais equitativa às famílias".

Em relação às despesas, Jorge Ascenção lembra que era importante que as famílias pudessem "mediante a apresentação das mesmas deduzi-las em sede de rendimentos" e que para quem precisa "de apoio que este seja alargado e considerado o rendimento per capita da família. Vamos ver se as Finanças conseguem fazer isto".

Os pais têm ainda algumas dificuldades em colocar no IRS as refeições escolar, por causa da natureza das empresas que fornecem as refeições, que não têm a identificação para deduzir em sede de IRS.

Os gastos das famílias no início do ano letivo voltaram a cair, depois de ter subido no ano passado (gastaram 530 euros). Do valor mais alto em três caiu, caiu para o mais baixo, segundo o Observatório Cetelem. Em 2013, os gastos chegaram aos 525 euros, em 2014, 509 euros e este ano ficaram-se pelos 455 euros. O vestuário (78%) e os artigos de desporto (55%) são as categorias onde mais dinheiro foi aplicado. Este ano, os pais optaram mais pelas papelarias (80%) em detrimento dos hipermercados.

Vou ficar com a mochila da mana que ainda está boa

De sorriso envergonhado, Beatriz fala do novo ano que aí vem. "Venho para a escola da mana e vou ficar com a mochila dela e o estojo que ela já não usava. Não está nada estragado, parece novo", diz, a filha mais nova de José Moura e Ana Monteiro. Beatriz vai frequentar o 5.º ano e mal pode esperar por conhecer todos os professores.

A irmã Mariana vai entrar no 9.º ano. É aluna do quadro de honra e o pai não podia estar mais babado. "A Mariana é uma excelente aluna, mas não é só isso, é uma aluna que me enche de orgulho", diz, enquanto explica à mais nova que está a elogiar a irmã, mas isso não quer dizer que ela também não seja boa aluna. Beatriz responde com um sorriso.

Beatriz e Mariana são alunas excelentes e o pai, José Moura, não poupa esforços para manter esses resultadosIvan Del Val/Global Imagens

O orgulho dos pais espelha-se nas despesas que têm para que as duas filhas, de 13 e 10 anos, tenham tudo o que precisam para ter sucesso escolar. "Andam no centro de estudos, não lhes falta nada que nós achamos necessário, a Marina está no Ténis e a Beatriz vai começar agora, além de frequentar o ensino articulado de música, no conservatório regional de Gaia. Toca flauta transversal", explica o pai Moura, como é conhecido de todos na escola E B 2,3 Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia, onde é o presidente da associação de pais.

O investimento começa logo nos manuais: "Estou a contar só em manuais e livros de exercícios 380, 400 euros." Para aliviar a fatura, a família conta com a ajuda da autarquia - "temos essa sorte. É pouco para quem recebe, que são 56 euros por criança, mas temos que reconhecer que já é muito para quem ajuda" - o resto da conta é paga com o IRS. "Quando vem já tem destino, é usado nestes desvios orçamentais."

Mas "numa família de rendimentos médios de que nós fazemos parte" - José é comercial de ourivesaria e a mulher é diretora de marketing - o início do ano escolar "tem um peso grande no orçamento". Lá em casa impera a regra de "não se compra nada que não se precise, apesar de tentarem vender o pacote todo". Por exemplo, "o inverno não começa agora e já nos estão a vender que é preciso comprar os casacos. A Mariana por acaso vai precisar porque o do ano passado já não serve, mas não precisa de comprar já. Depois a Beatriz vai ficando com as coisas da irmã que ainda estão boas. É claro que de vez em quando também tem uma ou outra coisa nova, mas por regra fica com as coisas boas que já não servem à mana". Pena é "que os livros não deem para a mais nova usar", lamenta o pai.

É o caso das canetas para pintar: "estivemos a experimentar e algumas já não funcionam. Se calhar vou ter de ficar com as da mana", diz Beatriz. "Os meus já são do 7.º ano também", responde a irmã.

Para já as manas têm os manuais - "gosto do cheiro dos livros novos", reconhece Mariana - que estiveram "a encadernar ontem [na quarta-feira]. Esta é a minha parte preferida", revela Beatriz. Compraram uma mochila nova para a Mariana, "os cadernos e as capas de micas, lápis e borrachas e mãe vai trazer canetas do seu trabalho".

A esta despesa, junta-se o centro de estudos que as duas frequentam todos os dias depois das aulas. "A carrinha vem buscá-las e elas estudam lá e fazem aí os trabalhos. Gastamos à volta de 300 euros por mês, mas é uma escolha. Sabemos que o centro é bom e permite-lhes fazer os trabalhos a horas. Em vez de estarmos a chegar a casa às oito, fazer o jantar, dar-lhes banho - "nós já tomamos banho sozinhas, pai", interrompe a Beatriz - é verdade, mas tomarem banho e jantar, quando acabava este ritual elas estavam a dormir. Daí que tenhamos optado por este sacrifício, permiti-nos ter algum tempo de qualidade com elas ao fim do dia".

Para ter as filhas nas atividades extra e comprar tudo o que é preciso, José e Ana abdicaram de coisas, "é evidente". "As férias são de uma semana, não de 15 dias. Antigamente chegava ao inverno e ia duas semanas para Cuba, para a República Dominicana, agora acabou, mas é uma escolha. É uma aposta nelas e tem compensado."

Organizar entrada na escola de duas alunas com o salário mínimo

Divovo António foi pai pela primeira vez há um ano e meio, mas há dois que é ele quem garante que as duas enteadas - Vanizia, de 19 anos, e Zinaid, de 16 - estudam em Portugal. As duas filhas da mulher, Catarina, vieram de São Tomé e Príncipe para estudar, mas "estão um pouco atrasadas para a idade. Estas coisas de mudar de país é sempre diferente", reconhece Divovo.

O jardineiro espera agora que as duas jovens tenham sucesso na escola e possam trabalhar depois de completar o 12.º ano. Esse é também o desejo de Vanizia que começou esta semana, o 10.º ano, no curso profissional de técnico de gestão de equipamento informático. "Ainda só conheci os professores e não sei se vou gostar das matérias, mas acho que sim, que vou gostar mais deste curso do que das aulas normais", antecipa a jovem de 19 anos. O gosto pelos computadores ajuda à motivação, isso e querer "trabalhar depois de acabar o curso".

Divovo apoia Vanizia, a enteada, que começou agora curso profissionalGonçalo Villaverde/Global Imagens

Em casa de Divovo os cinco viviam até há um mês com o seu salário mínimo de jardineiro na Tabaqueira Nacional. A mulher começou entretanto a trabalhar na restauração - "também recebe o salário mínimo" - mas ainda só recebeu meio mês. Ainda assim uma ajuda bem vinda: "Pagar a renda da casa, a água, luz, tudo, chego a meio do mês já estamos sem dinheiro. Este mês já foi um alívio."

O pior é que com a chegada das aulas, Divovo e a mulher ficaram sem a "ama" da bebé Elisabete (uma homenagem à mãe do angolano que vive há 18 anos em Portugal). "Era uma das miúdas que ficava com ela, agora que começam as aulas ficámos sem ajuda. As amas são muito caras e aqui na nossa zona não há creches", lamenta Divovo. Morador na Serra da Luz, as alternativas são o bairro Padre Cruz, onde a misericórdia tem a creche cheia, ou a casa da irmã de Catarina, na zona da Bela Vista, em Lisboa. "Não tenho carta e venho de transportes de Sintra, onde trabalho, para atravessar a cidade, ir buscar a bebé e voltar para casa".

O que Divovo não quer é que as enteadas desistam da escola. "Eu fiz aqui já a equivalência ao 12.º ano", conta. Para a escola fazemos mais sacrifícios, tem que ser". Mas este ano o antigo trabalhador da construção civil já está mais atento: "No ano passado, foi o primeiro ano delas cá, e fomos a correr ao Continente comprar tudo o que estava na lista. Este ano já só comprei os cadernos e algumas canetas. O dinheiro já não dava para mais, mas elas depois têm o subsídio na escola e vão ter os livros. Só quando souber o que vão ter é que vou comprar o resto."

Tirei férias para poder ir às compras na primeira semana de aulas

Durante quatro anos Catarina foi a única dos irmãos a andar na escola. Este ano vai partilhar a experiência com a estreante e entusiasmada Diana. Diogo, o irmão mais novo, ainda vai demorar uns anos até começar a estudar - tem apenas 19 meses - para alívio dos pais, Clara e Elias. Há dois meses para os quais o casal passa o ano a poupar: setembro, do regresso à aulas, e dezembro, para "dar um natal decente aos miúdos".

"Em setembro são os livros, a roupa, o calçado, os fatos de treino, o material, o cacifo da escola. Como é que se consegue? Não se faz férias. Aproveita-se a praia perto de casa e os fins de semana para passear um bocadinho mais longe, mas dentro do país", aponta Elias, assistente operacional da Câmara Municipal de Setúbal.

Elias e Clara satisfizeram a vontade às filhas e compraram mochilas novasGerardo Santos/Global Imagens

Clara ainda se lembra dos anos anteriores "em que era tudo mais fácil. Agora é tudo a dobrar, e as despesas também". Embora este ano tenha a sorte de ter os livros da filha mais nova oferecidos pelo Estado. "Ainda não sei como vai ser, porque a Diana vai ter a mesma professora da Catarina e sei que ela usa muito os livros e que vai querer que compremos os livros de fichas. Por isso não sei se vai ser assim uma poupança tão grande. Ainda para mais se são emprestados, se calhar no fim do ano ainda nos pedem o dinheiro dos manuais."

A assistente técnica no departamento de ambiente e energia da câmara de Setúbal já comprou os manuais da filha mais velha. "São 14, entre os livros da matéria e os de fichas. Gastámos 160 euros", explica. A essa despesa juntaram-se as mochilas novas que as duas pediram. "A Catarina já tinha uma mochila antiga, mas precisava de uma maior e agora também já não gosta do Frozen, nem da Violeta e aproveitámos para mudar", conta a mãe. Este ano vai para a escola com uma mais discreta mochila preta, com pequenas caveiras com flores: "Mas foi poupada porque só custou 16 euros e traz o estojo já lá dentro", sublinha a mãe.

Diferente é a irmã que "está na idade de gostar de tudo o que a Disney e o canal Panda lhe põe à frente", explica a mãe. Diana vai estrear-se nos estudos com um mochila azul e cor-de-rosa com as caras das irmãs Elsa e Ana do filme Frozen. "E tem luzinhas", diz, enquanto põe as mesmas a funcionar. Junta-se a este objetos, as lancheiras que "também têm de combinar", esclarece Clara, de 39 anos.

Diana está entusiasmada para conhecer a escola, não quer "é ter de fazer os trabalhos de casa". Coisa que já pediu à irmã - uma excelente aluna - para fazer por si. Mas a Catarina já avisou: "Se faço os trabalhos dela depois não consigo fazer os meus".

Aos pais cabe apenas abrir a carteira à medida que na escola vão pedindo coisas. "É triste que os manuais não deem para as duas. Elas têm quatro anos de diferença, vão ter a mesma professora e os manuais são diferentes. Não percebo", queixa-se a mãe.

É por isso que Elias acredita que Portugal não é um país amigo das "famílias numerosas de classe média. Nós trabalhamos, pagamos as nossas coisas e não temos ajuda nenhuma e quem não trabalha é que tem tudo de borla." É isso que os impede de terem mais filhos, já os dois preferem famílias grandes.

Clara fez o pedido para a ação social escolar, mas ainda não teve resposta. "O que me levou a comprar já os livros da Catarina. As aulas começam para a semana e não quis que ela começasse sem os livros". Ainda assim, Clara espera que as filhas tenham esse apoio, afinal "somos uma família numerosa".

Além dos livros, a mãe sabe que mais despesas se aproximam. "Até tirei a primeira semana delas de escola de férias. Já sei como é que é. Os paizinhos aflitos com uma lista de material na mão em frente à prateleiras nos hipermercados à procura das coisas que os professores pediram e a rezar para que haja tudo. Só para a Diana já estou a contar com 150 euros de material, porque é o primeiro ano e é preciso comprar tudo. A professora quer várias borrachas, vários lápis e canetas, cadernos, tudo para deixar lá no armário deles para irem usando ao longo do ano."

Para responder a isto tudo, o motorista de pesados e a administrativa tiveram "de fazer uma poupança, uma gestão melhor das despesas". É que ao longo do ano, "há o cacifo, os fatos de treino, os ténis, a roupa que deixa de servir, o cartão para comprar coisas lá na escola. E depois para alguma eventualidade", enumera Elias Chaves.

A estas despesas das manas mais velhas, junta-se a creche de Diogo (que também precisou de mochila nova) e as despesas correntes de água, luz, gás, e da prestação da casa.

Tudo o que me dão, eu aceito. Temos que poupar meses

Na casa de Adília e de Diamantino não é só o mês de setembro que é complicado, "é sempre". Pais de trigémeos - Filipe, Rodrigo e Gil, de 10 anos - passam "meses a economizar". Isto, "quando se consegue, porque temos os dois o ordenado mínimo e nem sempre dá para poupar. Mas nesta altura do ano é às poupanças que vamos", explica a mãe.

Filipe "tem um bocadinho mais de dificuldade e repetiu o 3.º ano, no ano passado", um contra tempo que vai permitir à família Fernandes gastar menos algum dinheiro no que à escola diz respeito. "Ele vai usar os livros dos irmãos, mas para os outros dois vou ter que comprar".

Os trigémeos são sinónimo de despesa a triplicar para a família FernandesHenriques da Cunha / Global Imagens

Adília, que faz "umas horas num restaurante", está a contar com alguma ajuda da ação social escolar, mas já sabe que vai ter de comprar alguns livros. "A madrinha do Filipe foi à biblioteca ver quais é que conseguia encontrar daqueles que não mudaram e tentei encomendar os outros pela internet para ver se ficava mais barato".

Apesar destes malabarismos, a família conta gastar "200 e tal euros". Mais o material, "que é tudo especial, como os professores querem" e as mochilas. Mais uma vez foi a madrinha de Filipe que ajudou os trigémeos: "Ela ofereceu o material entre o que tinha em casa e outras coisas que comprou".

A máxima lá em casa é "reutilizar. Tudo o que me dão, eu aceito. É ganho que temos". Isto porque, lembra a Adília, de 50 anos, "na primária era tudo mais barato, mas agora no ciclo "é preciso sapatilhas para a educação física, e são logo dois pares que tenho que comprar, depois precisam de fatos de treino e tenho que ver o serve dos que eles têm. É que são coisitas que exigem e não se lembram se as pessoas têm possibilidades ou não de poder comprar tudo".

É verdade que os manuais são a principal despesa e Adília conta ter aí alguma poupança, mas a juntar-se estas pequenas coisas, "tudo soma". E aí teve outra surpresa: "Perguntei no agrupamento e disseram-me que tenho de pagar o transporte. São só sete euros cada um, mas é sempre a somar". Ao salário que não é fixo de Adília, junta-se o ordenado mínimo de Diamantino, 48 anos, que trabalha numa fábrica.

"Não é só nos livros que as famílias gastam dinheiro, é tudo. As despesas de luz, gás e telefone, ao fim do mês não sobra quase nada. É recuperar de um mês para o outro e esperar que não haja despesas inesperadas."

Ajuda não terem que pagar prestação da casa. "O que vale é isso, temos casa própria. O único crédito que temos é o do carro e foi porque tivemos azar e o antigo ficou sem solução e tivemos que comprar outro, porque hoje em dia não se faz nada sem o carro."

Adília e Diamantino têm ainda a sorte dos filhos não serem muito exigentes. "Agora no ciclo as despesas vão ser maiores, mas eles são meninos que compreendem que não temos muitas posses e não pedem muito. Desde que não lhes falte a comida e o que é necessário para a escola e para o dia-a-dia deles já é muito bom e eles sabem isso", reconhece a mãe.

Da família, Adília conta com o apoio da madrinha de Filipe e de uma tia que "não dá dinheiro, mas nas férias ajuda a tomar com deles, e dá-lhes comida, o que já é uma grande ajuda".

Adília e Diamantino não têm mais filhos, mas como os três vieram juntos, as despesas concentraram-se mais, o que obriga a uma ginástica orçamental mais apertada. Afinal, quando é preciso alguma coisa, é tudo a triplicar lá em casa.