Praga de ratos nas Docas preocupa donos de bares e restaurantes

Roedores trepam paredes da marina e vêm às esplanadas procurar comida. Porto de Lisboa pôs caixas de engodo nas traseiras de restaurantes para evitar que entrem nas cozinhas

Carlos Rodrigues Lima
Quando o sol se põe, ratos sobem as paredes da marina à procura de comida tão à vontade quanto os pombos que ali se vê de dia © Sara Matos / Global Imagens

Circula na internet uma declaração do major Álvaro Campeão da Escola Prática de Infantaria de Mafra, na qual o militar pretendeu mitigar o mito das ratazanas no Convento de Mafra. De vez em quando, assegura, lá aparece um ou outro, mas sem a dimensão de praga. Passeando pelas Docas de Lisboa, finaliza o militar "vê-se mais". Mais um mito ou realidade? "É verdade, à noite eles sobem pela muralha que separa a doca da zona dos restaurantes à procura de comida", confirma um funcionário do Café da Ponte, enquanto prepara as mesas para o jantar.

Um passeio pelas Docas numa noite ainda quente de outono comprova-o. À medida que os restaurantes vão esvaziando, os ratos aparecem e vão-se aproximando dos estabelecimentos à procura de pequenos pedaços de comida caídos no chão. Mesmo com dezenas de pessoas por ali, a caminhos dos bares. "Já aconteceu em pleno serviço um funcionário ver um a passear por debaixo do deck " onde assentam as esplanadas. "Valeu a atenção e a discrição dele para evitar um incidente", conta um funcionário do Doca Peixe.

De acordo com os relatos recolhidos pelo DN, o problema está nos esgotos instalados na própria Doca de de Santo Amaro, que são um autêntico viveiro para os ratos. "Há muito que o Porto de Lisboa está a par da situação. De vez em quando aparece por aqui uma empresa, faz a desratização, mas eles voltam a aparecer."

Também um funcionário do Havana admite a presença dos roedores, contando até que isso já levou alguns proprietários dos espaços a instalar caixas de engodo por baixo dos decks das respetivas esplanadas, já que é aí que as ratazanas vão à procura de pedaços de comida.

Trata-se de um problema de saúde pública? Uma fonte da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) garante ao DN que todos os restaurantes estão devidamente fiscalizados e têm planos de combate às pragas. "O problema", diz a entidade, "é que um desses ratos pode esconder-se dentro de um restaurante e se for encontrado numa fiscalização o espaço terá de ser temporariamente encerrado".

Mas se o aumento de ratazanas nas Docas parece não alarmar a ASAE, a preocupação é óbvia entre os membros da Associação dos Concessionários das Docas de Santo Amaro. Em declarações ao DN, o presidente da associação adiantou ter comunicado "recentemente" o problemas dos ratos à Administração do Porto de Lisboa, entidade responsável pela manutenção do espaço da marina.

"Não é um problema novo, mas há picos", admite Frederico Collares Pereira. "Depois de ter recebido muitas queixas dos meus colegas, expus o problema ao Porto de Lisboa." E a entidade, explica o mesmo responsável, colocou caixas de engodo nas traseiras dos restaurantes, procurando assim que os roedores não invadam as cozinhas.

Segundo os testemunhos recolhidos pelo DN, o remédio pouco resolveu. "Acontece sobretudo ao início da madrugada, quando já há menos gente a circular e os restaurantes e bares se preparam para fechar." Em noites de mais calor, não é difícil vê-los por ali - uma cliente diz que chegou a ver três, em meia hora, a menos de dois metros da esplanada onde estava.

Aparentemente, não é caso exclusivo das Docas. "Na zona do Chiado, onde tenho um restaurante, também há este problema", diz o responsável. "Ainda há pouco tempo os funcionários me contaram que há muitos ratos a sair dos esgotos e já alertei a Câmara Municipal de Lisboa."

Durante a semana, o DN procurou em diversas ocasiões ter um esclarecimento da Administração do Porto de Lisboa, quer através de telefone quer por email, mas não obteve resposta.