Partilhar tradição filipina nas escadarias da Basílica da Estrela

A comunidade católica filipina recreou uma tradição que junta milhares de pessoas no país. Antes da missa, jovens (e alguns adultos) dançaram para mostrar a devoção a Santo Niño, imagem que Fernão de Magalhães ofereceu há quase 500 anos

Elisabete Silva
 | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Casal filipino Ederlina e Jovito Basvel | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Thelma Santos com o marido e os dois filhos | foto Orlando Almeida / Global Imagens
Lourdes Mendes e a filha Natasha | foto Orlando Almeida/Global Imagens
Embaixadora Celia Anna M. Feria e Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente | foto Orlando Almeida / Global Imagens
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Não foi o cenário habitual na Basílica da Estrela este domingo. A comunidade católica filipina em Portugal celebrou uma das suas mais marcantes tradições, aquela que a embaixadora, Celia Anna M. Feria, destaca como a ligação mais directa que existe entre o seu país e Portugal. As danças suscitaram alguma natural curiosidade, mas são a forma de mostrar a devoção dos filipinos a Santo Niño. Porém, para quem ali esteve presente, é principalmente a forma de manter viva as suas raízes e de garantir que aqueles os filipinos que entretanto por cá nasceram as conheçam, além de mostrar aos portugueses um pouco da sua cultura.

Thelma Santos tinha acabado de dançar no mesmo grupo do filho de 16 anos. Emociona-se ao falar do quanto se sente orgulhosa por ter Gabriel ao seu lado. "É muito importante para mim tê-lo aqui", confessa do DN. Também Gabriel realça a importância de desta forma passar tempo com a mãe, mas não só: "Eu não nasci nas Filipinas e assim conheço as minhas raízes." Também não nasceu em Portugal, mas na África do Sul, ainda que tenha vindo para cá pouco depois.

Thelma, de 46 anos, veio para o país há 17 e, numa história que não é única, foi o amor que a fez deixar as Filipinas, pois casou com um português. "Os primeiros três anos foram complicados, mais por não saber a língua. Mas adoro a cultura e as pessoas", salienta. Recorda que começou a aprender melhor o português quando o filho foi para a escola, apontando logo para o mais novo, Ricardo (seis anos). "Ele nasceu cá", diz orgulhosamente, não hesitando em considerar Portugal o país perfeito para educar os fihos, ainda que regresse de vez em quando às Filipinas.

Lourdes Mendes (57) assiste de fora ao momento em que Natasha (12) dança nas escadarias da Basílica da Estrela. Veio para Portugal há 21 anos depois do marido a ter, como diz, "conquistado". "Trabalhei em Angola [onde conheceu o marido] e depois fui para as Filipinas e ele foi lá para casar comigo. Ele conquistou-me! Depois trouxe-me para Portugal", conta. Chegou a passar mais um tempo em Angola, onde o marido ainda está, mas ambos preferiram que Natasha crescesse cá. Dedica a vida a cuidar da filha, mas recorda com alguma saudade como era nas Filipinas: "Trabalhava num tribunal. Sinto falta de arranjar-me, ir trabalhar, depois ir ter com os amigos..." Porém, gosta de Portugal e principalmente de estar ativamente envolvida na comunidade filipina e de ver como a filha também o quer estar.

Já Ederlina e Jovito Basuel (48 e 49 anos, respetivamente) são um casal filipino que vieram para Portugal há procura de um futuro melhor. Deixaram Macau há 11 anos e trabalham para uma família portuguesa. "Foi fácil adaptar-me ao país, porque já tinha conhecido muitos portugueses em Macau", explica Ederlina. Confessam a sua profunda devoção católica e, não escondendo alguma tristeza por nunca mais terem regressado às Filipinas, realçam como recriar em Portugal o festival Sinulog é importante para eles.

A embaixadora reforça precisamente a ideia da devoção, afirmando: "Os filipinos são muito espirituais. Estamos sempre à procura de uma força interior." Celia Anna M. Feria está em Portugal há menos de um ano destaca como o Sinulog é uma das formas que se pretende mostrar um pouco da cultura filipina em Portugal: "Esta é a nossa ligação mais directa. Fernão de Magalhães navegou por Espanha, mas era português."

A história da devoção ao Santo Niño começa quando o navegador ofereceu a imagem do Santo Niño a rainha Amihan e esta dançou ao recebê-la. Foi em 1521, durante a viagem de circum-navegação, uma data que marca também o início da cristianização das Filipinas. O festival Sinulog tem a sua origem na cidade de Cebu, onde chegou Fernão de Magalhães, e foi "institucionalizado", como explica Celia Anna M. Feria, há 40 anos, ainda que já fosse celebrado antes, atraindo mais de um milhão de filipinos só aquele local. Em Portugal, a recriação acontece há cerca de seis/sete anos, segundo Leilani Yu. A presidente da Associação Filipino Portuguesa, refere como na da Basílica da Estrela assistiu-se à maior, pois nos anos anteriores foi a Igreja do Corpo Santo o palco. Quando se mudaram para a Igreja da Madalena, não havia o espaço necessário e aproveitando o 10.º aniversário da comunidade católica filipina em Portugal, escolheram a Basílica da Estrela e convidaram o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que celebrou a missa que se seguiu às tradicionais danças.

A personalidade filipina

"Somos um pouco como os portugueses, estamos em todo o mundo", salienta Leilani Yu. O paralelismo é feito por se estar perante dois povos que devido à emigração estão espalhados em vários países. Leilani descreve assim o filipino que vive em Portugal: "Somos muito flexíveis. Acho que aprendemos a língua mais rapidamente que muitos. Somos muito amigáveis. Falamos inglês e os portugueses tendem a gostar de quem fala essa língua para, por exemplo, estarem com as crianças."

Apesar de muitos terem vindo para Portugal acompanhando os portugueses para quem já trabalhavam em Macau quando o território passou de novo para a China, realça como os filipinos podem fazer muitos trabalhos e como atualmente há médicos ou advogados, por exemplo, porque muitos ou já nasceram ou cresceram e tiraram os seus cursos universitários em Portugal. Diz mesmo que o filipino está tão bem visto no país, que já muita oferta de trabalho, mas "não há filipinos para as preencher".

A crise não passou ao lado da comunidade que terá à volta de dois mil filipinos, a maioria em Lisboa, mas não houve a tentação de ir embora. "Sentimos a crise com as pessoas a perderem os empregos. Mas o que pensamos é que podemos encontrar outro e se não temos um a tempo inteiro, então temos dois part-times", afirma. Celia Anna M. Feria acrescenta: "Não somos nada complicados. E este é o perfil do filipino em todo o mundo. Foi o mesmo quando estive em Madrid e Paris. Somos práticos. Se achamos que o salário é baixo, mudamos de emprego ou trabalhamos mais."
Apesar da maioria estar em Lisboa, mas também no Algarve e Porto, segundo a embaixadora, é em Sabrosa, Vila Real, que está a mais forte ligação. Voltamos a Fernão de Magalhães, pois foi a cidade onde nasceu o navegador. Leilani diz que Sabrosa é a cidade irmã de Cebu e que os filipinos são sempre muito bem recebidos. No entanto, a comunidade espera que com eventos como os de este domingo possa reforçar ainda mais os laços com os portugueses.