O ouriço maligno que João encontrou no livro de António

O médico, professor e ensaísta João Lobo Antunes morreu esta quinta-feira aos 72 anos

João Céu e Silva
Conversa entre João e António Lobo Antunes, na Casa das Histórias de Paula Rego, em 2015© Carlos Manuel Martins/Global Imagens

Num dos seus livros há aquele em que João Lobo Antunes analisa a obra literária do irmão António. Conta como "até terminarem o curso, os dois irmãos, separados por pouco menos de dois anos de idade, partilharam o mesmo quarto, acanhado e austero. Nas paredes apenas a fotografia a preto e branco de Charlie Parker, o saxofonista maldito. Cada um tinha uma estante-secretária onde habitavam duas bibliotecas incipientes que eles quase não partilhavam. Num lado, alinhava-se..." Vira-se a página e continua: "Até que um dia foi diagnosticado ao irmão escritor um cancro no intestino (...). Dois anos depois, António Lobo Antunes transformou a experiência da sua doença num admirável e mal disfarçado relato autopatográfico. Cujo título foi buscar a Camões, Sôbolos Rios que Vão. O livro chegou-me em 13 de outubro de 2010, com uma dedicatória simples: "Para o meu João"."

Quando este texto é publicado - meses depois de um encontro público em Cascais onde ambos tomam conta do palco e à desgarrada relatam coisas da vida de ambos, com um João Lobo Antunes feliz e um António Lobo Antunes que raras vezes sorri -, já o irmão sabe que desta vez fora ele o escolhido pelo cancro, o "ouriço" maligno que António colocava naquele romance que tanto agradara a João, pelo que dizia ao olhar de um médico. Por isso, nos últimos dias, António amaldiçoava o que consumia aquele com quem vivera 25 anos em comunhão. E chorava por causa do "ouriço" maligno que lhe tirava mais um irmão.