O GPS que viaja pelo pulmão e deteta lesões e tumores precocemente

Nova tecnologia está a ser usada pelo IPO e permite observar zonas onde as técnicas tradicionais não chegam

Carlos Ferro

Mais de 20 profissionais de saúde assistiram, na última sexta-feira, ao primeiro diagnóstico feito no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa com recurso à "navegação eletromagnética broncoscópica". Uma espécie de GPS que permite diagnosticar pequenas lesões na periferia do pulmão e que, em breve, deverá ser usado também para o tratamento do cancro do pulmão. "É uma nova esperança, que implica imaginação dos profissionais, já que é um sistema que podemos pôr ao serviço de vários procedimentos que podem ser feitos ao doente", explicou ao DN Duro da Costa, diretor do serviço de Pneumologia do IPO de Lisboa.

A doente, uma mulher, de 75 anos, tinha "uma pequena massa pulmonar", que não era visível através de uma broncoscopia tradicional (introdução de um pequeno tubo através da traqueia para detetar lesões). Em apenas duas horas, foi feito o diagnóstico e a biópsia, já que o material recolhido foi analisado pela anatomia patológica ainda na sala. Tem um adenocarcinoma pulmonar. Sem esta nova tecnologia, o procedimento seria feito por via externa ou através de cirurgia, uma intervenção mais demorada e dolorosa.

"Esta tecnologia permite fazer diagnósticos mais precoces em lesões mais pequenas e planear a terapêutica. Sempre que o tumor é diagnosticado precocemente, a mortalidade melhora", explica o médico, destacando que a mortalidade por cancro do pulmão tem estado a descer ligeiramente a nível mundial, mas a aumentar nos países "onde o tabaco ainda é um flagelo".

Procedimento rápido

Antes do procedimento é feita uma tomografia computadorizada (TAC), cuja informação é depois cruzada com aquela que é obtida através da broncoscopia por navegação. Com a introdução de uma sonda pela boca ou pelo nariz do doente, os médicos conseguem aceder a zonas onde até então era muito difícil ou mesmo impossível chegar. Uma espécie de GPS, como refere o diretor do serviço de Pneumologia. Através deste sistema, que permite a introdução de pinças, agulhas ou escovas, é feita a colheita de tecido da lesão, que é depois analisada pela anatomia patológica.

A percentagem de doentes que podem beneficiar deste sistema "é grande". "É usado para lesões que se situam na periferia no pulmão, com características de malignidade, quando é expectável que surjam complicações em abordagem por via hipercutânea [como roturas do pulmão]. E cada vez há mais tumores periféricos", afirma o especialista, destacando que "a abordagem feita por fora, com recurso a uma agulha e um cateter, tem mais complicações".

No diagnóstico, explica Duro da Costa, a grande vantagem é chegar a lesões mais pequenas, mas o sistema tem inúmeras potencialidades. "Se houver indicação para cirurgia, o sistema permite, através da aplicação de corantes, marcar áreas para facilitar a vida ao cirurgião". Também é possível, prossegue, "colocar marcadores metálicos à volta do nódulo para definir os campos de ação da radioterapia".

Existe ainda a possibilidade de usar o mesmo sistema para o tratamento do cancro do pulmão. Em Londres, no Hospital St. Bartholomew"s, o "GPS" já foi usado para esse fim, o que permitiu tratar uma doente sem qualquer incisão. "A eletrofrequência, ou radiofrequência, permite, através de um cateter introduzido por este condutor que deixamos no tumor, fazer um sobreaquecimento da lesão, que faz que as células sejam destruídas na parte tumoral e um pouco à volta", refere o especialista.

Trata-se de um procedimento "muito menos invasivo, menos agressivo". Duro da Costa espera vir a usar o novo equipamento - que custou 200 mil euros - também para o tratamento de tumores do pulmão no IPO de Lisboa. "Vai depender da imaginação criadora dos médicos. Temos de estabelecer protocolos com base na experiência para o podermos fazer."

O diretor do serviço de Pneumologia do IPO de Lisboa lembra que surgem todos os anos cerca de quatro mil novos casos de cancro do pulmão em Portugal, 85% dos quais relacionados com o tabaco. Este é ainda um dos tumores com maior mortalidade, em parte porque os sintomas tendem a ser desvalorizados.