No Tinder, mas sem sexo

Neste mês de agosto, o DN está a republicar artigos da coluna Amor Moderno. Esta é de outubro de 2015.

DN

Quando liguei para o meu centro de saúde no mês passado para pedir a receita da pílula anticoncecional que tomo há dez anos, puseram-me em linha com um médico que não era o meu ginecologista habitual e que começou a fazer perguntas sobre a minha saúde.

"Na sua ficha está escrito que está interessada tanto em homens como em mulheres, mas que não usa nenhuma outra forma de controlo de natalidade além da pílula", disse ele.

"É verdade", respondi. Para me antecipar a uma palestra sobre sexo seguro disse-lhe que não fazia sexo há dois anos, pelo que a questão era irrelevante.

"Então é uma abstinente secundária", disse ele tomando certamente nota disso algures na minha ficha.

"Bem, eu acho que "abstinente acidental" é mais apropriado", disse-lhe eu em tom de brincadeira, tentando manter alguma dignidade nesta conversa com um homem que provavelmente nunca iria conhecer e que parecia ver-me, nos meus 20 e poucos anos, como um tipo de mulher moralmente austera ou seriamente perturbada.

Depois de ter desligado o telefone procurei "abstinência secundária" na internet e fiquei a saber que é um termo que se refere a alguém que tem experiência sexual, mas que optou por deixar de ser sexualmente ativo, normalmente por razões ligadas à fé religiosa, a uma gravidez indesejada ou a doenças sexualmente transmissíveis.

Estou sem fé em quase todos os aspetos, nunca estive grávida nem nunca tive nenhuma DST. Nunca deixei de desejar sexo e nunca me identifiquei como assexual. Na verdade, quero frequentemente ter sexo com pessoas, mas simplesmente não tenho.

Sou "secundária" numa quantidade de coisas hoje em dia: vegetariana secundária, sóbria secundária, não fumadora secundária. Mas eis como a minha abstinência secundária deriva de tudo o resto em que sou secundária.

Deixei de comer carne porque desenvolvi uma preocupação mais profunda com o meio ambiente. Deixei de fumar porque faz mal. Deixei de beber porque tenho um problema com o álcool. Mas nunca desisti realmente de ter relações sexuais. O sexo apenas deixou de ser uma coisa que acontece na minha vida.

A minha experiência sexual mais recente foi há dois anos, num celeiro no Kentucky, com um fotógrafo que tinha conhecido no Ohio oito dias antes. Eu estava a viver temporariamente numa quinta em Independence no dia em que ele veio de Columbus para passar a tarde comigo.

Comprei uma garrafa de bourbon Larceny na noite anterior para me preparar e já tinha consumido metade antes de ele chegar. Eu nunca tinha feito sexo sóbria com um novo parceiro e não estava disposta a começar agora com um sujeito que mal conhecia.

Sei que muitas pessoas são adeptas dessa coisa de dormir com estranhos. Eu nunca soube como fazer isso. Nunca soube como passar de, "Então, qual é o seu nome?" para ter essa pessoa na minha cama ou eu na cama dela ou nós dois no banco de trás de um carro no estacionamento de um hipermercado.

O fotógrafo e eu tivemos relações sexuais duas vezes numa noite. Era tudo o que a televisão e o cinema me dizem que o sexo deve ser: espontâneo. Sem hesitação. Num local exótico (leia-se: não doméstico).

Aconteceu num sofá-baloiço de madeira, perto de um rio e no meio das árvores atrás do celeiro. E depois no celeiro, no calor e na humidade do verão.

Depois disso, caminhámos de mãos dadas até à estrada principal que conduz à cidade, dando risadinhas enquanto observávamos os pirilampos aparecerem e desaparecerem à nossa volta na luz do fim do dia. Foi romance e vendaval. Foi suor e mel.

Nessa última manhã no Kentucky, eu acordei às seis da manhã ao som suave de chuva e ao som metálico de Bon Iver que saía das colunas do telemóvel dele.

Ele fotografou-me enquanto eu fazia a mala e lembro-me de ele me dizer que os aeroportos são românticos, porque é lá que as pessoas percebem realmente o que sentem umas pelas outras.

Não é que eu não tenha querido ter relações sexuais desde então. Não foi um daqueles romances de verão arrebatadores. Foi o que foi. Divertido. Revigorante. Simpático. Mas nós vivíamos a quase 5000 quilómetros de distância um do outro e eu ainda estava com o coração partido do meu relacionamento anterior.

Se eu quisesse atualizar a definição de "abstinência secundária" que descobri na minha pesquisa no Google acrescentaria o seguinte à lista de razões para alguém poder deixar de ter relações sexuais: relacionamento fracassado, coração partido e ser enganada depois de uma quase proposta de casamento pelo homem que amámos toda a vida.

Talvez seja aqui que entra a fé. Talvez a minha abstinência secundária não aconteça devido à fidelidade a Deus, mas ao meu próprio coração partido e ao medo que parece produzir uma espécie de repelente magnético sempre que me aproximo de alguém que desejo.

As minhas amigas não parecem entender a minha abstinência secundária. Elas estão sempre a perguntar se eu já fiz sexo.

"Como é que aguentas tanto tempo?", perguntam. "Eu não consigo perceber."

Dizem-me: "Tens de baixar os teus padrões". "Vai ao bar mais vezes." "Adere a um site de namoro." "Faz um bom contacto visual." "Livra-te das tuas inibições." "Tens de ser mais aberta." "Deixa de ter medo."

"É apenas sexo", dizem elas. "Tens de deixar de te recusar a dormir com as pessoas só porque não queres casar-te com elas imediatamente."

A minha abstinência secundária é do tipo acanhado: fica calmamente sentada no sofá numa festa fazendo que todos os outros se sintam um pouco mais constrangidos por estarem a passar um bom bocado.

Sempre que vou a um concerto ou a uma festa, sempre que dou um passeio pela vizinhança, dou com a minha abstinência secundária a arrastar-se atrás de mim como um fantasma triste ou um cão indesejado.

Não é que eu não tenha tentado seguir em frente e ultrapassar esta fase da minha vida. Aderi ao Tinder. Sentada no sofá do apartamento de uma amiga interrompia a nossa conversa com perguntas do género: "Quem deve escrever a quem nesta coisa?" e "Porque é que tanta gente tem fotografias com tigres? Tu tens uma fotografia com um tigre?"

Perguntei à minha amiga como haveria de responder com muito tato à minha mais recente mensagem do Tinder enviada por um homem chamado Dakota, que ensinava yoga e não tinha um tigre na fotografia dele. Encontrei o perfil de um homem cujo nome era provavelmente Matt, disse-lhe que era nova nesta coisa do Tinder e perguntei-lhe como é que funcionava.

"Encontras uma quantidade de gente, nunca ninguém manda mensagens uns aos outros e nunca ninguém tem sexo", respondeu ele.

Aquilo pareceu-me improvável mas, de qualquer maneira, ele era de Long Beach, na Califórnia, o que é muito longe para uma viagem de carro só para se ter sexo, por isso acabei com a coisa por ali.

Quando uma amiga me perguntou recentemente por que motivo eu achava que nunca fazia sexo, respondi-lhe com todos os lugares-comuns: "Só quero concentrar-me em mim mesma por uns tempos." "Tenho medo de me magoar." "Os estranhos fazem-me impressão." "Quero apaixonar-me primeiro." "Não tenho tempo para conhecer pessoas." "Los Angeles é impossível."

Mas não tenho a certeza se acredito que qualquer um desses motivos se aplica a mim. Concentrei-me em mim mesma toda a minha vida. Tenho receio de sair magoada, mas não mais do que a maioria das pessoas. Alguns estranhos são extremamente atraentes. Afinal de contas o que é o amor? Tenho tempo de sobra. Los Angeles está cheia de homens e mulheres de todas as formas e feitios e esses homens e mulheres estão em todos os restaurantes, aulas de yoga e parques para cães da minha vida.

Há uma mulher que eu às vezes amo, uma investigadora da pena de morte, também recém-saída de uma separação da mulher que lhe partiu o coração.

Há um homem que eu às vezes amo, um escritor e vocalista de uma banda punk hardcore, que declara constantemente: "Eu não faço sexo" e "Eu não acredito no amor", no preciso momento em que se aproxima do meu rosto, dando quase a entender que um de nós tem a oportunidade de avançar.

O homem que eu às vezes amo diz-me: "O amor é um barco furado." A mulher que eu às vezes amo diz-me que o jasmim a florescer em Los Angeles a faz recordar o caminho para a escola no Egito quando era adolescente. E, na sua cabeça, ela está em algum lugar longe daqui, longe de nós. Nós não temos sexo, mas temos intimidade. Não é que eu opte por me abster de sexo nestas situações, o que acontece é que o sexo parece estar a optar por se abster de mim.

Na minha imaginação, o sexo que eu faço com cada um deles quando vou na minha bicicleta do trabalho para casa, quando estou presa no trânsito na autoestrada ou quando estou noutra situação em que esteja longe de mim mesma é épico. É tudo salas escuras e paredes de tijolo. Agressivo e delicado. É o tipo de sexo que faz que uma pessoa se apaixone instantaneamente.

Só que nós nunca temos relações sexuais. E nunca nos apaixonamos. Nós caímos num quase-amor e então a vida leva-nos para longe um do outro. E sem aquela memória de pele contra pele para nos unir através da distância e do tempo tornamo-nos, mais uma vez, estranhos.

Exclusivo DN/New York Times

Ilustração: Leonor Zamith