Metro sem capacidade de resposta ao aumento de pedidos de passe

Milhares de estudantes renovam, nesta altura, o cartão Lisboa Viva. Filas multiplicam-se e tempos de espera também

Susete Francisco
© Ricardo Gonçalves / Global Imagens

Estação de metro do Campo Grande, a meio da tarde de quinta-feira da segunda semana de setembro. Fábio Marques está há três horas na fila para tirar o cartão Lisboa Viva (que permite carregar o passe mensal). É estudante, vai recomeçar as aulas e ia tirar o título em versão urgente - o que significa que é feito e entregue em 24 horas. Mudou os planos entretanto: o Metropolitano só aceita cem pedidos de manhã e outros tantos à tarde e o número há muito que já foi atingido. Vai optar pelo pedido normal, que demora dez dias úteis. Até lá andará com bilhete.

Fábio está mais ou menos a meio de uma extensa fila de utentes do metropolitano que esperam pelo atendimento. Ainda tem cerca de duas dezenas de pessoas à frente, e bastante mais, largas dezenas, esperam atrás. Esperam e desesperam. A tal ponto que, quando uma funcionária do metro se dirige à fila e anuncia que de um certo ponto para trás já ninguém será atendido as vozes levantam-se e os ânimos exaltam-se. E só se acalmam quando se conclui que afinal não é bem assim. Na fila ficam os que foram numerados até 100, mas ainda não conseguiram entregar os papéis, os que estão à espera só para levantar o passe (a fila é a mesma para toda a gente) e aqueles que desistiram de pedir a versão urgente do cartão Lisboa Viva, optando pela normal.

Todos os anos a situação se repete, como admitiu ao DN um funcionário do metropolitano. Nas semanas que antecedem o início do ano escolar milhares de pessoas dirigem-se ao metro para renovar os passes, esgotando a capacidade de resposta da empresa. "Não temos pessoas que cheguem para o trabalho normal quanto mais para o extraordinário", refere o mesmo funcionário. Ao número anormal de pedidos junta-se ainda outro fator que faz demorar o atendimento: os estudantes beneficiam dos passes 4_18 e SUB 23, mas têm de entregar documentação adicional para ter acesso aos descontos associados a estes títulos.

No Campo Grande, como no Marquês de Pombal, outro dos pontos da rede onde se pode pedir o passe, há dois guichets para atendimento, mas só um está em funcionamento. Ao lado, um cartaz deixa o aviso: "Para poder garantir a entrega dos cartões Lisboa Viva urgentes no prazo previsto, a emissão diária encontra-se limitada. Quando o valor máximo diário for atingido não poderão ser aceites mais pedidos". Os funcionários vão alertando quem chega de que já não é possível tirar o passe.

Madrugar à segunda tentativa

O Lisboa Viva é um cartão eletrónico carregável, personalizado, para utilizadores frequentes dos transportes públicos. Pode ser carregado com títulos de vários operadores ou até com títulos de estacionamento. Na rede do metropolitano o cartão é emitido nas estações do Marquês e Campo Grande, o que totaliza um máximo de 400 emissões de cartões por dia.

Joana Rodrigues e Maria Palma são duas estudantes de Coimbra recém-chegadas a Lisboa para estudar na Faculdade de Belas Artes. Ontem tomaram o lugar na fila, no Marquês de Pombal, mas rapidamente desistiram face ao aviso de que já estava esgotado o número de passes urgentes. O regresso fica marcado para hoje "lá para as seis da manhã", para garantir que ficam na primeira centena de utentes. Já estão a fazer contas à vida: "Em três dias em Lisboa já comprámos três passes diários, já lá vão 18 euros". Glória e Beatriz Roberto, mãe e filha, também vinham pedir a emissão do passe. "Viemos fazer a inscrição na Faculdade e só nos despachámos agora. Disseram-nos que há às oito da manhã já não havia", conta a mãe, acrescentando que vão regressar ao Algarve e que a incumbência ficará para a filha, quando regressar a Lisboa para iniciar as aulas. No Campo Grande, um pai, Jorge Lopes, classifica a situação como "surreal": "Na era da informatização não faz sentido".

O DN questionou o Metropolitano sobre qual o volume de aumento no pedido de passes, nesta altura do ano, e se a empresa toma medidas de reforço do atendimento, dado que a situação se repete anualmente, mas não obteve resposta.