Exaltação patriótica em festa do regime

Concretização do "sonho" foi contada em cinco páginas de reportagem

Pedro Sousa Tavares

A inauguração da então Ponte Salazar, a 6 de agosto de 1966, não poderia ter chegado em melhor altura para o regime do Estado Novo. Uma semana antes, em Londres, o Portugal de Eusébio tinha batido a União Soviética em Londres, conquistando um inédito terceiro lugar no Mundial de Inglaterra, e a exaltação patriótica estava em alta.

A cerimónia inaugural da ponte - cujos festejos, em rigor, se prolongaram por dois dias - foi noticiada no DN com o mesmo entusiasmo e inspiração poética com que tinha sido relatada a apoteótica chegada dos "Magriços" a Lisboa. "Inaugurada a Ponte Salazar - Cem milhões de Europeus viram pela televisão a maior e a mais bela ponte do velho continente", assegurava a manchete de 7 de agosto, concluindo que "A Ponte nasceu Estrela".

"Era um sonho...um sonho que deslumbrou a imaginação das crianças portuguesas através dos séculos e que desesperou a ansiedade dos adultos ao longo dos tempos: o Tejo, o rio das nossas glórias, teimava em separar as duas metade do território metropolitano", declamava o editorial da primeira página, que terminava em registo de narrativa épica, exaltando o "arco de triunfo da capacidade e da determinação de um povo que dominou a natureza no jeito de quem domina a obra da criação" e rematando com uma citação do Presidente da República: "Declaro aberta ao tráfego e ao serviço da nação a Ponte Salazar."

No interior, ao longo de cinco páginas de reportagem, o tom não mudava muito. O destaque foi para a visita do Presidente da República, Américo Tomás, à cidade de Setúbal, onde recebeu em nome do regime a gratidão das forças vivas da Pátria. "Os lavradores saberão acompanhar o esforço da nação", declarava João Branco Núncio, representante das atividades económicas, numa das frases destacadas na notícia.

A missa de Ação de Graças celebrada "aos pés de Cristo-Rei" pelo Cardeal patriarca foi outro dos principais destaques. Perante "o Chefe de Estado, o Núncio Apostólico, a quase totalidade dos membros do governo e algumas das principais autoridades de Lisboa e de Almada", Manuel Cerejeira proclamou: "A glória desta ponte pertence ao homem que a construiu, ao homem que a dirigiu, ao homem que a pensou, ao homem que a decretou."

António Salazar, talvez com o pudor de quem vê ser dado o seu nome à que era na época a maior ponte suspensa da Europa, participou discretamente nos festejos, mantendo-se longe dos microfones. Mas o elogio ao presidente do conselho repetiu-se ao longo de quase todas as páginas dedicadas à inauguração. O "grande clamor que ecoou no vale do Tejo", assegurava-se na página sete, foi resumido pela frase: "Muito obrigado Salazar" proferida pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Na exaltação patriótica não faltaram elogios para ninguém, trabalhadores incluídos. Roger Blouth, da United States Steel - principal empresa responsável pelo projeto - terá enaltecido as "excecionais capacidades de trabalho do operário português".

No dia 8 de agosto o DN continuava a dedicar grande parte da primeira página aos festejos associados à inauguração da ponte, nomeadamente à regata de veleiros que se realizou sob o tabuleiro e ao "maior engarrafamento de trânsito jamais registado em Portugal, com "150 mil veículos e 1000 000 de pessoas".