Direitos humanos, um desafio para o próximo século

Jorge Sampaio foi o primeiro a discursar na sessão de encerramento da conferência da Fundação Champalimaud

Ana Maia
Jorge Sampaio com o ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso e Leonor Beleza, da Fundação Champalimaud© ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Dois ex-presidentes, Jorge Sampaio e Fernando Henrique Cardoso, um prémio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, e um representante da comunidade muçulmana, Ziauddin Sardar. A pergunta tem tanto de simples como a resposta de complexo. Como será o mundo no próximo século? A ciência poderá trazer coisas novas ou não, poderemos ter robôs a tratar das nossas doenças. Mas para olhar para o futuro é preciso aprender com o passado.

"Podemos especular sobre mudanças na vida, natureza, tecnologia que poderá mudar neste período. Há sempre uma parte social que faz parte do progresso. Podemos fazer o futuro. Há muitas possibilidades que podem ser tomadas. A incerteza é o que faz a política. É o tomar decisões para um grupo de pessoas. A comunidade enfrenta grandes desafios. Olhar para o futuro é fazer-nos olhar para as decisões que queremos tomar agora para os nossos netos e depois deles, e tomar decisões que lhes garantam pelo menos o que tivemos. A conferência que temos agora é muito importante", disse Jorge Sampaio, ex-presidente da República, que abriu a sessão de encerramento da conferência "O desconhecido, a 100 de hoje", na Fundação Champalimaud.

A base das respostas, avançou, está na lei, no respeito pelos outros, na igualdade e nos direitos humanos. "Precisamos que as leis sejam respeitadoras dos direitos humanos e da justiça social. Os pobres continuam a ser excluídos. São-no em todos os países. A desigualdade será uma das maiores ameaças e a lei assume um papel importante. Garantir direitos humanos é uma tarefa sem fim. Não podemos ceder nesta batalha. Temos de fazer a história continuar a andar nos próximos anos e não dar passos para trás", afirmou Jorge Sampaio.

Shirin Ebadi, prémio Nobel da Paz, lembrou que são as pessoas o mais importante. Sem elas não é possível um futuro. E por isso é tão importante aprender com o passado, olhar para o presente e tentar mudar o futuro. "Há questões para as quais ainda não temos resposta. Todo o progresso que vamos ter, tecnológico e cientifico, vai deixar as pessoas mais felizes? Seremos capazes de resolver todos os desafios que enfrentamos agora? O propósito de toda a ciência é vivermos melhor e mais felizes. Se este objetivo não for alcançado então para que serve?", questionou.

A Prémio Nobel da Paz falou dos milhares de refugiados que todos os dias abandonam o seu país em busca de uma vida melhor. Mesmo que para isso tenham de enfrentar a morte. "A questão é porque tantas pessoas fogem dos seus países e aceitam até o risco de morte para chegar à Europa e qual será o seu destino depois de chegar. Até quando será a Europa capaz de aceitar esta vaga de refugiados? Se não lutarmos pelas respostas agora, veremos este problema repetir-se nos próximos anos. O que é importante é a justiça social. A nível nacional e internacional, para termos a certeza que os países mais desenvolvidos podem olhar para os menos desenvolvidos e apoiá-los."

A previsão para o futuro de Shirin Ebadi "é que podemos acabar com o fosso entre ricos e pobres a nível nacional e internacional e ser capazes de combater ideologias erradas, capazes de respeitar os direitos humanos e dar dignidade nos próximos 100 anos". "Um futuro onde a base são os valores humanos e não números. Com todo o respeito pelos cientistas, peço que coloquem as pessoas no centro da discussão e não os números", acrescentou.