A rapariga noturna encontra um rapaz diurno

Recuperamos neste verão mais uma bela história de Amor Moderno, que foi publicada originalmente em janeiro de 2017.

Amanda Gefter

À meia-noite, encontrámos um lugar confortável junto ao rio Charles e olhámos para cima, à procura das poeiras perdidas de um antigo cometa. Apesar das luzes da cidade, vimos três meteoros a brilharem no céu noturno de Boston.

Falámos sobre a luz das estrelas, como tinha começado a sua viagem há milhares de anos atrás e nós estávamos a olhar para trás no tempo. Pensei como, num certo sentido, isso é sempre verdade: o meu agora não é o mesmo que o dele e nunca será. Há sempre um atraso, cada um de nós a viver no passado imediato do outro, independentemente da força com que os seus braços envolviam a minha cintura. Estamos todos presos nos nossos próprios fusos horários. O melhor que podemos fazer é tentar encontrarmo-nos num centro imaginário.

Foi o que fizemos. Ele marcou--nos uma viagem para fazermos esqui noturno. Eu consegui chegar à praia a tempo de sentir o sol na minha pele. Ele montou uma luz de alta potência na bicicleta e levou-me para um longo passeio numa noite escura de verão. Comi comida tailandesa ao pequeno-almoço; ele comeu panquecas ao jantar.

No entanto, ao fim de algum tempo, o compromisso constante fez de nós dois exemplares humanos embirrentos e olheirentos. Estávamos apaixonados, mas exaustos e prontos a desistir, resignados a curar os nossos corações partidos do lado oposto de um ritmo circadiano. Ele voltou para a sua cidade natal no Maine para limpar a cabeça. Eu voltei à noite para viver na minha zona de conforto.

Uma tarde (ou seja, logo após a meia-noite), recebi um e-mail dele sugerindo que tentássemos uma nova abordagem.

"Não há nenhum mundo que possamos ocupar ambos ao mesmo tempo", escreveu ele. "É uma ilusão. Nós não precisamos realmente de encontrar isso. "Em vez de lutar contra as nossas diferenças, vamos amar-nos um ao outro do outro lado do relógio.

Assim, decidimos viver juntos. Encontrámos um apartamento num sótão com inúmeras claraboias, onde a luz do Sol inundava a sala de estar durante o dia dele e a luz do luar fluía através do teto durante a minha. Ainda estávamos a desencaixotar quando houve um eclipse lunar total e levámos uma poltrona para a cozinha onde ficámos a ver a sombra da Terra a deslizar sobre uma lua de terracota.

Para marcar o nosso novo acordo de vida, ofereci a Justin uma edição ilustrada de O rapaz diurno e a rapariga noturna, um conto de fadas de George MacDonald, de 1882. Enroscados no sofá, revezámo-nos a ler capítulos em voz alta um ao outro.

Na história, uma bruxa cria duas crianças em cativeiro, sendo que ao rapaz só lhe permite ver a luz do dia e à menina, a da noite. Mas um dia, o rapaz fica lá fora mais tempo do que o devido e, quando escurece, ele fica aterrorizado. A menina encontra-o a tremer no jardim e tenta confortá-lo, explicando "quão suave e doce é a escuridão, quão gentil e amigável, quão suave e aveludada!"

Uma vez que está bem acordada, ela promete cuidar dele enquanto dorme. Quando o Sol nasce, ele acorda e descobre que agora é ela que está assustada, o sol é-lhe desconhecido, e assim ele toma-a nos seus braços enquanto a menina dorme até escurecer.

Justin e eu pensámos que poderíamos fazer o mesmo. Quando um técnico de reparações insistia em vir ao meio-dia, Justin ficava em casa para eu não perder uma noite de sono. Quando ele não tinha tempo para comprar papel de embrulho para presentes de anos, eu tinha-os prontos e embrulhados pela manhã.

Eu certificava-me sempre de que acordava antes de ele chegar a casa do trabalho para que pudéssemos cozinhar e comer juntos, o jantar dele e o meu pequeno-almoço. Depois, ele ia para a cama e eu escrevia durante horas sob o luar. Por vezes, aninhava-me em silêncio nos seus braços e sonhávamos alegremente lado a lado, pelo menos durante alguns minutos, antes que ele tivesse de se levantar.

Aos fins-de-semana, ele tocava guitarra, estava com amigos, enchia-se de sol, tudo enquanto eu ainda estava no mundo dos sonhos. Quando eu me arrastava até à máquina de café, ele já tinha andado 50 km de bicicleta e comido duas refeições. Ao pôr do Sol, ele cumprimentava-me com um alegre "bom dia!" e contava-me o seu dia; eu contava-lhe o meu ontem.

E assim foi, a terra a girar para cada um de nós à vez. Aproveitávamos ao máximo as horas em que nossas vidas se sobrepunham, depois deixávamos que o outro prosperasse no seu próprio tempo, como animais nos nossos ambientes naturais.

Em agosto, a Terra fez a sua passagem anual através da poeira e dos detritos daquele antigo cometa. Tarde nessa noite, Justin levou-me para uma praia isolada na costa norte de Massachusetts, onde um punhado de astrónomos amadores olhavam para o céu. Ele estendeu uma manta enquanto as rãs coaxavam à distância. Depois, procurou no saco da máquina fotográfica e tirou de lá uma pequena caixa preta. Eu não conseguia ver o que estava lá dentro, apenas um brilho, como o cintilar de uma estrela. Então ele perguntou: "Queres casar comigo?"

Deitámo-nos na manta, sorrindo, enquanto os meteoros cintilavam no céu. Naquela altura eram quase duas da manhã, tarde demais para ligar para alguém, para contar a novidade a familiares e amigos. Em vez disso, ficámos ali no nosso lugar e tempo compartilhados, cercados de areia e mar e algumas centenas de biliões de estrelas.

Escreve sobre Físicaem Somerville, Massachusetts, e é autora de "Trespassing on Einstein"s Lawn"

Exclusivo DN/The New York Times